A vaca da fartura – por Ella Young (1910) [tradução livre]

Tradução Livre | Eder Capobianco

  • Publicado originalmente, na Irlanda, como parte da obra Celtic Wonder-Tales (1910).

Gobniu, o Ferreiro, tinha uma Vaca da Fartura. Ela andava por toda a Irlanda em um dia, pastando e dando leite a todos que vinham a ela: não havia ninguém faminto ou pesaroso na Irlanda naqueles dias!

Balor do Olho Gordo colocou todo seu coração na Vaca. Ele tinha mãos gananciosas que nunca se enchiam, e não havia nada de bom em seu país. Ele enviou o melhor homem que tinha para roubar a Vaca da Fartura.

O homem a roubou, mas quando ele estava levando-a, Gobniu o viu e soltou um rugido de batalha que sacudiu as estrelas do céu. O homem deu um salto na escuridão e caiu. Gobniu tinha a Vaca, mas o Fomoriano tinha o cabresto. Mas a sorte do mundo estava no cabresto, e onde quer que o cabresto estivesse, a Vaca o seguiria. Gobniu não gostou muito da Vaca depois disso! Ele tinha que manter seus olhos nela, de manhã, no meio do dia e à noite, com medo de que ela fosse para o país de Balor. Ele teve que andar atrás dela quando ela passou o dia pastando por toda a Irlanda, e os dias pareciam longos para Gobniu, o Ferreiro-Maravilha.

Um dia, um jovem campeão, com uma capa vermelha com franjas de ouro, veio a ele e parou em sua porta saudando-o: 

“Ó Ferreiro-Maravilha, Ó Gobniu! Faria você uma espada para mim? Deve ser longa, e afiada, um mordedor de morte – uma espada para um campeão. Fará você isso, Gobniu? Nenhum ferreiro na Irlanda pode fazer uma espada para feitos de campeão, só você mesmo!”

“Não teria problemas com a espada, jovem campeão, mas devo seguir minha Vaca da manhã à noite. Se uma vez eu tirar meus olhos dela, ela iria para Balor na terra dos Fomor.

“Se você fizer a espada para mim vou seguir a Vaca da manhã até a noite, e nunca tirar meus olhos dela.”

“Se você fizer isso, Cian, filho de Dian-Cecht, farei a espada.”

E ficou isso combinado entre eles, e o Ferreiro começou a fazer a espada, enquanto Cian seguia a Vaca. Ela andou por toda Irlanda naquele dia, e Cian não se arrependeu quando com ela voltou à noite para a casa de Gobniu. Havia luz lá dentro, e alguns homens estavam na porta. Disseram a Cian:

“O Ferreiro-Maravilha fez a espada para você e o espera para a têmpera: ele não pode fazê-la até que você entre e segure o punho da espada.”

Foi uma alegria para Cian ouvir isto, e ele correu rapidamente para dentro.

“Onde está a Vaca?”, disse o Ferreiro.

“Ela está lá fora”, disse Cian; “minha cabeça a você se ela não estiver!”

“Ela não está lá fora”, disse o Ferreiro, “ela está com Balor!”, e correu até a porta. A Vaca tinha se ido!

“Tenho apenas minha cabeça a dar-lhe agora, ó Gobniu!”

“Não vou arrancar sua cabeça, Cian, filho de Dian-Cecht, mas vou tirar outro escarmento de você. Vá agora em busca do cabresto; está com Balor na terra dos Fomorianos. A estrada que leva até lá é difícil encontrar, e as águas escuras são difíceis de atravessar, mas não volte atrás nem deixe de procurar até que você pegue o cabresto da Vaca.”

“Não voltarei à Irlanda”, disse Cian, “sem o cabresto da Vaca.”

Cian partiu e viajou e viajou até chegar às águas escuras, e quando chegou a elas não encontrou nenhum barco para atravessar. Ele esperou lá por três dias e noites procurando um barco, e então viu um pequeno barco de aparência pobre com um velho nele. Cian olhou para o barco, mas, embora ele fosse um bom campeão e tivesse esperteza, ele não sabia que estava olhando para o Ocean-Sweeper, o barco que poderia levar qualquer um, em um instante, para qualquer lugar que desejasse estar; e ele não sabia que o velho era o Tawny Manannan, o Filho de Lear, que governa todos os oceanos do mundo.

“Velho homem”, disse Cian, “me conduziria através das águas para a terra de Balor?”

“Conduzirei você, jovem campeão, se você prometer dar-me metade do que você ganhar lá.”

“Compartilharei tudo com você, mas o cabresto é da Vaca de Gobniu.”

“Não estou pedindo por isso”, disse o condutor.

“Assim seja”, disse o outro. Eles entraram no barco, e em um instante tocaram as terras de Fomor.

“Você ajudou-me na necessidade, velho homem”, disse Cian. “Tenho um anel de ouro e minha capa é suntuosa – rogo a você que fique com ambos.”

“Aceitarei a capa”, disse o velho homem, “mas não pegarei o anel.” Ele colocou a mão nos dedos de Cian. “Vou deixar-lhe com um dom”, disse ele, “qualquer fechadura que você tocar se abrirá à sua frente.” Ele colocou seu manto nos ombros de Cian. “Isso cobrirá você como a noite cobre a terra – embaixo dele você estará seguro, pois ninguém conseguirá vê-lo.”

O manto caiu sobre Cian com longas dobras; ele sabia que havia mágica nele e se virou para olhar de perto o velho homem, mas não pôde vê-lo e o barco havia se ido.

Cian estava num país estranho, todo frio e ermo, parecendo morto; ele viu os violentos guerreiros de Fomor, mas o manto abrigava-o, e ele chegou à corte de Balor sem contratempos.

“O que você procura de mim?”, disse Balor.

“Farei um serviço para você”, disse Cian.

“O que você pode fazer?”

“Tudo o que os Dé Danaans podem fazer”, disse Cian. “Poderia fazer a grama crescer nesta terra, onde a grama nunca cresceu.”

Balor pareceu satisfeito quando ouviu aquilo, pois ele tinha um o maior desejo do mundo de ter um pátio interno de macieiras como as macieiras que os Manannan tinham na Ilha de Avilion, onde tão belas pessoas faziam canções sobre elas.

“Pode você fazer macieiras crescerem?” disse ele para Cian.

“Posso”, disse Cian.

“Bem”, disse Balor, “faça um pátio de macieiras como o pátio que os Manannans tem; e quando eu ver as maçãs na árvore darei a você o que pedir como recompensa.”

“Tenho apenas uma recompensa a pedir”, disse Cian, “e pedirei logo de início; é o cabresto da Vaca de Gobiniu.”

“Darei isso à você”, disse Balor, “sem enganações.”

Cian alegrou-se quando fez a barganha, e começou a trabalhar; ele tinha problemas suficientes com a grama, pois cada folha que crescia pela manhã era murcha pelo hálito de Balor à noite. Depois de um tempo ele tinha macieiras e, como costumava cuidar delas, muitas vezes olhava para uma grande baia branca que estava próxima. Guerreiros dos Fomorianos estavam sempre guardando-a, e um dia ele perguntou quem vivia ali.

“Ethlinn, filha de Balor, vive lá”, disse o homem que ele perguntou. “Ela é a mulher mais bonita do mundo, mas ninguém pode vê-la, e ela está trancada na baia no escuro para não se casar, pois diz-se que um filho nascido dela matará Balor.”

Cian ficou pensando nisso, e havia um desejo nele de ver a bonita mulher. Ele colocou o manto mágico e entrou na baia. Assim que ele colocou a mão na porta ela se abriu, por causa do encantamento em seus dedos. Ele entrou e encontrou a filha de Balor. Ela estava sentada em um tear, tecendo um pano de todas as cores e cantando enquanto tecia. Cian ficou um tempo olhando para ela, até que ela disse:

“Quem está aqui que não posso ver?”

Então ele deixou cair o manto. A filha de Balor o amou assim que o viu, e o escolheu para ser seu homem. Ele veio a ela muitas vezes depois disso, e eles fizeram juramentos de fidelidade um ao outro. Houve uma criança nascida deles, e ele era tão bonito que qualquer lugar em que estivesse parecia estar cheio de sol. Ethlinn, sua mãe, o chamava de Lugh, que significa Luz, mas Cian, seu pai, costumava chamá-lo de Deus-Sol; e ambos os nomes permaneceram com ele, mas Lugh era o nome pelo qual ele era mais conhecido.

Agora, Balor estava observando as macieiras, e quando ele viu maçãs nelas ele entregou o cabresto da Vaca de Gobniu para sua filha, e disse:

“Esconda isso, e quando me pedirem, não estará mais comigo.”

A filha de Balor pegou o cabresto, e um pouco depois Cian veio até ela com um galho de maçãs.

“As primeiras maçãs, para você!”, ele disse.

Ela deu a ele o cabresto.

“Pegue isso e a criança, e vá embora para a terra de onde você veio.”

“Isso é muito duro de se dizer!”, falou Cian.

“Não há nada mais a fazer”, ela disse.

Cian pegou a criança e o cabresto, e envolveu sua capa sobre eles. Ele disse adeus à filha de Balor e se foi, até chegar às águas escuras. Um barco estava lá e o velho nele. Cian pensou que eles estavam com pouco tempo para travessia.

“Você se lembra de nossa barganha?”, disse o velho homem.

“Lembro”, disse Cian, “mas não tenho nada, só o cabresto e esta criança – não vou fazer duas metades dele.”

“Você deu a sua palavra!”, disse o velho homem.

“Darei a criança a você”, disse Cian.

“Você nunca se arrependerá disso”, disse o velho, “pois eu o criarei e o trarei comigo como meu próprio filho.”

O barco tocou as terras da Irlanda.

“Aqui está seu manto”, disse Cian, “e pegue a criança.”

Manannan pegou a pequena criança em seus braços, e Cian colocou o manto sobre eles, e quando o sacudiu tinha todas as cores do mar nele e um som como as ondas quando quebram na praia com a música dos sinos. O velho era lindo e maravilhoso de se olhar, e Cian gritou para ele:

“Conheço você agora, Manannan Mac Lear, e foi em uma hora de sorte que lhe dei meu filho, pois ele será criado em Tir-nan-Oge e nunca conhecerá tristeza ou derrota!”

Manannan riu e ergueu o pequeno Deus-Sol bem alto com as duas mãos.

“Quando você o ver novamente, Cian, filho de Dian-Cecht, ele estará cavalgando em meu próprio cavalo branco e ninguém impedirá seu caminho por terra ou mar. Agora, despeça-se dele, e que a alegria e a vitória estejam com você!”

Manannan entrou no barco; brilhava com todas as cores do arco-íris, claro como cristal, e não tinha remos nem velas, com a água ondulando nas laterais e os peixinhos do mar nadando à frente e atrás dele.

Cian virou seu rosto para a casa de Gobniu, o Ferreiro. Ele foi até lá, e tinha o cabresto na mão, e quando chegou a Vaca estava a sua frente e Gobniu veio ao seu encontro.

“Boas-vindas em seu caminho, jovem campeão, e que tudo o que você empreender tenha um final feliz!”

“O mesmo desejo para você!” disse Cian, e deu-lhe o cabresto. O Ferreiro deu a espada a Cian, então, houve alegria e amizade entre eles para sempre.

Texto Original | <https://en.wikisource.org/wiki/Celtic_Wonder-Tales#The_Cow_of_Plenty>

Sobre Ella Young | <https://en.wikipedia.org/wiki/Ella_Young>

Imagem | Domínio Público via Wikipédia

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