Eichmann e a consciência privada – Martha Gellhorn (1962) [tradução livre]

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Imagem | Domínio Público via Wikipédia

Tradução Livre | Eder Capobianco

Publicado originalmente na revista The Atlantic em fevereiro de 1962.

Martha Gellhorn, que esteve presente no Julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, reporta aqui alguns dos fatos e algumas das lições para serem aprendidas neste Julgamento, que é único na história do mundo.

No vidro a prova de balas do banco dos réus, moldado como a proa de um navio, senta um homem pequeno de pescoço fino, ombros altos, olhos curiosamente reptilianos, rosto pontudo, calvo de cabelos escuros. Ele troca seus óculos frequentemente, por nenhum motivo explicável. Ele aperta a boca estreita, faz beicinho. Às vezes, há um ligeiro tique no olho esquerdo. Ele passa a língua pelos dentes, parece sugar as gengivas. O único som ouvido em sua gaiola de vidro é quando – com um grande lenço branco – ele assoa o nariz. As pessoas que vão e vem a este tribunal encaram ele. Todos nós encaramos; de vez em quando encaramos novamente. Estamos tentando, em vão, responder à mesma pergunta: como isso é possível? Ele parece um ser humano, ou seja, ele tem a aparência de outros homens. Ele respira, come, dorme, lê, ouve, vê. O que se passa dentro dele? Quem é ele; quem na terra de Deus é ele? Como ele pode ter sido o que foi, feito o que fez? Como isso é possível?

A reação normal a um homem sozinho, com problemas, é compaixão. Um homem, apanhado, responsabilizado por seus crimes, uma pequena criatura, por mais odiosa que seja sua transgressão, inspira piedade quando encarada pela sociedade em todo o seu poder. Sua solidão compele à pena. No entanto, esse homem no banco dos réus não desperta esse sentimento, nem uma vez, nem por um instante. Dia após dia, ele se recosta na cadeira, impassível, e ouve o testemunho de homens e mulheres que ele atormentava. Geralmente, as palavras deles parecem cansá-lo; às vezes há um lampejo de irritação, uma careta. Ele acorda apenas quando os documentos são apresentados como evidência, quando ele pode mudar as pilhas de pastas em sua mesa, classificar, procurar um papel, fazer anotações: o homem da organização em sua trabalho escolhido. Nenhum gesto isolado, nenhuma expressão passageira de seu rosto reivindicam nossa simpatia – uma emoção que os homens sentem uns pelos outros porque precisam, não poderiam viver juntos sem isso, se reconhecem um no outro. Este homem está isento de nossa piedade, pois foi impiedoso além dos limites da imaginação. Não podemos entendê-lo por causa disso; e nós o tememos.

Nós temos motivos para ter medo, e o que nós tememos é mais profundo e forte do que terror tangível com qual nós vivemos: a ameaçadora luta entre países rivais, armas que se apropriam do direito da natureza. Nós o tememos porque sabemos que ele é lúcido. Seria um grande conforto para nós se ele fosse louco; poderíamos então desprezá-lo, com horror, sem dúvida, mas tranquilizando-nos de que ele não é como nós, seus mecanismo deram criminalmente errado, nossos mecanismos estão em boa ordem. Não há conforto.

Este é um homem lúcido, e um homem lúcido capaz de, sem arrependimento, de maneira ilimitada, planejar o mal. Ele era um burocrata genial, ele era uma super-poderosa mente fria dirigindo uma organização gigantesca; ele é o modelo perfeito de desumanidade; mas ele não estava sozinho. Milhares de entusiastas obedeciam ele. Alguém poderia não ter os talentos especiais dele; são necessárias muitas pessoas para esmagar a cabeça de um bebê na calçada diante dos olhos da mãe, para instigar um velho doente a descansar e dar um tiro atrás de sua cabeça; havia trabalho sem fim para mãos dispostas. Quantos mais iguais a estes existem por aí? O que os produziu – todos lúcidos, todos desumanos?

Nós consideramos este homem, e tudo que ele representa, com medo justificado. Nós pertencemos à mesma espécie. A raça humana é capaz – em qualquer época, qualquer lugar – de vomitar outros como ele? Por que não? Adolf Eichmann é o aviso mais terrível para todos nós. Ele é um aviso para guardar nossas almas; recusar total e eternamente lealdade sem questionar, obedecer ordens silenciosamente, gritar slogans. Ele alerta que a consciência privada é a última, e única, proteção do mundo civilizado.

Por três meses, documentos e testemunhas vivas, todas verificadas e provadas em cada polegada possível, vincularam esse homem aos crimes pelo qual é acusado: assassinatos de uma maneira, e uma escala, desconhecidas na história, e assassinato por lucro. Os judeus da Europa tinham roubadas todas suas coisas antes de serem assassinados; depois de mortos, ainda havia mais a ser arrancado de seus corpos – ouro de suas bocas e, ocasionalmente, no estômago retalhado dos corpos pedras preciosas podiam ser encontradas, a última patética esperança de comprar segurança em algum lugar. Essa vasta pilhagem enriqueceu muito o reich. Além do ascendente patriótico e espiritual de assassinar pessoas indefesas, matar judeus era um grande e lucrativo negócio. A contabilidade exata que acompanhou os assassinatos é a repugnância final. Um homem deveria ser enforcado apenas por roubar os sapatos de crianças enviadas descalças à morte em câmaras de gás. Seus sapatos tinham valor, seriam anotados em um livro e enviados para a Alemanha, para manter pés não-judeus aquecidos. 

Eichmann, organizando com dedicação, e incansavelmente, os assassinatos, pondo fim a todos os esconderijos, nunca ocupado demais para dizer não a um apelo de misericórdia, contabilizando meticulosamente a pilhagem, agora é reconhecido como o que era: o homem encarregado do “Caso dos Judeus” , o executivo responsável por destruir os judeus europeus. Visto que ele não foi solto em cima do resto de nós, uma vez que estamos seguros em nossos corpos, cercados por nossos bens, tendemos a esquecer que Eichmann nos espoliou a todos. Ele roubou da humanidade seis milhões de vidas. Quem eram eles? Conhecemos alguns – seus nomes, leves como folhas, flutuam nos dias de testemunhos: artistas, cientistas, professores, músicos, juristas, santos. Os inúmeros outros, membros de uma raça muito talentosa, não tiveram tempo para moldar a matéria-prima ainda verde do cérebro, coração e espírito. O mundo precisava do que eles tinham para dar, como um escudo contra as trevas; para evitar se tornar o mundo que este homem tentou construir. Ele roubou essas vidas, de todos nós. O mundo nunca saberá o quanto perdeu, mas sempre será mais pobre.

O indiciamento do Julgamento – único na história, como também único são os crimes – é datado: Jerusalém, quinto dia de Adar, 5721. No estado de Israel esta é a forma comum de datar documentos ou correspondência oficial. Mais de dois mil anos antes de Cristo, os patriarcas deste antigo povo estavam escrevendo a história de sua nação. Calculando a criação do mundo, a partir de dados bíblicos, eles atingiram o ano que coincide com 3760 a.C. como base para sua cronologia. No ano de 5721, um procurador-geral judeu, no Tribunal Distrital de Jerusalém, no moderno estado de Israel, ergueu-se e disse: “Quando estou diante de vocês aqui, ó juízes de Israel, não estou sozinho. Comigo estão seis milhões de acusadores.” Assim começou o Julgamento de Adolf Eichmann.

No início deste Julgamento grave, escrupuloso e comovente, a imprensa mundial compareceu: por um breve período, o Julgamento foi a sensação mais luminosa que os jornais tinham para oferecer. Então, um homem, em uma cápsula de prata, girou ao redor da terra através do espaço sideral; houve outras notícias; o Julgamento continuou sem parar; pessoas gemiam de cansaço; protestaram que a coisa toda era inútil – como um homem poderia pagar por seis milhões de mortes, talvez fazer um julgamento fosse um erro; muito provavelmente, apenas iniciaria uma onda de anti-semitismo.

Acho isso tão chocante que não tenho palavras para minha indignação. O Julgamento foi essencial para todo ser humano, os agora vivos e todos os que seguirão; e, apesar de sua extensão e cuidado, o Julgamento fornece apenas um registro parcial – pois a cena do crime era um continente inteiro, as vítimas eram uma nação inteira, os selvagens metódicos que cometeram os crimes eram tão espertos quanto maus, engenhosos e brilhantes organizadores, viciados em papelada. Este é o melhor registro que nós e nossos descendentes jamais tivemos; e devemos ao estado de Israel uma dívida imensurável por fornecê-lo. Ninguém que tente entender nossa época, agora ou no futuro, pode ignorar esta documentação de um modo de vida e morte que manchará nosso século para sempre. Ninguém verá as dimensões completas do homem do século XX – e isso inclui todos nós, eu insisto – sem estudar o Julgamento de Eichmann.

Por acaso nos aborrece ouvir a agonia de um povo? A indiferença imaginária, a apatia do coração, são doenças fatais. Ou temos medo de saber porque temos medo de examinar nossas próprias consciências, nossas próprias responsabilidades e nosso imenso egoísmo? Será que pensamos que este Julgamento não nos diz respeito – diz respeito a judeus e alemães europeus; e em nossa terra abençoada, transbordando com milk-shakes e potes de mel, isso nunca poderia acontecer? Os judeus não são uma cria separada da raça humana e, alas, também não são os alemães. Estamos desesperadamente envolvidos, todos nós, em todos os lugares.

A destruição massiva de um povo inocente, somente porque nasceram judeus, aconteceu durante nossa existência. Nós devemos saber tudo sobre isso; nós devemos ser capazes de reconhecer cada sintoma, cada sinal, para garantir que isso nunca aconteça novamente – sob qualquer outro disfarce – a qualquer povo, em qualquer lugar. Afastar-se disso é tão louco quanto afastar-se do câncer, dizendo que o câncer é cruel, doloroso, injusto e resulta em morte. O anti-semitismo é o câncer e aflige os membros mais fracos da raça humana. Vimos o que a Alemanha se tornou, quando as células cancerígenas se multiplicaram, organizaram e ganharam o controle de todo o corpo político. Não apenas judeus morrem; tudo em que acreditamos – decência, justiça, verdade, misericórdia – morre também. Este julgamento é destinado à nossa educação e somos obrigados a aprender com ela, pela segurança e honra de nossa espécie.

A admiração pela corte crescia diariamente. Os crimes cobrem 12 anos no tempo. Mais de 2000 documentos – tão densos quanto os maços ou uma única folha – foram enviados, verificados, numerados, aceitos ou rejeitados. Testemunhas falavam hebraico, iídiche, alemão, polonês, inglês e mais idiomas. Era uma tortura visível para todas as testemunhas falarem; uma divagava em sua cabeça, gritava algo sem palavras, mas aterrorizante de ouvir, desmaiou, lembrando-se de Auschwitz. A platéia estava tensa, ainda esforçando-se para ouvir, até que de vez em quando uma voz gritava em desespero; então a polícia silenciosamente conduzia o perturbador pelo corredor. A luz forte – para a segurança do prisioneiro, para a televisão oculta – machucava os olhos. O ar condicionado estava frio demais e ainda assim alguém suava. Todo dia era mais do que a mente e o coração podiam suportar; e o Julgamento continuava sendo executado, sempre na hora, sempre sob controle silencioso. Nenhum advogado ou juiz em qualquer outro lugar foi presenteado com essa tarefa ou a dominou. Isso não pretende denegrir os Julgamentos de Nuremberg, que eu também assisti; mas pretende, humildemente, elogiar a coerência, a ordem, o respeito absoluto pelas regras da evidência, a cortesia, a brilhante justiça do Julgamento em Jerusalém.

Uma fundação educacional estadunidense poderia prestar um serviço urgente coletando os relatórios estenográficos em hebraico do Julgamento – uma montanha de papel – e traduzindo-os para um inglês limpo e preciso. A condução do Julgamento foi acima das críticas, mas os israelenses não conseguiram tradutores que tivessem um entendimento igual do hebraico e do inglês. As transcrições em inglês dos procedimentos do dia geralmente são opacas, se não incompreensíveis. Precisamos dos volumes do Julgamento, em bom inglês, em todas as nossas bibliotecas; e precisamos deles agora.

Por dois terços do Julgamento, a promotoria acumulou evidências do inferno negro que se estendeu dos Urais aos Pirineus, do Báltico ao Mediterrâneo, e era controlado por Adolf Eichmann. Trechos aleatórios do testemunhos podem dar uma leve noção do clima de uma vida que nunca conhecemos. O julgamento prosseguiu cronologicamente, país por país; dois meses depois de assumir o poder em 1933, os nazistas já estavam caçando judeus na Alemanha.

Em todos os lugares, os judeus foram primeiro privados de todos os seus direitos como cidadãos, depois de todos os seus bens mundanos, então marcados com uma estrela amarela e reunidos em guetos, para morrer de fome e morrer das doenças da fome e da sujeira e, finalmente, uma vez que nada disso foi o suficiente, eles foram abatidos em dezenas de milhares por dia. Aqueles que podiam trabalhar eram usados para trabalho escravo; sua morte foi adiada até que se tornaram inúteis à exaustão. No caminho, por todo o caminho, foram espancados, mutilados e assassinados à vontade. Seus corpos foram quebrados rapidamente e com habilidade; seu espírito parece ter resistido mesmo dentro das câmaras de gás. As pessoas, asfixiadas pelo gás cianeto, não morriam de uma maneira fácil, aparentemente ainda mantinham sua humanidade: pois cadáveres de mulheres foram encontrados agachados sobre seus filhos, tentando um último esforço para protegê-los, e homens e mulheres foram encontrados com as mãos entrelaçadas em sinal de amor.

A maioria das testemunhas era de meia idade; algumas pareciam mais velhas do que deveriam ser; poucas eram jovens. Havia homens de terno, com óculos e armações de ouro, e homens de camisa de mangas curtas; mulheres em roupas sob medida, mulheres em roupas de dona de casa. Todos eles, em guerra, teriam recebido medalhas por bravura. Homens e mulheres de meia-idade e idosos haviam representado os judeus e trabalhado por sua segurança, tratando obstinadamente com os alemães, com Eichmann, e assim se expuseram a um aviso e ira especiais. Os mais jovens, desprovidos de suas famílias, usados e tratados como animais com crueldade calculada, esperando sua vez de morrer, no entanto, se levantaram contra seus assassinos em revoltas condenadas. Todas as testemunhas foram humildes; ninguém tinha muito a dizer sobre sua própria vida ou atos. Eles estavam apenas relatando o que sabiam porque haviam visto e ouvido, vivido. Eles falavam de outros.

Um antigo advogado, um judeu alemão, um líder sionista que esteve na prisão “por insultar a Gestapo”, tentou explicar à corte como era a vida dos judeus na Alemanha antes da guerra. Essa foi a primeira fase, quando os nazistas estavam aprendendo seu ofício, até Eichmann estava aprendendo. Havia a proibição contra os judeus como humanidade – nenhum trabalho com ou para gentios, sem cafés, sem transporte, sem teatros, sem lojas; músicos judeus não deviam tocar a música de Bach e Brahms, embora Mendelssohn fosse permitido; os livros de grandes escritores judeus foram queimados, enquanto multidões tripudiavam em volta das fogueiras. Mantenha os vermes judeus afastados dos super-homens arianos puros. Caixas de cinzas foram devolvidas de Dachau* mediante pagamento de uma taxa. Sinagogas foram destruídas. Muitos dos caçados se mataram enquanto o resto procurava freneticamente por um país para onde fugir. Naquela época, os alemães estavam apenas levando essas pessoas, agora sem dinheiro, a emigrar. A “solução final” é em parte culpa do mundo ocidental; os alemães viram a casualidade esnobe das democracias e decidiram que ninguém queria judeus; os judeus eram uma droga no mercado; não importava o que era feito aos judeus.

* Primeiro campo de concentração construído pelos nazista e destinado a presos políticos. [Wikipédia]

O velho homem gritou repentinamente: “Uma planeta sem visto!”

Aqui está a culpa das democracias livres. Nunca devemos esquecer isso. Nisso, os Estados Unidos devem arcar com a maior parte da responsabilidade. De 1933 a 1943, abrimos na nossa porta de ouro uma fenda miserável para admitir 190.000 dos milhões de judeus condenados. Grã Bretanha? Ainda mais atingida pela Depressão, pequena, que logo estaria em guerra, bombardeada, racionada, alojando os soldados Aliados em sua terra superlotada, recebeu 68.000 judeus refugiados. A comparação fala por si só, embora nenhum de nós tenha motivos para se congratular.

Mais tarde, um velho corajoso, um cristão alemão, o pastor Grueber, falou novamente da mesma forma. Ele ganhou o direito de falar; ele ajudou os judeus na Alemanha abertamente; ele acreditou nos ensinamentos de seu Senhor; e ele pagou por sua fé na prisão em Dachau. Depois dos pogroms* organizados pelos nazistas em toda a Alemanha em 1938, o pastor Grueber foi à Suíça pedir mais vistos estrangeiros para os judeus: “Todas as instituições oficiais, embaixadas, eles não mostraram nenhum entendimento ou interesse no grande número de judeus. Muito frequentemente saíamos daqueles lugares cheios de raiva, não apenas cheios de vergonha, pela falta de prontidão em ajudar…Posso me permitir dizer que esses países estrangeiros, na época, mostravam apenas uma pequena porcentagem da responsabilidade, e agora, sendo revelado o interesse no grande número de refugiados, deslocados e imigrantes, seria possível salvar milhões de almas?”

* Palavra russa usada para designar uma destruição violenta, que passou a fazer parte do vocabulário alemão depois da Noite dos Cristais, em 1938. [Wikipédia]

Mas ele não disse à corte o nome de um compatriota, agora vivendo na Alemanha, que havia ajudado judeus durante o regime nazista. “Eu poderia trazer à Corte um arquivo completo de ameaças e escárnio que recebi, especialmente em relação à minha viagem a Israel…Para mim, essas coisas não significam muito…mas eu não gostaria de causar esse sofrimento para outros.”

Qual é a doença da Alemanha?

O pastor Grueber conheceu Eichmann bem; ele estava frequentemente no escritório de Eichmann, pedindo clemência inutilmente. “A impressão que ele [Eichmann] causou em mim foi de uma pedra de gelo ou mármore, completamente desprovido de sentimentos humanos.”

Em centenas, os israelenses escreveram cartas para agradecer e abençoar o pastor Grueber. Para eles, um homem bom redimiu uma nação.

Um judeu da Grécia, um comerciante pobre, descreveu o que havia acontecido em Salônica; ele falou com uma voz curiosa, como se mal pudesse acreditar na própria história. Seus concidadãos, os gregos de Salônica, receberam carta branca para levar o que quisessem das lojas judaicas, pagando com um cínico IOU*. E, alas, eles fizeram isso, como gafanhotos. Os judeus, despojados de tudo o que possuíam, foram amontoados nos guetos, onde o tifo os assolaram imediatamente; os alemães tinham medo de tifo. Esse homem provavelmente sobreviveu porque os alemães estavam relutantes em arrancá-lo enquanto ele estava doente em seu buraco. Os alemães, seguindo sua prática habitual de enganar, disseram aos judeus de Salônica que agora eles deixariam toda essa miséria, se estabeleceriam felizes na Polônia e viveriam juntos em paz. Com suas últimas economias escondidas, as pessoas compraram zlotys** sem valor (o tema repugnante do roubo ocorre repetidamente); além disso, compraram guarda-chuvas, pois certamente choveu em Cracóvia, ao contrário da ensolarada terra da Grécia. Dúvidas quanto ao seu futuro devem ter surgido rapidamente quando descobriram que eram setenta e oito pessoas embaladas em vagões lacrados com capacidade para quarenta. Esse era o número regulamentar de “transporte de material”, como os alemães chamavam os judeus, para cada vagão de mercadorias. A jornada foi muito longa; nenhum vagão chegou sem sua carga de mortos. Mal se pode imaginar os dias e as noites nessas caixas sufocantes, a sede, a sujeira, a doença, o medo e o rosto das crianças. Haviam 56.000 judeus em Salônica; depois haviam 1950. Esse homem tinha mãe, pai, esposa, quatro irmãos e quatro irmãs. “Eu continuo sozinho”, disse ele, e olhou em volta como se não soubesse onde estava.

* IOU = I owe you, em tradução literal “eu devo a você”, que seria um documento informal sem garantia de pagamento ou acesso à ferramentas judiciárias. [Wikipédia EN]

** Moeda polonesa.

Agora há um jovem homem que cresceu no campo da morte de Treblinka. Aos 14 anos, separado de sua mãe, como era costume na entrada do campo de concentração, ele gritou para ela onde lhe escrever em Varsóvia; sua mãe, é claro, foi enviada diretamente para a câmara de gás, ao longo do que os alemães chamavam de “Himmelstrasse”, o caminho de arame farpado para o céu. Na sua primeira noite, o garoto havia entendido o lugar e tentou se matar, mas um velho judeu o salvou, dizendo que era seu dever viver e ajudar os outros, e, uma vez que é jovem, ele poderia ter forças para sobreviver, e então era seu dever contar ao mundo.

O jovem explicou Treblinka com a voz à qual nos acostumamos: era quase possível ver os músculos se estirando no esforço de falar de forma clara e calma. Antes de 1943, os corpos das câmaras de gás eram arremessados nas valas ou jogados por um guindaste; após uma visita de Himmler, o sistema de pira foi adotado como mais eficiente. Havia treze câmaras de gás separadas, e uma vez a cada trinta e cinco minutos 10.000 pessoas eram mortas nelas. Ele teve muitos empregos, essa criança, desde cortar o cabelo das mulheres para encher o colchão até arrancar os dentes de ouro dos cadáveres. Então, um dia, ele encontrou o cadáver de sua irmã na pilha. (Ele respirou fundo; manteve-se rígido.) Desses dentes, oito a dez quilos de ouro eram coletados a cada semana e expedidos em malas para Berlim.

Atrás de mim, na sessão pública do tribunal, uma velha com um rosto bonito e desgastado, usando um lenço na cabeça e um jornal em volta dos ombros, contra o desproporcional resfriamento do ar, lacrimejava – sem movimento, sem som e sem parar.

Outro judeu polonês, um trabalhador mais velho, descreveu como Chelmno, um campo de extermínio mais primitivo, operava antes que os experimentos de assassinato em massa alcançassem o Ciclon B, os cristais de cianeto filtrados em câmaras de gás disfarçadas para parecerem banheiros. Em Chelmno, eles ainda usavam caminhões; davam às pessoas uma toalha e um pedaço de sabonete, diziam que estavam a caminho de tomar um banho, consultar o médico, receber roupas limpas e começar uma nova vida. Então os caminhões lacrados eram levados para uma floresta e o monóxido de carbono bombeado para eles. Era uma morte lenta, desperdiçava um tempo precioso da SS e matava poucas pessoas por caminhão. Alguns judeus, dos quais esse homem era um, foram mantidos vivos para cavar as grandes trincheiras nas quais os cadáveres eram enterrados; mas essa gangue de trabalhadores também foi morta, por esporte, uma vez que a oferta de mão-de-obra não era apenas ilimitada, mas destinada a ser consumida.

“Sim, restaram quarenta de nós – quarenta e um. Os outros foram mortos. Aos domingos não havia trabalho, e fomos colocados em fila; cada homem tinha uma garrafa na cabeça e eles se entretiam atirando nas garrafas. Quando a garrafa era atingida, o homem sobrevivia, mas se a bala pousasse abaixo do alvo, ele tomaria o tiro. Os outros ficaram para trás para trabalhar.”

Uma atraente mulher de cabelos escuros, que tinha sido deportada para a seção de mulheres em Auschwitz com 21 anos, falou sobre um homem cujo o nome todos nós sabemos agora, e insulta: Dr. Mengele. Ele ainda está vivo pelo mundo, escondido em algum lugar. Ele era o médico chefe de Auschwitz: os alemães praticavam experiências sub-humanas em carne viva, em vários campos: o Dr. Mengele, de Auschwitz, parece ter sido o sádico mais degenerado de todos, uma abominação entre os homens.

A jovem era uma líder de bloco; nessa condição, tinha alguma liberdade de movimento e, portanto, podia visitar os ciganos no campo. (Deve ser observado que os israelenses também estavam julgando Adolf Eichmann por planejar o assassinato racial de ciganos, cujo os alemães haviam decidido exterminar porque eram um “elemento anti-social”. Os ciganos mortos não têm mais ninguém para falar por eles.) A jovem foi espancada – e teve sorte por não ter sido morta pelo chicote, como tantas outras – por alertar as mulheres ciganas a nunca dizerem que estavam doentes, a nunca reclamar, a nunca perguntar por membros desaparecidos de suas famílias: a resposta alemã a todos esses comentários era a morte imediata na câmara de gás. Um dia, no campo cigano, ela viu gêmeos ciganos recém-nascidos, voltando para sua mãe; mas o Dr. Mengele os costurara pelas costas, aparentemente interessado em criar gêmeos siameses. E, novamente, como o nascimento não era permitido aos judeus, um bebê foi retirado de sua mãe e jogado em um fogo por perto: a mãe andou até a cerca eletrificada para se matar. Mas, disse a garota, as mulheres sempre faziam isso; era o caminho mais rápido.

Atrás de mim, como um mareado suave, eu podia escutar as mulheres na plateia em soluços de horror e aflição. Horror e aflição eram emoções diárias comuns naquela corte.

É impossível transmitir a angústia sentida apenas ao ouvir a angústia sofrida. O desespero pela humanidade, um verdadeiro escurecimento da mente, teria nos afogado, se não fosse pelos poucos e belos exemplos de solidariedade humana contra o mal humano.

Os Danos*, liderados pelo seu rei Christian X, salvaram seus judeus da fúria raivosa de Eichmann. Os judeus na Dinamarca nunca usaram uma estrela amarela, porque o rei disse que ele seria o primeiro a usar uma, se tal ordem fosse imposta a qualquer um de seu povo; nem foram levados para os guetos. Os nazistas tentaram, como sempre, inflamar o anti-semitismo nos Danos publicando mentiras obscenas sobre os judeus. Os Danos, sem hesitar, transportaram seus judeus em balsas através da água para a Suécia. Eles esconderam judeus velhos em seus hospitais, sob nomes Danos gentios; eles salvaram os objetos sagrados da sinagoga na cripta de uma igreja luterana. Nenhum Dano desonrou a si mesmo ou a seu país, traindo um judeu à Gestapo. Muitos Danos pagaram por sua humanidade com suas vidas.

* Tribo germânica que habitava o sul da Escandinávia, numa área que hoje é parte da Suécia e Dinamarca. [Wikipédia]

As poucas centenas de judeus Danes – dos cerca de sete mil – que a Gestapo conseguiu capturar durante a fuga foram deportados para Theresienstadt, o menos assassino dos campos de concentração alemães. Quando os Danes souberam da fome lá, todos, do rei ao sapateiro, contribuíram com dinheiro e enviaram ao povo em cativeiro os alimentos de que precisavam para permanecerem vivos. Os Danes não vêem nada de extraordinário em seu relato.

Os suecos, embora neutros na guerra, não eram neutros em sua humanidade. Eles deram asilo a qualquer judeu que pudesse chegar à costa; eles foram tão subitamente abertos na criação de cidadãos judeus suecos que Eichmann emitiu ordens especiais contra eles – qualquer judeu conhecido por obter cidadania neutra deve ser deportado para o leste, para as câmaras de gás, imediatamente. E os suecos produziram um santo, chamado Raoul Wallenberg, o cônsul da missão diplomática sueca em Budapeste. A uma taxa de 12.000 por dia, Eichmann estava enviando judeus húngaros à morte – foi quando a guerra estava claramente perdida, no verão e no outono de 1944. Raoul Wallenberg alugou casas em Budapeste, hasteou a bandeira sueca e as encheu de judeus que agora eram chamados suecos. Quando, finalmente, os vagões de carga eram inacessíveis, e Auschwitz foi fechado antes da aproximação dos exércitos russos, Eichmann – ainda determinado a erradicar os judeus sobreviventes – ordenou a atroz marcha da morte de judeus da Hungria para a Áustria no inverno. Era um assassinato tão aberto e assustador, para todo mundo ver, que Himmler finalmente ordenou a Eichmann que o impedisse. Wallenberg dirigiu ao lado da coluna de pessoas tropeçando e distribuiu comida, cobertores, remédios. Ele também era fanático, do lado dos anjos. Os russos capturaram Wallenberg na Hungria e ele está morto. Resta entender como os russos, que haviam sofrido horrivelmente na mão dos alemães, poderiam ter prejudicado esse homem nobre.

Os nazistas investiram rapidamente contra a Noruega, mas mesmo assim, o metrô norueguês conseguiu levar metade dos judeus da Noruega para a segurança da Suécia, por um país terrivelmente montanhoso em clima abaixo de zero, passando por uma fronteira perigosamente patrulhada. Os holandeses organizaram greves gerais, em protesto contra o tratamento dos judeus; as greves foram reprimidas pelos esquadrões de tiro alemães de sempre. Os nazistas cultivaram o suborno para trair judeus; os holandeses continuaram a esconder judeus; sempre mais judeus eram encontrados. Documentos queixosos do escritório de Eichmann discutiam essa atitude enlouquecedora dos holandeses, que se recusavam a “simpatizar” com a política alemã. Existem inúmeros exemplos de humanidade italiana que nem um governo fascista, nem guerra, nem derrota (derrotado duas vezes, pelos alemães e pelos Aliados), nem o silêncio oficial incompreensível do Papa poderiam enfraquecer.

Uma judia italiana, filha de um professor universitário, se encontrava sozinha (o resto de sua família se perdeu, presa) com cinco crianças pequenas, as dela e as do irmão desaparecido: “Gostaria de acrescentar que salvei meus filhos entregando-os para famílias cristãs que eu não conhecia antes – diferentes estratos de vida da população gentia…Cada criança com outra família. Meus filhos e os filhos de meu irmão…Fui ajudada pelo clero e também pela população leiga – trabalhadores e outros, na cidade de Roma, os intelectuais…A bondade, a bondade de coração que encontrei no meu caminho. Todo judeu italiano deve sua vida à população italiana.”

Os portões de Luxemburgo estiveram abertos para todo refugiado judeu. Lá, naquele pequeno país indefeso, eles podia descansar, se esconder, se lembrar – na bondade do povo de Luxemburgo – que eram seres humanos, não animais de caça; e com tempo e sorte, alguns podiam obter visto para permanecer salvos num território neutro. Sob a liderança moral de Elizabeth, rainha mãe dos belgas, e com o suporte do arcebispo da Bélgica, o metrô belga ajudou grupos de judeu à escapar e descarrilou vários trens da morte.

Houveram estes corajosos, isolados atos de humanidade, e por eles nós devemos ser eternamente gratos.

Houveram mais, em todos os territórios ocupados pela Alemanha, indivíduos sem nome que protegeram seus companheiros contra os selvagens. A pena por ajudar os judeus era a morte. Todos que correram esse risco, ao invés de ajudar a barbárie, assistir de uma distância segura ou fechar os olhos, adquiriram de volta um pedaço da honra da humanidade. E eles foram eficazes; eles salvaram vidas; eles roubaram de Eichmann e seus servos suas presas. Se houvesse muitos mais, milhões mais, poderia Eichmann ter tido o sucesso que teve?

Os próprios judeus não eram ovelhas levadas ao matadouro. Eles eram civilizados demais para acreditar que os alemães, uma nação de reputação civilizada, poderiam se comportar como esses alemães. Os alemães enganaram os judeus, mentiram, aumentaram as esperanças e a destruíram, zombaram, mentiram novamente: o sabão nas câmaras de gás de Auschwitz onde as pessoas esperavam um banho de chuveiro, era feito de pedra; nos trens da morte, as pessoas recebiam cartões postais ilustrados de um lugar imaginário, “Waldsee”, e eram forçados a escrever boas notícias ao gueto. Nenhum artifício era muito mau se servisse para acalentar os judeus e mantê-los longe de atos de desespero. Não havia tantas tropas para destinar ao assassinato de judeus, apesar da mania burocrática de Eichmann.

E, no entanto, sem saúde, famintos e desamparados, os judeus se revoltaram, mesmo em Auschwitz, Treblinka e Sobibor. As revoltas não poderiam ser mais do que atos de desafio destemido; poucas pessoas sobreviveram. A revolta do gueto de Varsóvia continua sendo um monumento à coragem; e vinte pessoas vivem para contar a história, de meio milhão. Partidários judeus escaparam do massacre, lutaram nas florestas da Polônia, na Hungria, na França.

O homenzinho senta no banco dos réus e escuta, dia após dia; e ele sozinho está imóvel; somente ele não é sobrecarregado pelo peso da dor, da vergonha e da indignação que todos nós carregamos. Ele provou isso, sem saber o que fez, no primeiro dia de seu testemunho em sua própria defesa.

Numa manhã, quando finalmente ouviríamos o silencioso homem no banco dos réus de vidro, a corte estava abarrotada. O Dr. Servatius, o advogado alemão de Eichmann, apresentou seu cliente e o caso. A voz do Dr. Servatius tinha mudado, ele se tornou um cavalheiro idoso trêmulo, suplicando a esses honoráveis juízes de Israel que sentissem pena de um insignificante subordinado. Durante todo o Julgamento, o tribunal tratou o Dr. Servatius com a cortesia mais benigna: havia a impressão de que todos no bonde estavam se levantando para dar seu lugar a uma senhora idosa. O Dr. Servatius é um alemão bom, gordo e honesto – uma figura de carinho ou caricata antes da guerra, dependendo do gosto. Ele poderia vir aqui (taxa de US$ 25.000 pagos pelo governo de Israel) para defender Eichmann porque seu próprio histórico é limpo: ele teve a sorte de estar em um regimento da Wehrmacht durante toda a guerra e, portanto, não teve nenhum papel nos horrores cometidos por e em nome dos alemães.

Eichmann parecia diferente, amarelado cinza, finalmente com medo. Sua voz estava baixa quando ele começou a falar, contando sua história de vida e épocas. Um jovem homem modesto, ele viu uma entrada em um campo pouco conhecido – o problema dos judeus. Escolheu esta carreira, mas não era ninguém importante; por acaso, ele assumiu os judeus como sua especialidade. O nazismo não era primariamente contra os judeus, essa era uma questão secundária: o nazismo era contra Versalhes, contra a democracia. Ele era muito confuso para prever aonde tudo isso ia levar; embora, por si mesmo, ele foi direto como uma flecha para SS

Relatando suas primeiras lutas para avançar na vida e na SS, Eichmann disse que desejava aprender hebraico, o que provocou o ridículo e até a suspeita de seus superiores. Mas ele viu um jornal hebraico publicado em Riga e pensou que, se pudesse aprender o idioma, obteria muita informação útil. Ele queria ter aulas com um rabino; seus superiores temiam que, em contato próximo com um rabino, ele pudesse ser influenciado e falar de outras coisas além da língua hebraica. Por fim, ele superou as dúvidas: “Teria sido fácil dizer: vamos apanhar um rabino, prendê-lo e ele terá que me ensinar; mas não, paguei três marcos por hora, o preço normal.”

Eichmann ficou tão perplexo com a baixa onda de som que essa afirmação provocou na sala do tribunal que, pela primeira e única vez, ele virou a cabeça e olhou para a platéia espantado por um instante. Como ele poderia saber, esse homem oco, que o que lhe parecia uma frase natural expunha milhares de sentimentos à pessoas que, sob nenhuma circunstância na Terra, teriam imaginado que você poderia “apanhar” um erudito inocente e prendê-lo para conseguir lições por nada. Depois de todos os anos escondidos, das semanas neste tribunal, Eichmann era o mesmo oficial da SS; ele considerava os judeus como objetos, ainda. Sendo um homem honesto, ele tratara um objeto corretamente, embora não tivesse obrigação de fazê-lo. Ele pagou ao objeto três marcos; ele se absteve de apoderar-se e trancar o objeto. A reação no tribunal foi espontânea e complexa; descrença, revelação, nojo – um murmúrio gemido. Com o passar do tempo, percebemos que Eichmann nunca compreenderia por que ou como as pessoas comuns reagiam a ele ou a seus crimes.

A cada hora, Eichmann ficava mais seguro de si. Sua compreensão das complexidades da burocracia nazista era deslumbrante. Ele nunca vacilou ao explicar o maquinário que parecia complicado demais para ser viável; mas foi, isso foi. O funcionamento de seu próprio departamento – RSHA IV B da Gestapo, encarregado da “solução final” – foi tão eficiente que Eichmann se destaca como o maior homem de organização de todos os tempos. Um ramo do governo nazista, dedicado à extinção de um ramo da população da Europa, matou seis milhões de civis, dos quais um milhão eram crianças, em seis anos. Na Segunda Guerra Mundial, espalhada por todo o mundo, o total de combatentes mortos de vinte e quatro nações foi de 14.700.000.

A memória de Eichmann era fabulosa, quando ele desejava. Cedeu, quando conveniente. E, mesmo respondendo ao seu próprio advogado, ele não falaria diretamente. Levou cinco minutos de conversa dupla para não responder a uma pergunta simples sobre se ele estava ou não em Berlim em uma certa data.

O Dr. Servatius se atrapalhou; ele misturou documentos; ele não conseguiu encontrar o papel que queria. Eichmann, no controle de todos os papéis sempre, enviou o documento exigido de sua doca de vidro à mesa do advogado. Muito em breve, ele estava conduzindo sua própria defesa, dizendo: “As afirmações que estou fazendo serão provadas em documentos posteriores.”

Sua voz é desagradável, com um ‘R’ duro, um som que faz pensar em um martelo e uma faca. Nem por voz, sotaque ou vocabulário ele é um homem educado. Enquanto o Dr. Servatius gaguejava, a voz de Eichmann se afiou: o rosnado frio, o latido que muitas das testemunhas lembraram estava lá, um tom abaixo do que ouvimos. Desde o primeiro dia de seu testemunho, poderíamos imaginar Eichmann claramente como um antigo aristocrata judeu húngaro o havia descrito: “um oficial de botas, com uma mão na pistola, com todo o orgulho de sua raça.”

No segundo dia Eichmann estabeleceu sua linha de defesa e se agarrou nisso até o fim: “Eu não tinha posição especial ou privilégios – eles me davam instruções.” Além disso, ele estava exclusivamente preocupado “com questões de puro transporte”. Este é o inverso da grande mentira de Goebbel; essa é a pequena mentira. Ele não ficou nervoso com o testemunho de testemunhas que o conheciam e lidaram com ele em seus anos de poder, ou o viram em suas visitas a campos de concentração, nem pela avalanche de documentos que mostram que ele comandava o destino dos judeus como nenhum general era capaz de comandar todo um teatro de guerra. Ele se contorceu, falou bastante; ele voltou repetidamente as mesmas mentiras. Ele era apenas um burocrata menor. É possível que o mundo exterior – preguiçoso, ocupado com outras coisas, olhando brevemente para as manchetes – acredite nele. Se o estado de Israel executar esse homem pode haver protestos nos países não feridos e espectadores, e o adjetivo “vingativo” será aplicado aos judeus. Não estou inventando essa peculiar linha de pensamento, senão perversa; eu já ouvi falar sobre esse boato por aí. Pessoas que sempre se opõem à pena de morte, em qualquer lugar por qualquer crime, têm direito a essa opinião. Outros deveriam estudar o Julgamento inteiro, como uma obrigação moral, antes de ousarem condenar a punição aplicada a Eichmann. Naquela corte em Jerusalém não havia dúvida quanto à culpa de Eichmann, nem à imensidão de sua culpa. Não ficamos impressionados com a pequena mentira.

Não era um pequeno funcionário ferroviário que negociava diretamente no mais alto nível com governos estrangeiros. Mais de uma vez, através dos canais diplomáticos, Eichmann foi solicitado a localizar e poupar um judeu, ou dois ou três, pelo nome. Por alguma razão, esses indivíduos incomodavam a consciência dos aliados da Alemanha. Repetidamente, Eichmann respondeu friamente que esses judeus não podiam ser encontrados; seus representantes locais foram instruídos a desencorajar “no princípio” tais perdas de tempo por misericórdia. Se o judeu ou judeus nomeados ainda não estavam mortos, Eichmann ordenou deportação imediata para as câmaras de gás, fechando assim o processo contra futuras intrusões em seu trabalho.

O governo de Laval tentou salvar um judeu – um homem cuja bravura no exército francês não podia ser esquecida. Eichmann respondeu oficialmente que o paradeiro desse herói era desconhecido, mas providenciou sua remoção instantânea e secreta para Auschwitz e o Cyclon B. O almirante Horthy, o ditador fascista da Hungria, instruiu sua polícia a parar um trem da morte de 1200 judeus e a retornar os judeus para o acampamento deles perto de Budapeste. Naquela noite, Eichmann enviou ônibus para recolher essas pessoas com indulto e levá-las a se juntar ao trem longe da capital. A interferência de Horthy irritou e dificultou Eichmann; logo Horthy foi deposto e uma marionete completamente cooperativa foi colocada no lugar.

Os deveres, a autoridade de um burocrata menor? Uma nova emoção se espalhou e tornou-se comum a todos nós: desprezo pelo homem que não tinha valorizado outras vidas, mas tão ousadamente estimava a sua.

Eichmann sabia o que estava acontecendo; ele mesmo declara isso em seu depoimento – um documento de quatro volumes, cobrindo meses de interrogatório durante os quais o superintendente da polícia israelense agia como um psiquiatra gentil e estimulante, e Eichmann falava e falava. Ele lamentou o que viu: achou os gritos de pessoas esganadas nos caminhões de gasolina na Polônia insuportáveis; uma fonte de sangue, que borbulhou no chão de uma vala comum, o revoltou. Especificamente, em algum lugar perto de Minsk, ele viu judeus nus avançando para a beira de um poço onde os fuzileiros da SS atiraram neles; alguns tiros eram desleixados, os semi-mortos se contorciam, então eles atiraram nos corpos amontoados também. Eichmann relatou essa cena a um líder da SS em Lemberg. “’Sim, isso é horrível”, eu disse a ele. “Lá os jovens estão sendo educados para se tornarem sádicos…Como você pode simplesmente atirar em uma pilha de pessoas, mulheres e crianças, como isso é possível!” Eu disse: “Não pode ser assim. As pessoas devem ficar loucas ou se tornar sádicas. Nosso próprio povo.” Tudo nesse homem é um pesadelo: ele nunca pensou nos assassinados; ele pensou no efeito que eles causavam nele e no provável efeito ruim nos nervos dos jovens da SS.

Ele disse que também fica nauseado com esse tipo de coisa; “as pessoas me disseram que eu nunca poderia ter sido um médico.” Então, em vez de assistir ao extermínio, ele aumentou o alcance da operação, acelerou, teceu uma rede destinada a pegar todos os judeus vivos e os enviou para o que ele sabia, mas realmente não suportava olhar.

Em uma única frase, Eichmann dividiu o mundo nos poderes da luz e das trevas. Ele escolheu a doutrina das trevas, assim como a maioria de seus compatriotas, assim como milhares em toda a Europa – homens com mentes escravas, gananciosos por poder: a polícia de Vichy, a Guarda de Ferro, grandes e pequenos Quislings* por toda parte. Ele declarou seu credo em uma linha: “A questão da consciência é um assunto para o chefe de Estado, o soberano.”

* Pessoas nativas que colaboram com forças invasoras. [Wikipédia EN]

Absolvidos do pensamento, da responsabilidade, da culpa e, finalmente, da humanidade, tudo está bem: o chefe de Estado pensa em nós, precisamos apenas obedecer. Se o chefe do estado for criminalmente insano, isso não é da nossa conta.

O propósito de toda educação e religião é combater essa crença, por todos os atos da vida e até a morte. A consciência privada não é apenas a última proteção do mundo civilizado, é a única garantia da dignidade do homem. E se não conseguimos aprender isso, mesmo agora, Eichmann está diante de nós, um fato e um símbolo, para ensinar a lição.

Sobre Martha Gellhorn | https://pt.wikipedia.org/wiki/Martha_Gellhorn

Sobre Eichmann e o Julgamento | https://pt.wikipedia.org/wiki/Adolf_Eichmann

Texto original | https://www.theatlantic.com/past/docs/issues/62feb/eichmann.htm

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