A definição de poesia – por S. T. Coleridge (1836) [tradução]

Imagem |  Domínio público via Wikipédia

Tradução | Eder Capobianco

Poesia não é a antítese adequada à prosa, mas à ciência. A poesia se opõe à ciência e a prosa à métrica. O objeto próprio e imediato da ciência é a aquisição ou comunicação da verdade; o objeto próprio e imediato da poesia é a comunicação do prazer imediato. Esta definição é útil; mas como incluiria romances e outras obras de ficção, que ainda não chamamos de poemas, deve haver algum personagem adicional pelo qual a poesia não é apenas dividida dos opostos, mas também distinta dos modos de composição díspares, embora semelhantes. Agora, como isso é realizado? Em uma prosa viva, as belezas da natureza, as paixões e acidentes da natureza humana, são frequentemente expressadas em uma linguagem natural na qual a contemplação delas sugeriria uma pura e benevolente mente; ainda assim, nem nós nem os escritores chamamos tal obra de poema, embora nenhuma obra pudesse merecer esse nome caso não incluísse tudo isso, junto com outras coisas. O que é isso? É aquela emoção agradável, aquele estado peculiar e grau de excitação que surge no próprio poeta no ato da composição; – e, para entender isso, devemos combinar uma simpatia mais do que comum com os objetos, emoções ou incidentes contemplados pelo poeta, conseqüência de uma sensibilidade mais do que comum, com uma atividade mais do que ordinária da mente em relação à fantasia e à imaginação. Logo, se produz um reflexo mais vívido das verdades da natureza e do coração humano, unido a uma atividade constante modificando e corrigindo essas verdades por aquela espécie de emoção prazerosa, que o exercício de todas as nossas faculdades proporciona em certo grau; mas que só pode ser sentida na perfeição sob o pleno jogo dessas faculdades mentais, que são espontâneas em vez de voluntárias, e nos quais o esforço exigido não têm proporção com a atividade desfrutada. Este é o estado que permite a produção de um todo altamente prazeroso, do qual cada parte comunicará também para si um prazer distinto e consciente; e daí surge a definição, que creio agora ser inteligível, de que a poesia, ou melhor, um poema, é uma espécie de composição, oposta à ciência, por ter o prazer intelectual como objeto e por atingir seu fim pelo uso da linguagem natural para nós em um estado de excitação, – mas distinto de outras espécies de composição, não excluídas pelo primeiro critério, por permitir um prazer do todo consistente com uma consciência do prazer das partes componentes; – e cuja perfeição é comunicar em cada parte o maior prazer imediato compatível com a maior soma de prazer do todo. Isso, é claro, irá variar com os diferentes modos de poesia; – e aquele esplendor de linhas particulares, que seriam dignas de admiração em uma elegia apaixonada, ou uma sátira indignada curta, seria uma mancha e prova de gosto vil em uma tragédia ou um poema épico.

É notável, a propósito, que Milton, em três palavras incidentais, tenha sugerido tudo o que para fins da apreensão mais distinta, que a princípio deve ser lenta para ser distinta, me empenhei para desenvolver de uma forma precisa e estrita a definição adequada. Falando em poesia, ele diz, como entre parênteses, “que é simples, sensual, apaixonante”. Quão terrível é o poder das palavras! – freqüentemente temerosas em suas consequências quando meramente sentidas, não compreendidas; mas mais terrível quando ambas, sentidas e compreendidas! – Tinham essas três palavras apenas sido devidamente compreendidas por, e presentes nas mentes de, leitores em geral, não apenas uma biblioteca de falsa poesia teria sido excluída ou natimorta, mas, o que é mais importante, obras verdadeiramente excelentes e capazes de ampliar o entendimento, aquecer e purificar o coração, e colocar no centro de todo o ser a origem de ações nobres e humanas, que teria sido a dieta comum do intelecto. Para a primeira condição, simplicidade, – embora, por um lado, distingua a poesia do árduo processo da ciência, trabalhando para um fim ainda não alcançado, e supõe um caminho liso e acabado, no qual o leitor deve caminhar facilmente, com riachos murmurando ao seu lado, e árvores e flores e habitações humanas para tornar sua jornada tão encantadora quanto o objeto dela é desejável, em vez de ter que trabalhar com os pioneiros e dolorosamente fazer a estrada em que outros devem viajar, – exclui, por outro lado, toda afetação e peculiaridade mórbida; – a segunda condição, a sensualidade, assegura aquela estrutura de objetividade, aquela definição e articulação do imaginário e aquela modificação das próprias imagens, sem as quais a poesia se torna achatada em mera didática da prática, ou evaporada em um devaneio vago, impensado; e a terceira condição, paixão, prevê que nem o pensamento nem a imagem sejam simplesmente objetivos, mas que a passio vera da humanidade aqueça e traga vida a ambos.

Voltando, porém, à definição anterior, esse caráter mais geral e distintivo de um poema origina-se na própria habilidade poética; e embora compreenda tudo o que pode com qualquer propriedade ser chamado de poema (a menos que essa palavra seja um mero sinônimo preguiçoso para uma composição em métrica), ainda assim se torna uma definição de poesia justa, e não meramente discriminativa, mas completa e adequada em sua sentido mais elevado e mais peculiar, apenas na medida em que a distinção ainda resulta da habilidade poética, que sustenta e modifica as emoções, pensamentos e representações vívidas do poema pela energia sem o esforço da própria mente do poeta, – pela atividade espontânea de sua imaginação e fantasia, e por qualquer outra coisa que com isso se revela no equilíbrio e reconciliação de qualidades opostas ou discordantes, semelhança com diferença, um senso de novidade e frescor com objetos antigos ou habituais, um estado de emoção mais do que o normal com mais do que a ordem usual, autodomínio e julgamento com entusiasmo e sentimento veemente, – e que, enquanto mistura e harmoniza o natural e o artificial, ainda subordina a arte à natureza, o comportamento para o assunto, e nossa admiração do poeta para nossa simpatia com as imagens, paixões, personagens e incidentes do poema: –

Texto original | https://www.yorku.ca/paolucci/1001/Samuel%20Taylor%20Coleridge%20Definition%20of%20Poetry.docx

Sobre S. T. Coleridge | https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Taylor_Coleridge

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