Como Chuck Palahniuk se tornou o queridinho da direita alternativa e da Antifa – Por Maya Kroth (2018) [tradução]

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Imagem | Creative Commons via Wikipédia

O autor de Clube da Luta fala sobre arte, política e o que acontece quando pessoas que você odeia amam o seu trabalho

Tradução Livre | Eder Capobianco

*Entrevista publicada originalmente no portal Medium – GEN em 18 de dezembro de 2018.

Quase 20 anos atrás, Chuck Palahniuk publicou Clube da Luta, o livro que impulsionou sua carreira, cunhou o termo “snowflake” e penetrou tão profundamente na cultura que foi adotado tanto pela Antifa quanto por Andrew Anglin, editor do influente site supremacista branco Daily Stormer, que diz que a adaptação cinematográfica do romance “é, e sempre será, o melhor filme de todos os tempos”.

Mas, nos anos que se sucederam, a realidade se aproximou sorrateiramente dos cenários distorcidos dos primeiros trabalhos de Palahniuk. Foi nesse clima superaquecido que o autor lançou seu último romance, Adjustment Day, um sucessor espiritual do Clube da Luta, se não literal. (A história de Tyler Durden e Marla Singer continua na série de graphic novels Clube da Luta.) Como resultado dos anos passados com separatistas de todos os lados do espectro político, Adjustment Day é a visão de Palahniuk do que poderia acontecer se cada um desses grupos conseguisse o que quer. Uma insurreição armada de jovens assassina a elite liberal – jornalistas, acadêmicos e políticos – e divide o país nos etnoestados da Blacktopia e da Caucasia, enquanto a Califórnia se torna Gaysia, permitindo não heterosexuais. É uma sátira selvagem do etnonacionalismo ou um endosso piscante, dependendo das avaliações que você lê.

Tudo isso faz de Palahniuk, que notoriamente evita falar sobre política, mas admite ler o Daily Stormer porque isso o incomoda, o troll mais magistral do mundo? Ele fala com o Medium sobre arte, ódio, masculinidade e South Park.

A entrevista foi editada para maior clareza.

Medium: Colocado que esta entrevista é para nossa edição de Amor \ Ódio, quais são as coisas que você mais gostou em ser Chuck Palahniuk em 2018?

Chuck Palahniuk: Eu adoro que as pessoas deixem eu levar meu cachorro dentro dos restaurantes e sirvam a ele o menu infantil.

Medium: O que não foi tão bom em ser você este ano?

Chuck Palahniuk: O desfalque – perder tanto dinheiro este ano foi uma grande desvantagem. A agência que me representou indo à falência e eu tendo que encontrar uma nova representação. Meu sogro morreu. Foi apenas um ano terrível.

Medium: Você tem um novo livro saindo em 2018. Muitos dos cenários que você descreve são exagerados, mas a vida real hoje pode ser meio surreal. Como isso impacta seu trabalho?

Chuck Palahniuk: Realmente não afeta meu trabalho, porque meu trabalho sempre começa em um local muito, muito pessoal. De certa forma, talvez a cultura esteja ficando tão louca quanto a minha escrita.

Medium: Como você se sente sobre o crescimento de sua base de fãs na direita alternativa?

Chuck Palahniuk: Não tenho certeza se tenho uma base de fãs muito grande na direita alternativa. Minha base de fãs também é de esquerda. Minha base de fãs também é transgênero. Minha base de fãs está por toda parte. Estou feliz que as pessoas estão lendo. Se você começa a condenar as pessoas nunca vai se conectar com elas de uma forma com que se sintam ouvidas, ou que possam ser influenciadas para um modo diferente de pensar, ou serem reguladas no seus modos de pensar. Se você apenas vai calar as pessoas e condená-las, não acho que seja a melhor e mais eficaz maneira de unir pessoas e impedi-las de fazer algo mais extremo. Quando você começa a alienar as pessoas, elas começam a escalada.

Medium: Uma resenha de um website nacionalista branco elogiou Adjustment Day por parodiar o feminismo e o politicamente correto, ao mesmo tempo em que incluía um argumento para o etnoestado branco. O autor comenta: “Adjustment Day [está] completamente fundamentado na política da nova direita … [mas] a perspectiva de Palahniuk sobre tudo isso é difícil de definir.” 

Chuck Palahniuk: Isso é novo, porque Jared Taylor, do American Renaissance, fez uma resenha de merda, e Andrew Anglin, do Daily Stormer fez realmente uma resenha de merda. Acho que estou feliz por ser resenhado. É somente fazer as pessoas lerem novamente; fora isso, realmente não tenho um objetivo. Além disso, as pessoas projetam seus próprios significados no texto. Quantos assassinos da minha geração saíram para causar a morte com O Apanhador no Campo de Centeio debaixo do braço? Quantas pessoas fizeram a morte com a Bíblia ou o Corão? O cientista social alemão que cito em Adjustment Day [Gunnar Heinsohn] fala sobre como todo movimento tem seu próprio texto, seja o Mein Kampf, ou a Bíblia, ou as citações do presidente Mao, que legitimam o que eles fazem. É um texto que é reproduzido tanto que se torna essencialmente inútil. Adjustment Day era para ser – não uma paródia, mas um exemplo desse tipo de texto que poderia ser lido e carregado para briga pelas pessoas, com qual elas poderiam justificar suas próprias ações.

Medium: Você tem algum conflito de sentimentos sobre alguns de seus fãs mais extremos usarem seus livros para justificar suas ações?

Chuck Palahniuk: Bom, a Antifa realmente gosta dos meus livros também. Quanto eles começaram suas escolas de clubes da luta, para aprender como socar nazistas, ele citaram meus livros. Você pode dizer para um grupo, “não leia este livro”, e dizer para outro, “leia este livro”?

Medium: Talvez você não diga para ele não lerem, mas essas pessoas estão perdendo alguma coisa na leitura desses textos?

Chuck Palahniuk: Cara, você sabe, desde Barthes é sabido que as pessoas tiram qualquer coisa que quiserem dos livros. Que o leitor ativamente completa o livro. Então, não posso ser responsabilizado, ou ditar a perspectiva de uma pessoa, ou de onde ela vêm enquanto lêem o livro. Eu seria como uma daquelas pessoas que formam uma religião, dizendo que é isso que a Bíblia significa. Impediria a participação das próprias pessoas no trabalho.

Medium: O livro trata professores de estudos de gênero e nacionalistas brancos como igualmente merecedores de serem alvos. Antifa realmente é a mesma coisa que direita alternativa?

Chuck Palahniuk: Vejo isso com o amparo de South Park: se você vai tratar um grupo realmente mal, você tem que tratar todos os grupos realmente mal. Você não pode pegar live com algum grupo. Portanto, sim, tentei deformar e satirizar com todos os grupos.

Medium: Um pouco abaixo nessa resenha, o autor escreve: “Dado quantos de nós, à direita, somos inspirados por Clube da Luta, e como nós o interpretamos, Palahniuk precisa estar ciente de como exatamente esse romance será recebido por muitos e os pensamentos (e, de fato, as ações) que vai inspirar.” Você estava?

Chuck Palahniuk: Não. [risos] Cara. Eu pensei que o livro era meio estúpido, e senti um pouco de pena pelo personagem nacionalista branco.

Medium: Ele literalmente recebe seu próprio pau fatiado no livro.

Chuck Palahniuk: Exatamente. De todos os personagens que são tratados com crueldade, costumo tratar os personagens masculinos brancos com mais crueldade, porque eles são os únicos que sinto que tenho algum conforto em tratar mal.

Medium: Houve uma confusão no ano passado com uma foto que você tirou com Jack Donovan.

Chuck Palahniuk: Jack Donovan foi uma das muitas pessoas que conversei enquanto estruturava Adjustment Day. Todos esses caras de sua academia entraram e pediram para serem estrangulados para fotos. Fiz isso com ele e uma dúzia de outros caras, sem perceber que ele tinha uma coleção de arte de tatuagens flamejantes antigas na parede atrás dele, e que uma dessas pequenas peças da tatuagem era uma suástica que não tinha ideia de que estava lá, meio que flutuando atrás de nós. O Daily Beast pegou essa foto e tentou sugerir que eu era nazista.

Medium: E você disse que sentiu um pouco de pânico porque não queria ser ligado, na cabeça do público, à supremacia branca.

Chuck Palahniuk: Porque um supremacista branco assassinou meu pai em 1999, e foi condenado e, por fim, sua sentença de morte foi anulada por um detalhe técnico na fase de sentenciamento. Eu nunca estive desse lado, mesmo antes de meu pai ser morto por um supremacista branco. Mas só queria ressaltar o absurdo que é alguém tentar fazer esse link depois do que passei.

Medium: Você fala muito sobre Joseph Campbell como um segundo pai, uma figura que ajuda alguém a terminar de crescer. O que você acha da idéia de que os homens brancos descontentes que reúnem-se em Clubes da Luta podem estar encontrando um segundo pai em um personagem como Tyler Durden e, por extensão, em você? O que você gostaria de ensiná-los?

Chuck Palahniuk: Não, só diria isso em aulas da meu próprio curso. Como fiz com Tom Spanbauer, eu era um aprendiz; Estava procurando alguém que pudesse me tolerar tempo suficiente até aprender como dominar uma habilidade. Meu curso é metade masculina e metade feminina, e acho que ambos os sexos estão procurando esse tipo de pai secundário. Realmente só sirvo à esse propósito entre os alunos que ensino, porque senão não estou presente. Os livros estão lá, mas não sou tão presente como figura pública como alguém como Jordan Peterson, que assumiu esse papel público de ensinar ou orientar pessoas.

Medium: Talvez essa não seja sua intenção, mas penso que há muitos caras que cresceram lendo Clube da Luta e tiram disso lições sobre o que é ser homem.

Chuck Palahniuk: E eu penso que há muita mulheres que já leram e aprenderam o que é ser um ser humano, que é a mensagem maior. Tenho uma almofada que uma jovem mulher tricotou para mim que diz: “As coisas que você possui acabam possuindo você.” Fica no meio do meu sofá. E não foi feito por um homem.

Medium: Você também escreveu muito sobre masculinidade. O que você acha de um termo como “masculinidade tóxica”?

Chuck Palahniuk: Cara, acho que depende de quem diz. É como um vício sexual: realmente depende do que algumas pessoas consideram comportamento autodestrutivo. Já está se tornando um desses termos, como “outro significado”, está se tornando tão antigo e datado que existe algo meio doutrinário sobre isso. [Mas] uma maneira pela qual as pessoas alcançam o poder é se posicionar, mesmo que seja arbitrário, como uma forma de protesto, e atuar nesse tipo de teatro público. É um local no qual as pessoas podem emergir como líderes e descobrir seu próprio poder. Às vezes, a causa em si é arbitrária, mas o resultado final da causa é a próxima geração de líderes políticos, líderes comunitários. Estou parecendo como Jordan Peterson de alguma forma.

Texto Original | https://gen.medium.com/how-chuck-palahniuk-became-the-darling-of-the-alt-right-and-antifa-6c2fe8a2d616

Sobre Chuck Palahniuk | https://pt.wikipedia.org/wiki/Chuck_Palahniuk