Com auto-respeito – Por Joan Didion (1961) [tradução]

joan didion antimidiablog

Imagem | Incase – CC via Flickr

Tradução livre | Eder Capobianco Antimidia

Publicado originalmente na revista Vogue.

Uma vez, durante uma estação de seca, escrevi em letras grandes por duas páginas de um caderno que a inocência acabava quando se é arrancada da ilusão de que alguém gosta de si mesma. Entretanto agora, alguns anos depois, me maravilhei que uma mente aberta para si mesma deveria, no entanto, ter feito um registro meticuloso de cada tremor, me lembro, com uma clareza embaraçada, do gosto particular dessas cinzas. Era uma questão de auto-respeito mal colocada.

Não tinha sido escolhida para a Phi Beta Kappa. Este fracasso dificilmente poderia ter sido mais previsível ou menos ambíguo (eu simplesmente não tinha as notas), mas eu estava desanimada por isso; tinha, de alguma forma, pensado em mim mesma como um Raskolnikov acadêmico, curiosamente isenta das relações causa-efeito que impediram as outras. Embora a situação tenha tido mesmo, então, a estrutura trágica que a aproxima do fracasso de Scott Fitzgerald em se tornar presidente do Princeton Triangle Club, o dia em que não entrei para a Phi Beta Kappa marcou, entretanto, o fim de alguma coisa, e inocência pode bem ser a palavra para isso. Perdi a convicção de que as luzes sempre se tornariam verdes para mim, a agradável certeza de que aquelas virtudes, um tanto quanto passivas, que tinham me dado aprovação como uma criança, automaticamente garantiriam a mim não só as chaves da Phi Beta Kappa, mas da felicidade, honra e o amor de um bom homem (preferencialmente um cruzamento entre Humphrey Bogart em Casablanca e um dos Murchisons em uma luta fiducial); perdi uma certa fé patética no poder inabalável das boas maneiras, do cabelo penteado, e competência comprovada na escala Stanford-Binet. Para amuletos tão duvidosos onde meu auto-respeito estava fixado, me encarava naquele dia com o espanto incompreensível de alguém que cruzou com um vampiro e não tinha uma guirlanda de alho nas mãos.

Apesar de ser levada de volta a si mesma ser uma situação incômoda, na melhor das hipóteses, é como tentar atravessar uma fronteira com documentos falsos, essa parece, para mim agora, a única condição necessária para se iniciar o auto-respeito real. Entretanto, da maioria das nossas trivialidades, a auto-desilusão continua a ser a decepção mais difícil. Os encantos que funcionam com as outras não contam em nada naquele devastadoramente bem iluminado beco onde se mantêm os compromissos consigo mesma: nenhum sorrisinho vencedor consegue aqui, nenhuma listinha bem desenhada de boas intenções. Com a agilidade desesperada de um gigolô de faro degenerado, que vê Bat Masterson pronto para se colocar no jogo, uma embaralhada incisiva, mas em vão pelas cartas marcadas – a bondade feita pela razão errada, o aparente triunfo que não envolveu esforço real, o ato aparentemente heróico em que alguém tenha sido humilhado. O triste fato é que o auto-respeito não tem nada a ver com a aprovação dos outros – que são, afinal, enganados facilmente; não tem nada a ver com a situação – a qual, como Rhett Butler disse para Scarlett O’Hara, é uma coisa que uma pessoa com coragem pode fazer sem.

Fazer sem auto-respeito, por outro lado, é ser a audiência teimosa de um desses intermináveis filmes caseiros que documentam os defeitos de alguém, tanto reais quanto imaginados, com imagens frescas emendadas com alta blindagem. Há o copo que você quebrou com raiva, há o machucado na cara de “X”; olhe agora, a próxima cena, a noite em que “Y” voltou de Houston, veja como você encara isso. Viver sem auto-respeito é ficar acordada uma noite, além da hora do lente quente, fenobarbital e da mão espalmada no cobertor, enumerando os pecados de comissão e omissão, as confianças traídas, as promessas sutilmente quebradas, os presentes irrevogavelmente desperdiçados por preguiça, covardia ou descuido. Não importa quanto nós adiamos isso, nós eventualmente nos deitamos sozinhas naquela, notoriamente, desconfortável cama, a pessoa que nós mesmos criamos. Se vamos ou não dormir com isso depende, claro, se nós respeitamos ou não nós mesmas.

Para protestar, algumas pessoas bastante improváveis, pessoas que não poderiam respeitar a si mesmas, parecem dormir facilmente para esquecer completamente do propósito, como tão certamente aquelas pessoas que perdem o que pensam ser auto-respeito tendo que, necessariamente, para fazer isso não ter alfinetes segurando suas roupas íntimas. Há uma superstição comum de que “respeito próprio” é um tipo de charme contra cobras, alguma coisa que mantém aquelas que tem isso trancado em um Éden ilusório, longe de camas estranhas, conversas ambivalentes e problemas em geral. Não faz nada. Não tem nada a ver com enfrentar as coisas, mas anseia, ao invés disso, uma paz separada, uma reconciliação privada. Embora descuido, o suicídio de Julian English em Appointment in Samarra e o descuido, do incuravelmente desonesto Jordan Baker em The Great Gatsby, parecem candidatos igualmente improváveis para o auto-respeito, Jordan Baker teve, Julian English não. Com esse talento para adaptação mais frequente na mulher que no homem, Jordan tomou seu próprio julgamento, fez sua própria paz, e evitou ameaças a essa paz: “Odeio pessoas descuidadas”, ela disso à Nick Carraway. “É preciso duas para acontecer um acidente.”

Como Jordan Baker, pessoas com auto-respeito tem a coragem de seus erros. Elas sabem os preços das coisas. Se elas escolhem cometer adultério elas não vão correr, em um acesso de má consciência, para receber a absolvição das partes prejudicadas; nem reclamam indevidamente de injustiça, do constrangimento desmerecido, de serem nomeadas concorrentes. Se elas escolhem por renunciar ao seu trabalho – dizem que é um script – em troca de sentar pelo bar Algonquin, elas não perguntam amargamente por que Hackett, e não eles, escreveram Anne Frank.

Em resumo, pessoas com auto-respeito exibem uma certa força, uma espécie de nervo moral; elas mostram o que foi uma vez chamado de caráter, uma qualidade que, embora aprovada no abstracto, às vezes perde terreno para outras, mais instantaneamente negociáveis, virtudes. A medida de seu prestígio escasso é que tendem a pensar nisso apenas em conexão com crianças modestas e com os senadores dos Estados Unidos que foram derrotados, preferencialmente nas primárias, para re-eleição. Entretanto, o caráter – a vontade de aceitar a responsabilidade pela própria vida – é a fonte do qual o auto-respeito brota.

Auto-respeito é uma coisa que nossas avós, tendo ou não, sabiam tudo sobre. Elas tinham isso inflado nelas jovens, uma certa disciplina, a sensação de que alguém vive fazendo coisas que, particularmente, não quer fazer, colocando medos e dúvidas de um lado, pesando confortos imediatos contra a possibilidade de um conforto maior, até intangível. Parecido com o admirável, mas não notável, Século XIX em que o Gordon chinês colocasse um terno branco e limpo e mantivesse Khartoum contra os Mahdi; não parece injusto a forma como a libertação da Califórnia envolveu morte, dificuldades e sujeiras. Em um diário mantido durante o inverno de 1846 uma imigrante, de 12 anos, chamada Narcissa Cornwall anotou friamente: “Papai estava ocupado lendo e não percebeu que a casa esta estava cheia de índios estranhos até que Mamãe falasse.” Mesmo sem qualquer indício sobre o que a mãe disse, dificilmente alguém pode deixar de ficar impressionada com todo incidente: o pai lendo, os índios ocupando, a mãe escolhendo as palavras que não alarmariam, a criança gravando devidamente o evento, percebendo que esse índios, em particular, não eram, “felizmente para nós”, hostis. Os índios simplesmente eram parte dos donnée.

De uma forma ou de outra, os índios sempre são. Novamente, essa é uma questão de reconhecer que qualquer coisa que valha a pena tem seu preço. Pessoas que respeitam si mesmas estão dispostas a aceitar o risco de que os índios sejam hostis, que o empreendimento vá à falência, que um caso pode não se tornar aquele em que todos os dias são um feriado porque você está casado comigo. Elas estão dispostas a investir alguma coisa delas mesmas; elas podem não jogar, mas quando elas jogam elas sabem as probabilidades.

Esse tipo de auto-respeito é uma disciplina, um hábito da mente que nunca pode ser falsificado, mas pode ser desenvolvido, treinado, influenciado. Uma vez isso foi sugerido para mim, que, como um antídoto para choro, colocasse um saco de pão na cabeça. Como acontece, há uma razão fisiológica sonora, alguma coisa para fazer com oxigênio, para fazer exatamente isso, mas o efeito psicológico solitário é incalculável: é difícil ao extremo continuar se imaginando como Cathy em Wuthering Heuights com a cabeça num Saco de Pão. Existe uma situação semelhante em todas as punições, sem importância em si mesma; imagine sustentar qualquer tipo de desmaio, compaixão ou carnal, num banho frio.   

Mas essas pequenas punições são importantes para avaliação apenas na medida em que representam as maiores. Dizer que Waterloo foi vencida num campo de cricket de Eton não é dizer que Napoleão poderia ter se salvado com um planejamento de falhas em cricket; para dar jantares formais numa floresta tropical, não seria inútil que as cintilantes luzes de velas nos cipós convidasse há uma punição profunda, forte, de valores instilados muito antes. É um tipo de ritual, ajudando-nas a lembrar quem e o que nós somos. Para lembrar, é preciso ter sabido disso.

Ter a sensação de que o valor intrínseco de alguém, para o bem ou para o mal, é constituído pelo auto-respeito é, potencialmente, ter tudo: a habilidade para discriminar, para amar e para se manter indiferente. Não possuir isso é estar travada dentro de si mesma, paradoxalmente incapaz de amor ou indiferença. Se nós não respeitamos somos, por um lado, forçadas a desprezar aquelas que tem tem poucos recursos quando ligadas a nós, com pouca percepção quanto ao que nos mantém cegas para nossas fraquezas fatais. Por outro lado, nós estamos particularmente ligadas com aquelas que vemos, curiosamente, determinadas a viver – uma vez que nossa auto-imagem é insustentável – suas falsas noções de nós. Nós estimulamos nós mesmas pensando essa compulsão para agradar aos outros com um traço atraente: um presente pela empatia imaginativa, evidência da nossa vontade de dar. Claro que nós vamos jogar Francesca para Paolo, Brett Ashley para Jake, Helen Keller para qualquer Annie Sullivan: nenhuma expectativa é mal colocada, nenhuma função é tão ridícula. Para misericórdia daqueles que não podemos deixar de desprezar, jogamos no padrão condenado ao fracasso antes que comece, cada derrota gerando um novo desespero para a necessidade de adivinhar e atender a nova demanda feita sobre nós.

Esse é o fenômeno algumas vezes chamado de alienação de si mesma. Em seu estágio avançado, nós não atendemos mais ao telefone, porque alguém pode querer alguma coisa; que podemos dizer não, sem se afogar em auto-reprovação, é uma ideia estranha à esse jogo. Todo encontro exige muito, rasga os nervos, drena a vontade e um espectro tão pequeno, como uma carta não respondida, desperta uma culpa tão desproporcional que a sanidade de alguém se torna objeto de especulação entre os que a conhecem. Para atribuir a carta sem resposta o seu peso adequado, para nos libertarmos das expectativas dos outros, para nos devolver a nós mesmas – encontra-se o grande, o singular poder do auto-respeito. Sem isso alguém, eventualmente, descobre a volta final do parafuso: uma foga para encontrar si mesma, e não encontra ninguém em casa.  

Sobre Joan Didion | https://pt.wikipedia.org/wiki/Joan_Didion

Texto original | https://www.vogue.com/article/joan-didion-self-respect-essay-1961

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