Dançando com o demônio a luz do luar [conto]

Heavy Metal im Fantasy

Imagem | Andreas Bohnenstengel CC via Wikipédia

– Queen nunca foi heavy metal, porra……..

– Não, nunca………….mas conseguiu ter uma penetração no meio………a voz do Freddy Mercury é altamente reconhecida na cultura metal como muito loca……

– Queen, penetração, Freddy Mercury, I want to break free……..onde isso vai dar?……..haehaheha…………

– Rob Halford, Phil Anselmo……..o heavy metal tá cheio de gays……..isso não tem nada haver……..

– Phil Anselmo? Do Pantera? É gay? Sério?………isso foi só um boato……….

– Porque? Não pode?

– É meio estranho……o cara é nazi…………

– Gay não pode ser nazi e cantar trash metal?……….entende, é disso que to falando………

– Do que?

– O preconceito velado……..

– Sai dessa……..

– Não estou falando que tudo era uma droga, machista, homofóbico………sei que tem que contextualizar e tals…..

– Não tem é que politizar tudo……

– Como assim? Tem uma ideologia aqui……..uma subjetivação que define o indivíduo……..

– Para com isso……….pelo amor de Deus……..

– É só música, porra………diversão…….zueira……..não quer dizer nada…….

– Não quer dizer nada a puta que pariu……….

– Puta que pariu…….olha aí o sexismo………

– Vai a merda………

– Não tem sexismo aí……agora é uma ofensa legítima?……….

– Tem um momento naquele vídeo do Metallica…….da turnê do Black album, a caixa Live shit com o show de três horas ao vivo em San Diego……….

– Putz……..era difícil encontrar isso por aqui……….

– Mandei gravar lá na Galeria na época……

– Então……….em Creeping death o Hetfield incita a galera, fazendo uma cara de mau, gritando die, die, die………..

– O medley de …and justice for all… é do caralho…….

– Foca nessa parte de Creeping death……….e lembra que a letra é sobre alguém que vem do céu para fazer justiça contra um tirano……….

– Nunca prestei atenção na letra dela………

– Enfim……..a galera toda gritando die, die, die com o Hetfield no centro, como um líder, comandando seu exército……..agora lembra da cena no final do filme do The wall……..quando o Pink está discursando em In the flash………….e o público fica gritando hammer………..

– Não tem nada haver………

– Como não?……..if I had my way; I’d have all of you shot………..o Pink termina falando isso, que o Metallica complementa em Creeping death com die by my hand; I creep across the land; killing first born man…………..die die die e hammer hammer hammer se complementam………..é a busca pela hegemonia que o The wall crítica que Creeping death do Metallica prega…………….

– Sei lá……..você tá chapado………

– Sem dizer que os nazis do Pink floyd fazem o mesmo símbolo dos fãs de Manowar…………

– E tudo isso acontece de propósito………..o Hetfield e o Joey DeMaio entram no estúdio e pensam: vamos fazer uma música nazista……….transformar todo mundo em nazis……….vamos tomar o mundo com nosso exército……….

– Quem disse isso?

– Então que merda você tá falando? É música, diversão, porra……….ninguém presta atenção nessa merda……..ninguém é nazista porque é metaleiro…….que bosta, viu……

– Claro que não é isso, porra…….mas subjetiva, influência……..aí o infeliz cresce querendo matar com as próprias mãos quem se opõe a ele, ou o diferente, e não sabe da onde vem……….é uma cultura de preconceito que se propaga………….

– Quando você vê um pai e filho, juntos e sorrindo, cantando Polícia do Titãs, qualquer mensagem se perdeu………..eles não são anarquistas querendo quebrar o mundo……..é pai e filho se divertindo……..entende?………….

– É muita viagem………sei lá………..o Mustaine é um conservador………tá……..certo…o som dele tem uma ideologia conservadora…….….e daí?………

– Não é uma questão de ser proposital, voluntário…….é a crítica que tem que enxergar isso…………iluminar o contexto, conceitualizar e sistematizar a ideia………tem uma ideologia de extremismo impregnada aí………

– Que crítica? Quem faz música para crítica? Um bando de babacas que acham que sabem alguma coisa só porque escrevem no jornal……….crítica só fala merda pra vender porcaria………

– Olha aí o discurso extremista do metaleiro……….

– Vai defender a mídia agora?………

– Não é uma questão de defender……….é o seu discurso hegemônico de desvalorização de um campo científico, de um saber, que se opõe ao seu entendimento, a sua ideologia………

– Que?…….para, para, para………

– Não vem com essa……..eu não tenho ideologia porra nenhuma………….

– Só acho que isso explica um pouco da guinada conservadora dessa geração que cresceu ouvindo essas bostas das décadas de 80 e 90……….

– Sei lá, acho que isso tem mais a ver com aquela teoria da geração x y……….uma geração é conservadora e outra liberal, e para haver um avanço duas gerações tem que concordar………coisa assim……..

– Ou retrocesso………

– Então os filhos daquela putaria hippie são conservadores porque os pais deles são doidões?

– Quanta merda numa mesma frase………

– É mais ou menos isso………

– Acho que Almost famous mostra exatamente o contrário………..essa geração hippie na verdade era machista e conservadora……..

– Caralho……..se hippie é conservador quem vai ser liberal?………

– Olha como as mulheres são retratadas no filme……..grupies, usadas pelos músicos homens………o cara vende a Panny Lane por uma caixa de breja e cinquenta pratas……..

– Eles eram a esquerda de seu tempo, porra………como eles podem ser conservadores?

– Isso não tem nada haver………os Republicanos já foram os Democratas há muito tempo atrás, por exemplo……..

– Como assim?…….

– Tem que contextualizar as coisas……….significante e significado mudam com o tempo………o papel da crítica………..

– A crítica tá do lado da indústria………ela nunca vai ser imparcial………..

– Ela não tem que ser imparcial………….tem que ser transparente………..criar uma metodologia própria é aplicar……….é uma ciência………..

– Ciência é o caralho……..

– Como assim não tem que ser imparcial?………….tem que ser imparcial sim, porra………

– A crítica é uma análise que deriva do pensamento de um indivíduo que tem opinião……..a imparcialidade não existe……….não tem como……..

– Agora ninguém pode ser imparcial?…….

– Ninguém consegue……..sua subjetivação sempre vai ser parte, estar impregnada na sua análise……..é aquela coisa………..o Corinthians venceu o Flamengo ou o Flamengo perdeu para o Corinthians………..se o Corinthians venceu o jornal é paulista, se o Flamengo perdeu é carioca……….a imparcialidade não existe………

– Nunca generalize………e se o jornal for de Minas, qual a manchete?……..

– Do jogo do Galo com o Cruzeiro……….

– Não é uma questão de generalizar………….mas de conceituar…………o que é ser imparcial?………

– A public service announce man followed me home the other day; I paid it: nevermind, go away……….Bad day, do R.E.M., eles são o que?…….extremistas?………..

– São muito foda……..

– Sei lá, para mim o Nirvana explica tudo logo na primeira frase de Blew, a primeira música do Bleach……….eis como eles se apresentam ao mundo: if you wouldn’t mind, I would like to blew………é isso aí…….

– O Kurt não falava umas merdas do Aerosmith de eles serem machistas?……..não era essa a treta dele com o Axl………

– O Axl é do Guns……

– Tô ligado……

– Não sei dessa treta……