A pílula de amnésia [conto]

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Imagem | CC0 Public Domain via Public Domain Pictures.net

Depois de uma reunião de seis horas, na qual seu relatório semestral de produção foi amplamente discutido (e verticalmente contestado), Ricardo estava indo para casa ter uma conversa decisiva com sua esposa. A relação já vinha se deteriorando nos últimos anos. Cláudia evitava as investidas sexuais do marido constantemente, e essas só obtinham algum sucesso em datas comemorativas ou uma noite de feriados prolongados na praia. Ricardo tinha uma forte desconfiança de que estava sendo traído por Cláudia com outro homem. Seus frequentes sumiços durante as tardes eram um indício, e o brilho nos olhos em alguns dias uma evidência. Contudo, não era apenas nessa seara que a vida dos dois estava conturbada. A crescente falta de comunicação entre eles levou o trem econômico da casa a um descarrilamento. Ambos estavam devendo em todos os concessores de crédito possíveis e imaginados. Diante de uma iminente demissão, e possível divórcio, o carro velho, as dores no ciático e o isolamento social, só uma coisa poderia ser capaz de aplacar o sentimento de vazio que tomava conta de seus pensamentos: a pílula de amnésia. Quanto mais Ricardo procurava soluções, mais acreditava que a melhor saída residia na formatação da memória.

O primeiro passo era enfrentar a barreira de entrar numa farmácia atrás de um comprimido para apagar o passado. Apesar de ser um produto largamente comercializado, pesquisado e assegurado pela ciência, havia um componente social intangível que dizia que quem precisa recorrer a esse método é fraco, está fudido e quer esquecer uma vida de merdas. Ricardo tinha sido subjetivado desde pequeno para acreditar nisso, e ele acreditava firmemente. Aceitar o método de eliminar o antes de era admitir toda sua covardia. Enquanto tudo isso passava como flashes em sua cabeça ele desviou o caminho para uma farmácia longe de casa e do trabalho e já tinha solicitado o remedinho ao atendente tentando usar um tom que indicasse que a caixa com sete comprimidos não era para ele. Pagou em dinheiro vivo, para que o vestígio de seus planos não fosse rastreável pelo cartão de crédito, e voltou para seu mundo automotivo. De novo no fluxo da marginal começou a planejar como tomaria a pílula. Não poderia ser em casa, afinal quando acordasse sem lembrar de nada estaria do lado de sua esposa, que não seria sua esposa, e sim uma estranha. E essa estranha não ia estar feliz com a situação. Talvez quisesse que ele voltasse a ser ele, ou não. Parecia sensato não arriscar. O senso comum dizia que tinha que deixar uma carta para si mesmo explicando a situação, para que quando acordasse pudesse ler e saber o que fazer. Ricardo encostou o carro numa praça, pegou papel e caneta, e escreveu:

Seu nome é Ricardo Silva, você tem 33 anos e nasceu em São Paulo. Olhe os documentos na sua carteira. Você tomou uma pílula da amnésia para se esquecer de toda sua vida porque você não aguentava mais ter que viver como se tudo estivesse bem mesmo sem estar. Você adora animais e a natureza, por isso devia ser veterinário. Você nunca leu muito e seria bom ler mais. Você acredita em Deus, mas não vá há igrejas. Não procure ninguém e comece uma nova vida. Não case. Viva mais livre, sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar de você. Não tente agradar os outros. Seja feliz com o que você tem e não fique pensando no que os outros tem. Viaje mais.

Após ler a bula, e ignorar todas as advertências para que fizesse o tratamento acompanhado de pessoas de confiança, ingerisse o comprimido em um lugar familiar e confortável e não escrevesse um bilhete para si mesmo, Ricardo descobriu que minutos depois de tomar o remédio cairia em sono profundo, acordando em umas 15 horas sem lembrar absolutamente nada da vida que viveu. E não tinha como voltar atrás. Seriam preservados conhecimentos técnicos básicos, como somar e subtrair ou andar de bicicleta. Já lembranças de leituras ou a localização de lugares no espaço seriam apagadas. A garantia de não se lembrar do próprio nome e da onde veio era de fábrica. Sem se importar muito com as 39.000 palavras de recomendações que constavam no pequeno livro de orientações Ricardo tirou uma pílula da cartela e mandou para dentro o mais rápido possível para evitar auto-questionamentos.

Quando acordou as coisas não faziam muito sentido. Era o meio do dia e ele estava suado e perdido dentro de um carro parado numa praça. A primeira meia hora passou olhando o mundo tentando saber que lugar era aquele e como ele tinha chegado ali. Ele queria sair do carro para perguntar para alguém alguma coisa, mas o medo de não saber responder o próprio nome deu início a uma angústia crescente no estômago. Um nome. Ele tem um nome, sabia disso, e queria lembrar qual é. Ele forçava, forçava, forçava, e nada. Então começou a mexer em tudo no carro e em si mesmo até achar um bilhete em seu bolso. Já tinha passado pela carteira, visto seus documentos e cartões, e em nada aquilo tinha ajudado. Seu estômago parecia que ia explodir. O que tinha feito que queria tanto esquecer? No que estava metido? No banco do passageiro repousava solitária a caixa de pílulas de amnésia. O tempo passava entre a leitura do bilhete e da bula. Antes de encarar o novo mundo ele precisava entender o que tinha acontecido no velho. Quem estava a sua procura? A polícia? A angústia de não lembrar o consumia a ponto de se retorcer no banco. O fim da tarde avançava e nem a sede e a fome eram o suficiente para o tira-lo do carro. Ir para onde? Fazer o que? Nada tinha mais sentido que seguir algumas recomendações do fabricante desta vez e tomar mais uma dose. Rasgar o bilhete e sumir com a carteira passou pela sua cabeça, mas pareceu arriscado demais dar cabo das únicas coisas que o ligavam a alguém e algum lugar, mesmo que ele não soubesse quem ou aonde. Ele juntou os dois mais a caixa com os comprimidos restantes, menos um, e escondeu tudo entre o encosto e o banco do passageiro. Antes de reformatar a memória pensou que podia deixar uma mensagem simples para si mesmo.

Saia do carro.

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