Diálogo [conto]

Dialogo imagem conto

Imagem | Fons Heijnsbroek – Creative Commons via Flickr

– Nossa, aquilo que você fez mexendo as pernas acabou comigo.

– Consegui sentir tudo se mexendo lá dentro.

– Foi sensacional.

– Era disso que eu precisava.

– A vida está difícil lá fora?

– Está mais para um saco do que para difícil. Como uma música que incômoda.

– Tipo quando está tocando uma música que ninguém conhece numa festa de aniversário. Fica todo mundo olhando para os lados torcendo para a próxima música ser legal.

– Isso mesmo. Ninguém se diverte, ninguém sorri, ninguém é feliz.

– As vezes queria ter feito outra coisa da vida. Ser, tipo, alguma coisa que viaja. Guia de viagens, jornalista, sei lá. Trabalhar fora do escritório.

– O que eu queria mesmo era ser tipo uma J. K. Rowling ou um Paulo Coelho, mas nem eu leio livros, como vou reclamar que ninguém lê o meu?

– Quando foi a última vez que você leu um livro?

– Qualquer livro ou tem que ser de literatura?

– Pode ser qualquer um.

– Outro dia estava na casa do meu pai e encontrei aquele Minuto de sabedoria perdido numa gaveta da sala. Li ele inteirinho em 20min.

– Já leu mais que eu.

– Quando foi a última vez que você leu um livro?

– Inteiro? Ainda tava na escola. Minha tia sempre me da uns livros, mas ela nunca acerta.

– São aqueles que estão na estante da sala?

– Isso. Pelo menos servem para decoração.

– Já vi. Não conheço nenhum.

– Sempre tento ler quando eu ganho, mas me dá sono. Tem um lá que ela disse que era um clássico, que eu ia gostar. O livro começa com o cara virando uma barata, depois não acontece mais nada. Li umas cinco páginas e cai no sono.

– Acho que já ouvi falar desse aí. Queria ler um livro do Jô. Qualquer hora dessas vou comprar um.

– Nossa, os livros dele são gigantes. Olha aí, minha tia podia me dar um livro do Jô. Acho que eu ia querer ler.

– Você já reparou que quem lê muito fica meio estranho?

– Fica nerd, e chato. Metido a besta.

– Isso é culpa da escola. Cansei de escutar professor falar que tem que estudar, tem que ler, e blá blá blá. Como se só quem estuda fosse inteligente, quem não estuda está condenado a ser infeliz e ignorante.

– Hoje todo mundo tem informação. A vida real é bem diferente do que dizem os livros.

– Minha filha de nove anos aprende mais na internet que na escola.

– Meus filhos não tem nem essa idade, nem sabem ler e já sabem mexer no celular. E não foi na escola que eles aprenderam. As pessoas não tem a menor ideia do que a mente humana é capaz.

– Mas tem gente que não entende. Só porque estudou acha que tem razão, que sabe tudo. Essa conversa de que as coisas mudaram. Algumas coisas podem até ter mudado, mas outras não. O mundo é o mesmo. A melhor escola é a vida. Tem coisa que não muda nem vai mudar.

– Você já reparou que as novelas são sempre as mesmas coisa?

– Só muda os personagens, um detalhe ou outro, mas é sempre a mesma coisa. Além do que as antigas são as melhores.

– Final feliz só existe lá. A vida real é outra coisa. Tem conta para pagar, trabalho, família. As pessoas tem responsabilidades.

– O último capítulo da vida é a morte, e não tem reprise no outro dia.

– Se você pudesse ser alguém de uma novela. Qualquer personagem. Quem você escolheria?

– Não sei. Alguém que tivesse dinheiro do começo ao fim.

– Calma aí. Nem tudo se resume a dinheiro.

– Como diria uma sábio: existem os problemas de quem tem dinheiro e de quem não tem dinheiro. Eu prefiro os de quem tem dinheiro.

– Sem problemas não existe, isso é verdade. Não adianta procurar uma coisa que não existe. E a vida não teria a mesma graça se tudo desse certo.

– E são momentos como esse que fazem a vida valer a pena. Me sinto leve. É como se os problemas não pudessem me alcançar agora.

– Fazia tempo que não conseguia ter uma conversa produtiva assim com alguém. As pessoas só querem discordar, discordar, discordar.

– São os que não sabem ser felizes, não sabem aproveitar os melhores momentos da vida.

– Pra ser feliz basta fazer aquela coisa com as pernas, não é verdade?

– Aquilo é incrível mesmo.

– Mas tem que ter preparo físico para aquilo. Você malha, né?

– Não tem nada haver com exercício, é boa alimentação. É isso que dá vontade, flexibilidade e força.

– Outro dia li que a base de uma boa alimentação é uma colher de vinagre todo dia pela manhã. Em jejum.

– Não adianta nada começar o dia com uma colher de vinagre e terminar com lanche e refrigerante.

– Por favor, sem radicalismos. Não pode comer carne, nem açúcar, nem glúten. Agora a gente vai ter que viver de alpiste.

– Claro que não. Sem essas loucuras da moda. É só não exagerar em nada, ficar petiscando entre as refeições, assaltar a geladeira a noite, essas coisas que a gente sabe que acontece.

– Não consigo passar vontade. Se tenho vontade como mesmo. A hora que for.

– Ainda bem que tenho as pernas então.

– Queria não ter que buscar meu filho no inglês agora.

– Ele já faz inglês?

– Desde os seis anos. Ele já cresce falando isso e consegue ir embora daqui o quanto antes. Quero que ela estude e more nos Estados Unidos.

– Vou colocar a minha mais velha no inglês assim que ela tiver essa idade. Por enquanto é só natação e uma terapia infantil.

– Você é incrível. Foi uma tarde perfeita.

– Também adorei a conversa, as risadas, aquela coisa das pernas, tudo.

– As pessoas precisam sair dessa vida de zap zap e sair mais de casa, conversar, trocar experiências. Temos que fazer mais isso.

– Quando podemos nos ver de novo?

– Acho que a semana que vem. Te mando uma mensagem.

– Quarta e quinta a tarde são os melhores dias para mim.

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