Você e a bomba atômica – Por George Orwell (1945) [tradução]

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Imagem | CC BY-SA 4.0 via Wikipédia

Tradução livre | Eder Capobianco

Publicado originalmente no jornal Tribune, em 19 de outubro de 1945*.

Considerando a probabilidade de todos nós sermos explodidos em pedaços por isso dentro dos próximos cinco anos, a bomba atômica não instigou tanta discussão quanto se poderia esperar. Os jornais têm publicados inúmeros diagramas, não muito úteis para o homem comum, sobre prótons e nêutrons fazendo suas coisas, e tem sido muito repetido o discurso inútil de que a bomba “deveria ser colocada sob controle internacional”. Mas, curiosamente, pouco se tem dito, por qualquer via impressa, sobre a questão que é mais urgente e interessa a todos nós, a saber: “Quão difícil é de construir essa coisa?”

Tal informação, tem chegado à nós – isso é, o grande público – de forma bastante indireta, sob o propósito da decisão do presidente Truman de não entregar certos segredos à URSS.  Alguns meses atrás, quando a bomba ainda era apenas um rumor, havia uma crença generalizada de que dividir átomos era apenas um problema para os físicos, e que, quando eles tivessem resolvido, isso seria uma nova e devastadora arma que estaria ao alcance de quase todo mundo. (Em algum momento, o rumor dizia que algum lunático solitário em um laboratório poderia explodir a civilização em pedacinhos, tão fácil quanto acender fogos de artifício.) 

Se isso fosse verdade, todo o rumo da história teria sido abruptamente alterado. A distinção entre grandes e pequenos Estados teria sido eliminada, e o poder do Estado sobre o indivíduo seria grandemente enfraquecido. No entanto, pelos comentários do presidente Truman, e vários outros feitos a partir deles, a bomba é fantasticamente cara, e sua construção demanda um enorme esforço industrial, do qual apenas três ou quatro países do mundo são capazes de realizar. Este ponto é de importância fundamental, pois isso pode significar que a descoberta da bomba atômica, longe de reverter a história, irá simplesmente intensificar as tendências que foram aparente nos últimos 12 anos.

É lugar comum que a história da civilização é, em grande parte, a história das armas. Em particular, a conexão entre a descoberta da pólvora e a derrubada do feudalismo pela burguesia tem sido apontada repetidas vezes. E, embora eu não tenha dúvidas, podem ser apresentadas exceções, acho que a regra a seguir seria, geralmente, considerada verdadeira: as eras em que a arma dominante é cara, ou difícil de ser feita, tenderão a ser eras de despotismo, enquanto que quando a arma dominante é barata e simples, as pessoas comuns têm uma chance. Assim, por exemplo, tanques, encouraçados e aviões de bombardeio são armas inerentemente tirânicas, enquanto rifles, mosquetes, arcos longos e granadas de mão são armas inerentemente democráticas. Uma arma complexa torna o forte mais forte, enquanto uma arma simples – desde que não haja resposta para ela – dá garras aos fracos. 

A grande era da democracia, e da autodeterminação nacional, foi o tempo do mosquete e do fuzil. Depois da invenção do mecanismo de ignição de pederneira, e antes do invento das cápsulas de percussão, o mosquete era uma arma bastante eficiente, e ao mesmo tempo tão simples que poderia ser produzido em quase qualquer lugar. Essa combinação de qualidades tornou possível o sucesso das revoluções americanas e francesas, e fez da insurreição popular um negócio mais sérios do que poderia ser em nossos dias atuais. Depois do mosquete veio o rifle de carregamento pela culatra. Isso era algo relativamente complexo, mas poderia ainda ser produzido em vários países, e era barato, facilmente contrabandeado e econômico na munição. Mesmo as nações mais atrasadas poderiam sempre obter fuzis de uma ou outra fonte, de modo que os bôeres, búlgaros, abissínios, marroquinos – até tibetanos – puderam lutar por sua independência, as vezes com sucesso. Mas, a partir daí, todo desenvolvimento em técnicas militares favoreceu o Estado contra o indivíduo, e o país industrializado contra o atrasado. Há cada vez menos focos de poder. Já, em 1939, havia apenas cinco países capazes de empreender uma guerra em grande escala, e agora há só três – em última análise, talvez, apenas dois. Essa tendência tem sido óbvia por anos, e foi apontada por alguns observadores antes mesmo de 1914. A única coisa que pode reverter isso é a descoberta de uma arma – ou, em outras palavras, de um método de luta – não dependente de uma enorme concentração de indústrias.   

Por vários sinais, pode-se inferir que os russos ainda não possuem os segredos para se fazer uma bomba atômica; por outro lado, o consenso de opiniões parece ser de que eles possuirão isso dentro de poucos anos. Assim, temos, diante de nós, a perspectiva de dois ou três super-Estados monstruosos, cada um possuindo uma arma por qual milhões de pessoas podem ser eliminadas em poucos segundos, dividindo o mundo entre eles. É um pouco apressado assumir que isso significa guerras maiores e mais sangrentas, e talvez um fim real para a civilização das máquinas. Mas, suponha – e, realmente, este é o mais provável desdobramento – que as grandes nações façam um acordo tácito de nunca usarem a bomba atômica uma contra as outras? Suponha que eles só vão a usar, ou ameaçar isso, contra pessoas que são incapazes de retaliar? Neste caso, estamos de volta onde estávamos antes, a única diferença é que o poder está concentrado em poucas mãos, e as perspectivas para o povo e as classes oprimidas são ainda mais desesperadoras.

Quando James Burnham escreveu The managerial revolution parecia provável para muitos estadunidenses que os alemães venceriam a Europa no fim da guerra, e por isso era natural assumir que a Alemanha, e não a Rússia, dominaria as massas de terra da Eurásia, enquanto o Japão permaneceria senhor da Lestásia. Este foi um erro de cálculo, mas não afeta o argumento principal. A imagem geográfica de Burnham do novo mundo se mostrou correta. Cada vez mais, obviamente, a superfície da Terra têm sido divididas em três grandes impérios, independentes e isolados do contato com o mundo exterior, e cada um regido, sob um disfarce ou outro, por uma oligarquia auto-eleita. A discussão sobre onde as fronteiras serão traçadas continua, e vai continuar por alguns anos, e o terceiro dos três super-Estados – Lestásia, dominada pela China – ainda é potencial, e não real. Mas, a tendência geral é inconfundível, e cada descoberta científica dos últimos anos acelera isso.     

Nos disseram, certa vez, que o avião tinha “abolido as fronteiras”; e, simplesmente, desde que o avião se tornou uma importante arma, as fronteiras passaram a ser definitivamente intransitáveis. Esperava-se que o rádio promoveria o entendimento e cooperação internacional; acabou por ser um meio de isolar uma nação da outra. A bomba atômica pode completar este processo, roubando das classes exploradas, e do povo, todo poder para se revoltar, e, ao mesmo tempo, colocando os detentores da bomba em base de igualdade militar. Incapazes de governar uns aos outros, é provável que continuem governando o mundo entre eles, e é difícil ver como este equilíbrio pode ser perturbado, exceto por mudanças geográficas lentas e imprevisíveis. 

Há quarenta ou cinquenta anos atrás, o Sr. H. G. Wells, entre outros, tem nos avisado de que o homem está a perigo de destruir a si mesmo com suas próprias armas, deixando as formigas, ou alguma outra espécie gregária, assumir o controle. Qualquer um que tenha visto as arruinadas cidades da Alemanha irá achar esta noção, ao menos, pensável. No entanto, olhando para o mundo como um todo, a correnteza, por muitas décadas, não está na direção do anarquismo, mas na direção da re-imposição da escravidão. Podemos estar nos encaminhando não para um colapso geral, mas para uma época tão terrivelmente estável quanto os impérios escravos da antiguidade. A teoria de Burnham tem sido muito discutida, mas poucas pessoas tem considerado suas implicações ideológicas – isso é, um tipo de visão de mundo, um tipo de fé, e uma estrutura social que, provavelmente, prevalecerão em um Estado invencível e em permanente guerra-fria com seus vizinhos.

Se a bomba atômica tivesse se tornado uma coisa tão barata, e facilmente fabricável, como uma bicicleta ou um despertador, poderia muito bem ter nos levado à barbárie, mas, poderia, por outro lado, significar o fim da soberania nacional e do altamente centralizado estado policial. Se, como parece ser o caso, for um objeto raro e caro, tão difícil de produzir quanto um navio de batalha, é mais provável que ponha fim às guerras de larga escala, ao custo de prolongar indefinitivamente uma “paz que não é paz”.

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* Este artigo de George Orwell foi originalmente publicado pelo Tribune, em 19 de outubro de 1945, dois meses após as bombas atômicas serem lançadas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, pelo único país a usá-las para matar pessoas e destruir cidades, viz., Estados Unidos da América. Orwell havia escrito bastante sobre o tema (bomba atômica), mas este artigo, em particular, traz o que podem ser alguns insights sobre a distribuição mundial que estava à frente, na era do armamento atômico. Como consequência, apresenta fundamentos que fazem parte do romance 1984, lançado por Orwell em junho de 1949. 

Original | https://archive.org/details/YouAndTheAtomicBomb-English-GeorgeOrwell

Sobre George Orwell | https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Orwell