O regime literário – Por H. G. Wells (1897) [tradução]

Publicado originalmente como um capítulo da coletânea de ensaios Certain Personal Matters (1897).

Tradução livre | Eder Capobianco

Correndo o risco de ofender as ilusões do jovem iniciante, ele deve ser lembrado de um ou dois fatos caseiros, mas importantes, que trazem a tona a produção literária. Por mais caseiros que sejam, explicam muitas coisas que, a princípio, são intrigantes. Essa perplexa questão de distinção; a qualidade de ser algo vicejante – particular. Realmente, este é um assunto perfeitamente simples. É de conhecimento geral que, depois de um jejum prolongado, o cérebro funciona de uma forma débil, a corrente do pensamento fica pálida e superficial, é difícil fixar a atenção e impossível mobilizar todas as forças da mente. Por outro lado, após uma sólida refeição o cérebro se sente amorfo, mas em equilíbrio. O chá é conducente à um fluxo suave de pensamentos agradáveis, e qualquer um que tenha tomado o xarope de hipofosfito Easton irá se lembrar, imediatamente, do estado de catatonia cerebral, espontaneidade mental geral, que se segue depois de uma dose. Outra vez, o champagne (seguida, quem sabe, por uma soupçon de whiskey) conduz à um estado de espírito essencialmente bem humorado e lúdico, enquanto umas três dúzias de ostras tomadas em jejum vão produzir, na maioria dos casos, uma melancolia profunda e até sinistra. Poder-se-ia ampliar ainda mais este tópico, sobre a influência brutal da cerveja, a qualidade sedativa da alface, as conseqüências estimulantes do frango ao curry; mas já foi dito o suficiente para apontar nosso argumento. Isto é, fatos como esses podem, certamente, indicar apenas uma conclusão, que é a total dependência da qualidade literária como consequência da dieta do escritor.

Posso lembrar ao leitor, em confirmação desta sugestão, do que é, talvez, o mais amplamente conhecido fato sobre Carlyle, que em uma ocasião memorável jogou seu café da manhã pela janela. Por que ele jogou o café da manhã pela janela? Sem dúvida, seus amigos estimaram a história como sem amor e de detalhes depreciativos? Há, todavia, aqueles que querem que acreditemos que era uma mera petulância infantil com bacon e ovos cozidos. Tal suposição é absurda. Por outro lado, o que é mais natural que um acesso da mais justa indignação pela ruína de algum clímax de alimentação cuidadosamente estudado? O pensativo principiante literário, que não está inteiramente submerso em teorias tolas de inspiração e gênio natural, nós imaginamos que entenderá claramente que estou desenvolvendo o que talvez seja, depois de todo, o segredo fundamental da arte literária.

Vamos, agora, para instruções mais explícitas. É imperativo, se você deseja escrever com qualquer poder e originalidade, que você deva arruinar completamente sua digestão. Algumas personalidades literárias vão confirmar esta afirmação. A qualquer custo, a coisa deve ser feita, até se você tiver que viver de salsicha alemã, cebolas e queijo para fazer isso. Então, se você mudar toda sua dieta para uma alimentação saudável, não vai conseguir obter nenhuma literatura com isso. “Nós aprendemos sofrendo o que ensinamos na música.” É por isso que homens que vivem em casas com suas mães, ou tem suas irmãs mais velhas para cuidar deles, nunca, sem nenhuma chance, independente de quão grandes as ambições literárias possam ser, vão escrever qualquer coisa além de poesia menor. Eles fazem suas refeições em horários regulares, e vivem em turnos, e isso representa – se você pardon a frase – o diabo para a imaginação.

Um estudo cuidadoso dos registros dos homens literários do passado, e um considerável conhecimento dos autores vivos, sugere duas formas principais de perder sua digestão e engendrar a capacidade literária. Você vai morar em alojamentos humildes – podemos citar dezenas de homens proeminentes que alimentaram uma grande ambição deste jeito, – ou casar com uma garota legal que não entende dos serviços domésticos. O primeiro é o mais eficaz, porque, via de regra, a garota legal quer ficar sentada nos seus joelhos o dia todo, e isso é um grande impedimento para a composição literária. Pertencer a um clube – mesmo que um clube literário – onde você pode jantar, é a ruína definitiva de um principiante literário. Muitos camaradas brilhantes, que foram empurrados por este caminho, ou foram jogados por amigos indiscretos, nas sociedades dos homens literários de sucesso, foram gorados por este erro fatal, e tiveram seus estômagos salvos para perder suas reputações.

Tendo se livrado de sua digestão, então condição comum para toda boa literatura, a próxima coisa é organizar sua dieta para o efeito literário específico que você deseja. Aqui, podemos apontar o sigilo observado sobre tal assunto pelos homens literários. Stevenson fugiu para Samoa para esconder seus métodos extremamente elaborados, e para manter seus empregados da cozinha fora do alcance de subornos. Até Sir. Walter Besant, embora seja bastante comunicativo para o jovem aspirante, não deixou pistas sobre o menu puro e saudável que segue. Sala professou que comia de tudo, mas isso era, provavelmente, brincadeira. Possivelmente ele tinha um grampo, e tomava o resto como condimento. Então, do que vivia Shakespeare? Bacon? E o Mr. Barrie, ainda que tenha escrito um delicioso livro sobre seu cachimbo e tabaco, cheio de sugestões para o jovem humorista, não deixa escapar nada, ou próximo de nada, de suas refeições e bebidas. Suas sugestões sobre cachimbos são consideravelmente seguidas, e nos dias de hoje todo ambicioso jovem jornalista fuma em público ao menos um bom fumo de rosas com uma excêntrica árvore genealógica – mesmo que com algum inconveniente pessoal. Mas essa inveja ciumenta por parte dos homens de sucesso – você percebe que eles nunca deixam nem mesmo o entrevistador ver suas cozinhas ou débris de suas refeições – necessariamente lança luzes sobre rumores e hipóteses sobre este assunto. O Mr. Andrew Lang, por exemplo, é popularmente associado com salmão, mas isso provavelmente é um engano intencional. O salmão excessivo, longe de engendrar a genialidade, será na prática uma dieta pouco segura e melancólica, tendendo mais para o magnífico desânimo do Sr. Hall Caine.

Nem Mr. Haggard se alimenta inteiramente de carne crua. De fato, para uma narrativa sinistra e um pouco pessimista, não há nada como o pão de uva passa comum, comido novo e em quantidade. Um estilo humorístico leve é melhor obtido com água com gás e biscoito seco, seguindo de café-noir. A água com gás também pode ser escocesa ou irlandesa, de acordo com a inclinação do paladar. Para um estilo florido e de mau gosto, o iniciante não precisa ter nada além de água fervida, legumes cozidos e interesse nos movimentos contra a vivissecção, o ópio, o álcool, o tabaco, a sarcofagia e o sexo masculino.

Para contribuições com as principais publicações, carne de porco cozida e repolho podem ser consumidos, com cerveja engarrafada, seguida por bolinho de maçã. Isso, efetivamente, suprime qualquer tendência à falsidade, ou ao que os respeitáveis ingleses chamam de duplo sentido, e traz à você um contato com as pessoas sérias que lêem essas revistas. Tão logo você comece a se sentir insone e agitado, descontinue a escrita. Para o que é vulgarmente conhecido como o tipo de publicação fin-de-siècle, por outro lado, deve-se limitar a uma padaria de pão envelhecido por uma semana ou mais, com a exceção de um chá ocasional em uma casa literária. Todas as pessoas alimentadas prioritariamente com scones se tornam espertas. E esse regime, com uma ocasional devassidão de bolinhos de amêndoas, chocolate e champanhe barato, e caminhadas refrescantes diárias por Oxford Circus, passando por Regent Street, Piccadilly, Green Park, Westminster e por aí vai, deveria resultar numa animada sátira da sociedade. 

Não se sabe o que Mr. Kipling consome para torná-lo tão peculiar. Muitos de nós gostariam de saber. Possivelmente é alguma coisa que ele colheu na selva – sementinhas ou coisa assim. Um amigo que fez algumas tentativas experimentais com este fim não conseguiu nada além de desejo, que ele ditou e deixou incompleto. (Raramente se está nas licenças de casamento este desejo ordinário, sendo blasfêmia, e falando sem propriedade, exceto as suas internas.) Para contos do tipo detetive, chá forte gelado e biscoito duro são comidas frutíferas, enquanto que para um romance de ciências sociais deve-se comer uma abundância de arroz cozido, torrada e água.

No entanto, essas observações são, sobretudo, uma sugestão. Todo escritor, no final, tão logo sua digestão é destruída, deve determinar por si mesmo a dieta peculiar que melhor lhe convém – isto é, que discorda mais dele. Se tudo mais falhar, ele pode tentar alguma comida química. “Comida Jabber para autores”, por Adeusinho, bem anunciado e com retratos de homens literários em suas salas de escrita, “alimente-se totalmente com Comida Jabber”, com certificado médico de insalubridade, favorável e com análise depurada dos trabalhos escritos com esse alimento, podendo ser um sucesso brilhante entre aspirantes literários. Uma pequena, mas suficiente, quantidade de arsênico pode ser misturada para mais vantagens.

 Original | http://www.gutenberg.org/files/17508/17508-h/17508-h.htm#Page_49

Sobre a obra | https://en.wikipedia.org/wiki/Certain_Personal_Matters