Economia política – Por Mark Twain (1870) [tradução]

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Imagem – Domínio Público via Wikipédia

Tradução livre | Eder Capobianco

Publicado originalmente na edição de setembro de 1870 da revista The Galaxy.

Economia política é a base de todo bom governo. Os homens mais inteligentes de todos os tempos trouxeram a tona este assunto —

[Aqui fui interrompido e informado que um estranho queria me ver à porta. Fui e confrontei-o, pedi para conhecer seus negócios, lutando a todo momento para manter a vista minhas ideias de economia política, não deixá-las esquivar-se de mim ou me enrolar com seus arreios. E em particular, desejei que o estranho estivesse no fundo do poço com uma carga de trigo em cima dele. Estava pronto e aquecido, mas ele era legal. Me pediu desculpas por me incomodar, mas quando passava percebeu que eu precisava de alguns pára-raios. Eu disse, “Sim, sim – continue – o que mais?” Ele disse que não tinha mais nada sobre isso, em particular – nada exceto que ele gostaria de colocá-los para mim. Sou novo como governante de uma casa; tenho usado hotéis e pensões toda minha vida. Como qualquer outra pessoa com uma experiência similar, tento parecer (para estranhos) ser um velho cuidador de casa; consequentemente eu disse, de alguma maneira, que eu tinha tentado, em algum tempo, ter seis ou oito pára-raios, e o estranho começou a me olhar inquisitivamente, mas eu estava sereno. Pensei que se calhasse de eu cometer algum erro, ele não me pegaria pelo meu semblante. Ele disse que gostaria de ter minha preferência quanto a outros homens na cidade. Eu disse que tudo bem, e comecei a trabalhar arduamente no estudo novamente, quando ele me chamou de volta e disse que seria necessário saber exatamente quantos “pontos” eu queria colocar, que partes da casa eu gostaria de tê-los e que qualidade de hastes que preferia. Era um alojamento pequeno para um homem não acostumado com as exigências de uma dona de casa, mas eu estava mantendo a credibilidade, e ele provavelmente nunca suspeitaria que eu era um novato. Disse para ele colocar oito “pontos”, e colocá-los todos no telhado, usando as melhores qualidades de hastes. Ele disse que poderia fornecer a mais “simples” por vinte centavos\pés, “avermelhado” vinte e cinco centavos; zincado e espiral, por trinta centavos, isso pararia qualquer relâmpago, não importa onde fosse cair “tornaria sua missão inofensiva e seu progresso além disso apócrifo”. Eu disse que apócrifo não era uma palavra de malandro, emanando de tal fonte, mas filologia a parte, gostei do espiral e escolhi aquela marca. Então ele disse que poderia fazer com 400 pés, mas para fazer certo, o melhor trabalho da cidade, e atrair a admiração dos justos e injustos, e obrigar os dois a dizerem que nunca viram uma organização mais simétrica e hipotética de pára-raios desde que nasceram, ele calculou que realmente não poderia fazer sem 400, embora não fosse rancoroso e verdadeiramente estava disposto a tentar. Eu disse para ir em frente e usar 400, e fazer o tipo de trabalho que ele gostava, mas me deixasse voltar para meus afazeres. Enfim me livrei dele, e agora, depois de meia hora passada juntando minhas tralhas de pensamentos de economia política novamente, estou pronto para seguir mais uma vez.]

— os mais ricos tesouros de suas genialidades, suas experiências de vida, e seus aprendizados. As grandes luzes da jurisprudência comercial, confraternização internacional e divergência biológica, de todas as idades, civilizações e nacionalidades, de Zoroaster a Horace Greeley, tem —

[Aqui fui interrompido novamente e requisitado a ir deliberar mais com o homem do pára-raios. Saí apressado, em ebulição e surtando, com pensamentos prodigiosos matrizados em palavras de tamanha majestade que cada uma delas era em si mesmas um cortejo de sílabas dispersas, que poderiam ser quinze minutos perdidos em um certo ponto, e mais uma vez confrontei-o – ele tão calmo e doce, eu tão quente e frenético. Ele estava de pé na atitude contemplativa do Colosso de Rodes, com um pé na minha pueril tuberosa e outro em meus amores-perfeitos, suas mãos na cintura, a aba do chapéu inclinada para frente, um olho fechado e outro olhando séria e admiravelmente para minha chaminé central. Ele disse que agora havia um motivo para fazer um homem feliz por estar vivo, e adicionou, “Deixo para você se você já viu algo mais delirantemente pitoresco que oito pára-raios em uma chaminé?” Eu disse que não tinha lembrança de qualquer coisa tão transcendente. Ele disse que na sua opinião nada nessa terra, mas que as Cataratas do Niágara eram superior no sentido de paisagem natural. Tudo que era preciso agora, ele acreditava piamente, para fazer da minha casa um perfeito bálsamo para os olhos, era um tipo de retoque nas outras chaminés e assim “somar o generoso coup d’ aeil de uma calmante uniformidade de uma façanha para aliviar a excitação, naturalmente consequente, de um coup d’etat.” Perguntei-lhe se aprendeu a falar assim em um livro, e se poderia apropriar-me disso de alguma forma. Ele sorriu agradavelmente e disse que seu modo de falar não estava nos livros, e que nada que não a familiaridade com os raios capacitava um homem a lidar com seu estilo conversacional impunemente. Ele então calculou uma estimativa, e disse que cerca de mais oito varas espalhadas pelo telhado iriam resolver tudo, ele supunha que mais 150 pés de material fariam; e adicionou que os primeiros oito tinham sido um pequeno começo para ele, por assim dizer, e que tinha usado uma bagatela de material a mais do que tinha calculado – cem pés ou um pouco mais. Eu disse que estava com uma pressa terrível e desejava que pudéssemos ter aquele negócio permanentemente mapeado para que eu pudesse seguir com meu trabalho. Ele disse: “Eu poderia colocar esses oito pára-raios e marchar para fora daqui para outro trabalho — muitos homens teriam feito isso. Mas não, disse a mim mesmo, este homem é um estranho para mim e eu morreria antes de fazer algo errado com ele; não há pára-raios o suficiente nessa casa e, por isso, jamais retornarei para meu caminho até ter feito o que deve ser feito, e tenho dito. Estranho, meu dever está cumprido; se um mensageiro do céu, recalcitrante e aproveitador, acertar sua –” “Certo, tudo bem, certo”, eu disse, “coloque outros oito – acrescente 500 pés de zincado espiral — faça qualquer coisa e todas as coisas que você quiser fazer; mas acalme sua angústia e tente manter seus sentimentos onde você possa alcançá-los sem um dicionário. Portanto, se estivermos entendidos agora, vou voltar ao trabalho novamente.” Acredito que estive sentado aqui por uma hora tentando voltar para onde estava quando minha linha de raciocínio foi quebrada pela última interrupção, mas acredito ter finalmente conseguido e posso me arriscar a continuar.]

— lutando com esse grande assunto, e os maiores dentre eles descobriram nele o pior adversário, que sempre aparece pronto e sorridente depois de cada tombo. O grande Confúcio disse que preferiria ser um profundo economista político do que chefe de polícia; Cícero frequentemente dizia que economia política era a maior consumação que a mente humana era capaz de ter; e até mesmo o nosso próprio Greeley disse, vagamente, mas com força que —  

[Aqui o homem do pára-raio me chamou de novo. Fui até ele num estado mental beirando a impaciência. Ele disse que preferia ter morrido a me interromper, mas quando ele é empregado para fazer um trabalho e é esperado que esse trabalho seja feita de forma limpa, de maneira perfeita, e quando estava finalizado e a fadiga o incitou a procurar descanso e a recreação de que tanto precisava, ele estava prestes a fazer isso, mas olhou para cima de relance e viu que o os cálculos estavam um pouco errados, e se uma tempestade de trovões acontecesse ali, naquela casa que ele tinha interesse pessoal, ela estaria sem nada na terra para protegê-la, a não ser 16 pára-raios. “Vamos ter paz!”, gritei. “Coloque cento e cinquenta! Ponha alguns na cozinha! Coloque uma dezena no celeiro! Coloque um par na vaca! — coloque um no cozinheiro! — espalhe todos eles por sobre o proscrito lugar até ele parecer com zinco galvanizado, em espiral, montado em prata! Vamos! Use todo material que puder pegar com as mãos, e quando ficar sem pára-raios coloque bastões, varas, escadas, pistões – tudo que for satisfazer seu lúgubre apetite por uma paisagem artificial e traga descanso para o meu atroz cérebro e cura para minha alma lacerada!” Totalmente indiferente – além de sorrir docemente – este cruel simplesmente virou as pulseiras elegantemente e disse que agora “passaria por cima de si mesmo”. Bem, isso tudo foi há umas três horas atrás. É questionável se ainda estou calmo o suficiente para escrever sobre o nobre tema da economia política, mas não posso resistir ao desejo de tentar, pois é o único assunto de todo mundo da filosofia que está próximo ao meu coração e querido pelo meu cérebro.]

“A economia política é a melhor dádiva do céu para o homem.” Quando o livre, porém privilegiado, Byron localizava-se em seu exílio veneziano, ele observou que se lhe fosse permitido voltar e viver sua vida esbanjadora novamente, daria seus intervalos lúcidos e desintoxicados a composição não de rimas frívolas, mas ensaios sobre economia política. Washington amava esta requintada ciência; nomes como Baker, Beckwith, Judson, Smith, são imperialmente ligados a ela; e até o Homero imperial, no nono livro de Ilíada, disse:

Fiat justitia, ruat caelum,

Post mortem unum, ante bellum,

Hic jacet hoc, ex-parte res,

Politicum e-conomico est.

A grandeza das concepções do velho poeta, juntamente com a felicidade das palavras que as vestem e a sublimidade das imagens pelas quais elas são ilustradas, destacaram esta estrofe e a tornaram a mais célebre que já existiu

[“Agora, mais nenhuma palavra para você — nenhuma simples palavra. Apenas declare o valor da conta e recaia num impenetrável silêncio para todo sempre sob essa premissa. Novecentos dólares? É tudo? O cheque com esse valor será honrado em qualquer banco respeitável da América. Por que que aquela multidão de pessoas parou na rua? Como? — ‘olhar os pára-raios!’ Que vida abençoada, eles nunca viram um pára-raios antes? Nunca vi ‘tamanha pilha deles num único estabelecimento’, entendi o que você disse? Vou descer e criticamente observar esse ebulição popular de ignorância.”]

TRÊS DIAS DEPOIS. — Estamos todos esgotados. Por entre quatro e vinte horas nossa premissa de reação era falar do assombro da cidade. Dos teatros definhando, pois suas mais felizes invenções cênicas eram monótonas e comuns comparadas com meus pára-raios. Nossa rua estava bloqueada noite e dia com espectadores, e entre eles muitos que vinham do interior só para vê-los. Foi um abençoado alívio, no segundo dia, quando uma tempestade de trovões chegou e um raio começou a “vir para” minha casa, como o historiador Josefo pitorescamente expressou. Ele iluminou as galerias, por assim dizer. Em cinco minutos não havia um espectador em meia milha da casa; mas todas as casas altas nessa distância estavam cheias, janelas, telhados, tudo. E bem, eles podem ter, todas as estrelas caindo nos fogos de artifício de uma geração reunidos e chovendo simultaneamente do céu em um chuveiro brilhante sob um telhado indefeso, não teriam nenhuma vantagem na exibição pirotécnica que estava fazendo minha casa tão magnificantemente visível na escuridão da tempestade. Pela conta atual, raios atingiram meu estabelecimento setecentas e sessenta e quatro vezes em quarenta minutos, mas tropeçaram um por um naquelas fiéis hastes toda vez, e deslizaram pelo espiral zincado atingindo a terra antes que, provavelmente, tivessem tempo de se surpreender com a forma como a coisa foi feita. E durante todo esse bombardeio apenas um pedaço de ardósia foi arrancado, e o foi porque por um único instante as varas das cercanias estavam transportando todos os raios que poderiam acomodar. Bem, nada assim foi visto desde que o mundo começou. Por um dia e uma noite inteiros nenhum integrante da minha família colocou a cabeça para fora da janela, mas arrancou todos os cabelos até a cabeça ficar tão brilhante como uma bola de sinuca, e se o leitor acreditar em mim, nenhum de nós nunca sonhou em mexer lá fora. Mas finalmente o terrível cerco chegou ao fim — porque não havia absolutamente nenhuma eletricidade nas nuvens acima de nós, enquanto brigavam com a distância das minhas hastes insaciáveis. Então parti para fora, e acumulei ousados operários juntos, e nenhuma mordida ou cochilo nós tivemos até que a premissa de destituição completa de todo o terrível armamento estivesse concluída, exceto por três hastes na casa, uma na cozinha e uma no celeiro — e eis as que permanecem até o dia de hoje. E então, e não antes disso, as pessoas se aventuraram a usar nossa rua novamente. Observei aqui, de passagem, que durante este tempo temeroso não continuei meu ensaio sobre economia política. Ainda não estou com os nervos e a mente estabelecidos o suficiente para isso.

A QUEM POSSA INTERESSAR — Partes necessitando de 3.211 pés do melhor material de espiral zincado em pára-raios de maior qualidade, 1.331 pontas de prata, tudo com reparos aceitáveis (e, embora muito gastos pelo uso, ainda funcionam em qualquer emergência ordinária), podem escutar uma barganha abordando os editores dessa revista.

Texto Original | http://www.twainquotes.com/Galaxy/187009a.html