O escritor e o público – Antonio Candido [resenha]

Antonio Candido antimidiablog

Imagem | André Gomes de Melo via Flickr CC BY 2.0

CANDIDO, Antonio. O escritor e o público. In ________. Literatura e Sociedade. 9ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul: 2006.

Sobre o autor e a obra

Antonio Candido (1918-2017), é um dos principais críticos literários brasileiro. É professor-emérito da USP e da UNESP, e doutor honoris causa da Unicamp. Formado em filosofia, mostrou nas suas análises, que tinham o aspecto social como determinante, uma tendência aos pensamentos de esquerda. O escritor e o público é a parte do livro Literatura e Sociedade, lançado em 1965, uma coletânea com alguns de seus artigos publicados. Nele Candido argumenta sobre a formação do público leitor no Brasil e o desenvolvimento do escritor como profissional.

O escritor e o público

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A intenção do autor (sua vontade e opinião sobre a obra) é irrelevante diante de uma análise social dela e do impacto de sua recepção. A ação do leitor (sendo essa a leitura) é que realiza a obra literária, sem ela o ciclo não se completa. Isso acontece porque a interpretação da obra vai ser diferente por parte de cada leitor, e a sua posição social (assim como a do escritor) é determinante no direcionamento desta interpretação, e na relação do leitor com a obra.

“Em contraposição à atitude tradicional e unilateral, que considerava de preferência a ação do meio sobre o artista, vem-se esboçando na estética e na sociologia da arte uma atenção mais viva para este dinamismo da obra, que esculpe na sociedade as suas esferas de influência, cria seu público, modificando o comportamentos dos grupos e definindo relações entre os homens.” (p.84)

Para Candido a formação do público vai estar ligada a posição social dos indivíduos desse grupo, e ela vai dar o status, seja ele qual for, ao escritor, e este pode não corresponder à realidade. É o “conceito social” que o público concede ao escritor é que o “justifica socialmente”. O público, como referência é também o reflexo do autor e objetivo de sua obra. Todos estes fatores são interdependentes, e uma análise da obra deve relacionar eles.

Quando escreve uma obra, o escritor vislumbra o leitor ideal, mas este pode não corresponder às suas expectativas. Citando Von Wiese, Candido mostra que o público não se configura como um grupo social homogêneo. Trata-se indivíduos com interesses variados, que muitas vezes não se combinam além da leitura da obra. Esta chega até ele através dos meios de comunicação ou críticos que obtém o reconhecimento do público como referência.

“Escritor e obra constituem, pois, um par solidário, funcionalmente vinculado ao público; e no caso desse conhecer determinado livro apenas depois da morte do autor, a relação e faz em termos de posteridade. De modo geral, todavia, a existência de uma obra levará sempre, mais cedo ou mais tarde, a uma reação, mínima que seja; e o autor a sentirá no seu trabalho, inclusive quando ela lhe pesa pela ausência.” (p.87)

Assim se forma o sistema de análise de Candido escritor – obra – público.

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“Quando consideramos a literatura no Brasil, vemos que a sua orientação dependeu em parte dos públicos disponíveis nas várias fases, a começar pelos catecúmenos, estímulo dos autos de Anchieta, a eles ajustados e sobre eles atuando como lição de vida e concepção do mundo. Vemos em seguida que durante cerca de dois séculos, pouco mais ou menos, os públicos normais de literatura aqui foram os auditórios – da igreja, academia, comemoração. O escritor não existia enquanto papel social definido; vicejava como atividade marginal de outras, mais requeridas pela sociedade pouco diferenciada: sacerdotes, juristas, administrador. Querendo fugir daí é afirmar-se, só encontrava os círculos populares de cantigas e anedotas, a que se dirigiu o grande irregular sem ressonância nem influência, que foi Gregório de Matos na sua fase brasileira.” (p.87)

Do ponto de vista de Candido, somente no fim do século XVIII é possível vislumbrar a formação de um público leitor, que vai dar ao escritor sua posição social. Silva Alvarenga, e suas obras que procuravam “harmonizar criação com militância intelectual”, é destacado no texto como exemplo disso. Em torno dele (suas obras) se formou o grupo Sociedade Literária. Entre eles haviam nomes importantes posteriormente para a Independência do Brasil. É o nacionalismo que une todos estes leitores, e “associações político-culturais” provindas deles que abriram caminho para mudanças sociais. Por isso é possível dizer que foi a junção de política e literatura que possibilitou a interação entre público e escritor.

As exigência estéticas desse público levou os escritores a uma escrita oralizada, uma característica que atrasou o desenvolvimento estético da literatura brasileira, segundo Candido. O texto lido, expresso através da oralidade de um orador, subverte os leitores a se tornarem auditores, sublimando a leitura em si.

A construção da pátria (nacionalismo), e sua exposição através da literatura, são os elos que ligam escritor e público no século XIX. É este pensamento que o coloca como socialmente importante, atrai leitores e transmite valores. A posição do escritor de idealizador do Brasil (um desbravador social) iam de encontro com os interesses do establischment do seu tempo. A principal fonte de renda do escritor era o mecenato, e esse mecenas era, muitas vezes, o governo.

“Nota-se, também, que prosseguiu por todo o século XIX, e até o início do século XX, a tradição do auditório (ou que melhor nome tinha), graças não apenas à grande voga do discurso em todos os setores da nossa vida, mas, ainda, ao recitativo e à musicalização dos poemas. (…) Dessa maneira, românticos e pós-românticos, penetraram melhor na sociedade, graças a públicos receptivos de auditores. E não esqueçamos que, para o homem médio e do povo, em nosso século a encarnação suprema de inteligência e da literatura foi um orador, Rui Barbosa, que quase ninguém lê fora dalgumas páginas de antologia.” (p.94)

No segundo reinado, o desenvolvimento social impulsionou jornais e revistas, que formaram um público feminino, e muitos dos textos literários eram lidos em serões. Embora a literatura fosse bastante acessível, faltava ao público condições financeiras para ter acesso a ela, além da comunicação, entre público e escritor, ser falha. Soma-se a estes fatores o (sempre) grande número de analfabetos no país e temos leitores, basicamente, formados pela elite. Esta não é intelectualmente desenvolvida, e mesmo assim era o único meio de interlocução entre público e a massa.

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Este cenário se desenvolveu na primeira metade do século XX. Houve um aumento do leitores na massa e o surgimento de um indústria editorial, o que melhorou as condições financeiras dos escritores, que conseguiram uma fonte alternativa de renda, podendo fugir dos mecenas e do dinheiro estatal. Com isso os escritores conseguiram uma certa independência ideológica que os aproximou do povo.

“Se considerarmos o panorama atual, talvez notemos duas tendências principais no que se refere à posição social do escritor. De um lado, a profissionalização acentua as características tradicionais ligadas à participação na vida social e à acessibilidade da forma; de outro, porventura como reação, a diferenciação de elites exigentes acentua as qualidade até aqui recessivas de refinamento, e o escritor procura sublinhar as suas virtudes de ser excepcional.” (p.98)