Entrevista com Maya Angelou – Jane Julianelli (1972) [tradução livre]

Brian Stansberry – Criative Commons via Wikipédia.

Tradução livre | Eder Capobianco

Publicada originalmente na revista Harper’s Bazaar em 1972.

“…nascida uma perdedora – tinha que ser: de uma família dividida, estuprada aos oito anos, mãe solteira aos dezesseis…” No entanto, longe de ser um fracasso, aos 43 anos, Maya Angelou, autora, poetisa, maestrina, atriz, compositora e diretora de cinema, levou uma vida de pura inspiração, e ela ainda continua forte, como nesta entrevista exclusiva para Jane Julianelli.

Tudo começou na Horatio Street no apartamento do Sam. Escritora, a diretora de cinema Maya Angelou lembra um fim de tarde, duas garrafas de Scotch, James Baldwin, Jules e Judy Feiffer, histórias, risadas até altas horas. O fim de tarde resultou no seu best-selling autobiográfico I Know Why The Caged Bird Sings* (Random House), em 1970, e o livro foi transformado em um filme que, após o lançamento em 1973, fez de Maya a primeira mulher estadunidense negra diretora cinematográfica. 

* Eu sei porque o pássaro canta na gaiola (1970).

“Isso diz alguma coisa sobre os Estados Unidos. Haviam mulheres prontas e capazes de dirigir filmes anos atrás. Acabou amadurecendo em mim”, diz Maya, resoluta e gentil. Ela foi a primeira mulher negra a ter um roteiro original produzido: “Georgia, Georgia” em 1971.

“Também foi a primeira negra motorneira de São Francisco em 1945 – você pode colocar isso juntamente.”

Uma autobiografia? Ela fica sentada um longo tempo diante da ideia.

“Tenho vivido tantas vidas em 43 anos. A primeira, penso eu, que relataria, seria meus cinco anos na África durante os anos 1960. Sendo negra, mulher, não muçulmana, não árabe, 1,8m e estadunidense feita para muitas experiências interessantes. Mas, então, pensei que não havia escrito o suficiente para garotas negras estadunidense que dissesse, escute, você pode encontrar derrotas, mas nunca deve ser derrotada. Alguém poderia dizer da minha vida – nascida uma perdedora – tinha que ser: de uma família dividida, estuprada aos oito anos, mãe solteira aos dezesseis. Queria mostrar que isso é uma face, mas não a verdade. Na comunidade negra, por pior que pareça, há muito amor e muito humor. Queria lembrar os negros, mas uma vez que comecei a escrever vi que não era apenas para garotas negras, mas para jovens garotos judeus e velhas mulheres chinesas”, diz ela. 

Em sua poesia, publicada como um volume chamado Just give me a cool drink of water before I day* (Random House), suas músicas gravadas por B.B. King, sua vida como inovadora e aventureira, Maya fala através da experiência negra, mas esta dizendo sobre a condição humana.  

* Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morra (1971).

“Foi o que tentei fazer em ‘Georgia’, mas quando foi lançado na primavera passada eu soube que deveria ter dirigido o filme. O diretor, sendo europeu, já foi afastado; sendo sueco, foi afastado duplamente. Como muitos artistas suecos, ele lida com abstrações e tem medo de emoções humanas e contatos físicos.  É por isso que há uma predominância de sexo em oposição ao ato de fazer amor nos filmes suecos. O espírito sueco é anti-emoção – não mencione amor, não faça isso. Durante o dia, ninguém percebe ninguém. Mas, à noite, companheiros e mulheres começam com: ‘Ei! Ei, faça! Venha comigo. Nós vamos dormir.’ É um país sem preliminares.”

“E esta abordagem também afetou o caráter homosexual do Herbert, empresário de Georgia no filme. Ele criou a Georgia, uma superstar, e queria falar sobre a contribuição que os homosexuais deram, mostrando sua preferência sexual como incidental. O que torna Jimmy Baldwin maravilhoso é que ele diz: ‘Ok, colocado que sou gay, agora vamos falar sobre a situação racial, a ética puritana, as teorias mercantis que estão matando pessoas, considerem isso, ok?’ Por que não? As pessoas que trabalharam em “Georgia” não conseguiram captar isso”, ela encolheu os ombros.

Sua energia é ininterrupta. Ela está fazendo uma novela sobre um viciado em drogas e tem planos para dirigir seu terceiro filme na Europa ano que vem. “Trabalho: mulheres negras não tem tido problemas com trabalho desde que todas nós tivemos permissão para fazê-lo. O abismo entre mulheres e homens negros não é tão grande como se vê entre os brancos”, ela continua. “Uma mulher negra não precisa se desculpar – estamos nos preparando para ir trabalhar, essa é a nossa história.”

“Acho que as mulheres negras e brancas vão compartilhar um forte vínculo quando o Women’s Liberation* libertar a mulher branca. Somente iguais podemos ficar juntas. A mulher negra esta lá fora a muito tempo ralando e isto que fez ela tão forte. Quando a mulher branca se libertar, então poderemos ser amigas: ela saberá do que está falando, o que desafiou, o que isso lhe custou. Várias mulheres brancas me perguntaram: ‘O que posso fazer? É tão ruim para o seu povo’. E eu digo, bem, minha querida, faça o melhor que puder para se libertar, comece no seu quarteirão. Não venha ao Harlem para me libertar.”

* Movimento feminista estadunidense que mudou profundamente a relação da mulher com a sociedade no Estados Unidos da América, e no mundo. [Wikipédia EN

Se você tentasse libertar Maya Angelou seria o que ela chama de “crackerbox”, simplesmente retórica inútil. Como uma estadunidense negra nascida em St. Louis, Missouri, ela considera si mesma uma africana ocidental até as raízes, e as mulheres da África Ocidental estão entre as mais libertas e empreendedoras do mundo.  

“Em Gana, por exemplo, a estratégia das mulheres colocaram Kwame Nkrumah no cargo [de presidente]. Elas controlavam a economia. Minha amiga, a poetisa Efuah Sutherland, resolveu que Gana precisava de um teatro estadual. Ela projetou o teatro, construiu ele e o administra.”

Hoje Maya vive em Berkley, e o repolho cresce no quintal enquanto ela se mantém em constante movimento. No passado ela estudou e lecionou dança nos Estados Unidos e na Europa, cantou em boates, mandou ver no “The Blacks”, de Genet, na casa de shows St. Marks, trabalhou com o Dr. Martin Luther King como Coordenadora do Norte na Conferência de Liderança Cristã do Sul . Ela se mudou para a África, tornou-se editora social do The Arab Observer, no Cairo, e trabalhou como escritora freelancer e administradora de universidades em Gana.

“A primeira vez que me senti em casa foi em Gana. É tão frágil, eu vivi e ainda não consigo descrever…as pessoas são mais gentis. Em Gana você podia ser presa por chamar um homem de tolo.”

Quando perguntada porque ele sempre volta aos Estados Unidos: “Acredito que tenho algo para dizer e é melhor dizer aqui.”

Sobre Maya Angelou | https://pt.wikipedia.org/wiki/Maya_Angelou

Texto Original | https://www.harpersbazaar.com/culture/art-books-music/a2442/maya-angelou-bazaar-november-1972/