Os homens do esgoto [conto]

A tampa do bueiro na frente da portaria do Edifício Vida Mansa se abriu e quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor achou aquilo muito estranho. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Tudo neles parecia mecanizado. Alí, da portaria do Edifício Vida Mansa, ele ficou esperando atentamente alguma coisa acontecer ou explodir. Na primeira meia hora nada mudou, até que a tampa se abriu novamente e mais quatro homens, vestidos com macacões, emergiram do bueiro carregando uma mochila grande cada e saíram andando, em fila, na direção do norte. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Agora Seu Antenor não tinha mais dúvidas: alguma coisa errada estava acontecendo ali.

Seguindo o protocolo de segurança da portaria ele chamou o chefe dos vígias pelo rádio. “Eles estavam usando macacões iguais operário? Marrom, azul, cinza, sei lá.” “Azul, mas não tinha identificação nenhuma. Faziam tudo muito sincronizado.” “E saíram do bueiro e foram embora? Não mexeram em nada, não entraram em nenhum carro, nada?” “Isso. Eles estavam carregando umas mochilas grandes também. Pareciam pesadas.” “A câmera externa pegou isso?” “Pegou sim, tá tudo gravado.” “Então não se preocupe, deve ser a Companhia de Água consertando alguma coisa.” A explicação não satisfez Seu Antenor, que se sentiu até um pouco ofendido com o desdém do chefe, mas a hierarquia colocou ele de volta no seu posto sem nenhuma das ações que ele esperava.

Pouco tempo depois a tampa se abriu de novo, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor não se conteve, saiu correndo de seu posto e foi até a grade. “Ei. Vocês aí do bueiro. Ei. O que esta acontecendo?” Nenhum deles fez alguma menção às chamadas do porteiro. Aquilo fez o sangue dele ferver. Seu Antenor tinha certeza que alguma coisa muito errada estava ocorrendo ali, debaixo do seu nariz, naquele instante.

Desta vez, além de alertar o segurança pelo rádio, ele interfonou para a síndica. “Dona Selma, em menos de duas horas uma dúzia de homens saiu daquele bueiro carregando mochilas pesadas. Tem alguma coisa estranha acontecendo aqui. Escuta o que eu estou falando.” “O que o Senhor acha Seu Camilo?” “Olha Dona Selma, do jeito que o Seu Antenor me falou pareceu que eram funcionário da Companhia de Água. Se a Senhora quiser podemos ver as imagens, o Seu Antenor disse que a câmera pegou.”

Enquanto chefe da segurança e sindica debatiam se alguma coisa estava acontecendo, ou não, a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. “Olhem lá. Olhem lá. De novo. Do mesmo jeito. Mais quatro.” “Seu Camilo, por favor, veja o que está acontecendo.” O chefe da segurança saiu pelo portão andando rápido para tentar interceptar os homens, mas voltou alegando que não conseguiu alcançá-los e quando virou o quarteirão não viu mais eles. “Tudo bem Seu Camilo. Também me pareceu que eram da Companhia de Água. Seu Antenor, vamos deixar eles trabalharem em paz.”

O porteiro voltou para sua casinha com a pulga atrás da orelha. Podia ser qualquer coisa, de terroristas extremistas até extraterrestres que habitam os esgotos, mas não eram da Companhia de Água. Quando mais uma vez a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte, ele resolveu tomar uma atitude drástica. Ligou para a polícia. Depois de um tempo uma viatura parou na frente do Edifício Vida Mansa. Seu Antenor não se conteve. “Fui eu que liguei para vocês. Olha só, o que está acontecendo é que tem uns caras estranhos saindo do bueiro de tempo em tempo e…” “Nós já averiguamos Senhor. Estamos aqui para sua segurança. Por favor, volte ao trabalho.”

Seu Antenor voltou para seu posto ansioso para ver a tampa do bueiro se abrir. E foi batata, mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Pareciam nem terem notado a presença da polícia alí. Os policiais também não tiveram nenhuma reação a tampa do bueiro se abrindo e os homens surgindo. Agitando os braços e visivelmente alterado Seu Antenor saiu da portaria esbravejando o porquê de ninguém fazer nada sobre o que estava acontecendo. Haviam homens saindo de dentro do bueiro de tempos em tempos, carregando mochilas, vindo não se sabe da onde e indo para não se tem ideia. Aquilo era muito suspeito. Seu Antenor exigia saber o que estava acontecendo.

Sob a ameaça de ser preso por desacato e desobediência ele voltou para dentro e continuou sentado na portaria vendo homens vestidos com macacões emergirem do bueiro, carregando uma mochila grande cada, e saírem andando, em fila, na direção do norte. Sempre em quatro, de tempos em tempos, durante o dia inteiro.

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