Queimando no inferno [conto]

conto dezembro violencia

Imagem | Antimidia

O mundo caia em água e Miguel estava na esquina, com um papelão na cabeça e se molhando embaixo de um toldo rasgado. O opalão parou. Ele correu levemente pela calçada e entrou no carro. “Sabia que você não ia falhar.” O maior medo de Miguel não era o que ia acontecer naquela noite, mas o que ia acontecer se ele não fizesse, e as coisas não saíssem, como o Touro queria. No volante estava Danilo, que não tinha um motivo muito diferente, mas tinha mais experiência em situações de tensão que exigem o uso de arma de fogo. Igual a que o Touro jogou no colo de Miguel. “O cano é seu. Faz o que tiver que fazer.” Miguel segurou o trinta e oito meio desajeitado, conferindo se tinha bala mesmo. “Hoje vai ser de leve, só se livrar de um otário que esta batendo numa Dama que não merece. Isso sim é justiça social.” No fundo Miguel torcia para não precisar fazer nada. O que mais ele queria fazer era não estar ali. Mas se não estivesse na esquina na hora que o Touro mandou ele podia ir buscar Miguel onde estivesse se escondendo, e não ia ser uma conversa mansa.

Miguel olhava para a rua tentando se localizar na cidade. Estavam na avenida que dava na zona sul. O espancador de Damas que não merecem devia ter algum dinheiro. “Fiquem tranquilos. Vai ser simples. Jogo rápido. Sem problemas.” “Foi a mulher dele que contratou o serviço?” Miguel jamais teria coragem de perguntar alguma coisa, ele só concordava balançando a cabeça. Era Danilo que queria mais detalhes da operação. “Mais ou menos.” “Mas é certeza que ela não vai estar com ele? Por mim ela pode até ver se quiser, não me interessa quem pagou se você me der minha grana, só não quero tomar um susto e dar um pipoco na Senhora toda assustada.” Mesmo ele era prudente na hora de conversar com o Touro. Era sempre bom se explicar e não dar margem para muita coisa. “Ela tá viajando. Só vai tá o pilantra.” Danilo olhou para o lado num tom que o Touro já conhecia de outros trabalhos. “Encosta aí num posto que vamos ver certinho que vai rolar.” O motorista deu um leve sorriso, como um sinal de obrigado pelo respeito, e parou o carro numa loja de conveniência.

Todos entraram no estabelecimento para se servir de alguma coisa. Danilo e o Touro pegaram um latão de cerveja, Miguel uma água. “Tá doente, porra?” A primeira reação que passou pela cabeça de Miguel foi de pedir desculpas e pegar um latão de cerveja. “Estou tomando remédio.” “E daí, caralho. Vai me envergonhar com a turma assim. Quer estragar tudo? Olha a chance que estou te dando.” O Touro pegou um latão de cerveja e colocou na mão de Miguel, que não fez nada além de balançar a cabeça com o olho esbugalhado, abrir a lata e beber. Danilo já estava bebendo e fumando encostado no carro quando os dois chegaram. O Touro acendeu um cigarro e começou a falar. “Já estou na cola do cara a uns dias, até por isso vou deixar claro que vou ficar com uma parte maior da grana. Vai ser três pra mim, um e meio pro Danilo e quinhentas pilas pro Miguelito, que tá começando agora.” Os dois balançaram a cabeça positivamente. “Então, o safado mora num prédio ali na Avenida Top, e todo dia sai às oito e pouco para comer numa padaria lá perto. Depois volta umas nove e pouco. A gente tem que pegar ele e jogar no banco detrás do opalão e levar ele pra mata. Lá a gente apavora ele.” Os dois deram o ok com a cabeça e partiram para empreitada.

A chuva continuava caindo e Miguel rezava aos céus para alguma coisa parar aquele carro, mas parecia que Deus não estava disposto a intervir. O carro estacionou no meio do quarteirão entre a padaria e o prédio do alvo. “Então, já é um pouco mais de oito horas, será que ele tá na padaria ou no prédio?” O Danilo sabia o que tinha que fazer e queria acabar com aquilo rápido. “Não dá para saber, vou checar.” O Touro saiu e entrou na padaria. “Você é primo dele, então?” Danilo percebeu que Miguel estava tremendo e tentou acalmar o parceiro, que acenou que sim com a cabeça. “Fica calmo, o Touro é meio louco mas só com quem merece. Vai tudo dar certo.” Miguel deu um leve sorriso e por um breve instante acreditou em Danilo. Quando o Touro saiu da padaria com um cerveja na mão, veio na direção do carro e sentou no banco detrás, do seu lado, o instante passou. “Ele está lá, e só esperar ele sair.”

Miguel olhava para a hora sem parar. Era como se aquilo ajudasse o tempo a passar e toda aquela ação a acabar sem ele nem perceber o que aconteceu. “Tá ali, é aquele velho. Ele vai passar do nosso lado Danilão, to logo atrás de você.” O alvo veio andando calmamente pela calçada com Miguel olhando para ele e tentando avisar por telepatia para ele correr dali. Quando ele passou pela porta detrás do opalão o Touro e o Danilo saltaram. O Touro juntou os dois braços dele, fechou uma algema e jogou ele no banco detrás, em cima de Miguel, que empurrou o corpo de volta em direção a porta. Danilo entrou, ligou o carro e saiu em disparada com o Touro tendo que pular no banco do passageiro. O Touro colocou meio corpo na parte detrás do carro e começou a dar coronhadas no velho. Miguel se encolheu todo do seu lado. Num reflexo o velho bateu com a mão nos braços do Touro que deixou a arma cair. “Atira nele, porra. Atira nele, porra.” Gritou o Touro para Miguel, que não sabia o que fazer. “Atira.” O Touro deu um bote na direção de Miguel que instintivamente apertou o gatilho. O tiro acertou a testa de Touro. A bala atravessou a cabeça dele e explodiu com os miolos no vidro da frente. Danilo virou o volante violentamente para o lado tentando desviar do Touro jorrando sangue que caiu no seu colo. Danilo estabilizou o carro. Miguel estava travado com o cano fumegante apontado para frente. “Porra. O que você fez?” Num segundo momento ele, assustado, apontou para Danilo. “Calma aí, calma aí.” Danilo encostou o carro e saiu correndo. Miguel ficou com a arma na mão, e o velho algemado ao seu lado, esperando alguma coisa acontecer.

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