Interpretação e Superinterpretação – Umberto Eco [resenha]

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Imagem | Rob Bogaerts -Nationaal Archief, Den Haag, Rijksfotoarchief: Fotocollectie Algemeen Nederlands Fotopersbureau (ANEFO) Via Wikipedia CC

ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Sobre o autor e a obra

Umberto Eco (1932-2016) é um filósofo e escritor italiano. Ministrou aulas de Semiótica, e foi diretor, da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, além de já ter passado por Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto. Também escreveu romances, como O nome da rosa. No primeiro capítulo da obra tratada aqui, Eco faz uma leitura histórica do pensamento moderno, e das formas de argumentações, que são a base da interpretação artística moderna. Sua motivação é complementar outro ensaio seu, Obra aberta, onde expõe, e valoriza, os intérpretes (e receptores) de uma obra de arte. Por fim, ele conclui que uma boa interpretação deve seguir alguns critérios, e levar em conta os contextos da produção da obra, do intérprete e sua recepção.

Capítulo 1: Interpretação e história

Mea culpa

Já no começo do de seu texto Umberto Eco deixa claro que sua Obra aberta esta sendo interpretada de maneira equivocada, ao que se refere a como a interpretação da arte esta sendo supervalorizada, e até certo ponto distorcida. Para ele as interpretações devem seguir um caminho racional, além de ter critérios (importância da crítica), caso contrário pode se criar um ambiente onde barbáries se justificam a partir da (mau) interpretação de alguma obra.

Viagem arqueológica

“Qualquer forma de pensar sempre é vista como irracional pelo modelo histórico de outra forma de pensar, que vê a si mesmo como racional. A lógica de Aristóteles não é a mesma que a de Hegel; Ratio, Ragione, Raison, Reason e Vernunft não significam a mesma coisa.” (p. 30)

A partir desse fragmento se conclui que a ideologia de um tempo determina sua razão, e delimita limites. Para contrapor a irracionalidade de um pensamento a melhor forma seria a moderação. Podemos entender essa moderação como princípio lógico de modus ponens (se um argumento é usado para validar outro, então os dois são verdade) e da ética formulada por Horácio, onde a moderação ajuda a identificar limites, ou a fronteira para a razão. Também são levantados os princípios da não-contradição (1 não pode ser 2) e a lei do terceiro excluído (tertium non datur: existem duas opções, sim e não, qualquer outra é excluída).

Colocado estes pensamentos grego-latinos, se estabelece um contrato social para argumentação, e a delimitação de fronteiras. Estas estabelecem a segurança da argumentação, e nem Deus pode atravessá-las. Em outras palavras, se não há ordem, há desordem. Para garantir essa ordem os pensamentos devem estar na mesma direção. Isso não significa que haja apenas um pensamento correto. Sendo o pensamento um quebra-cabeças, ele tem várias peças que precisam se conectar, não uma só. A soma de todos estes pensamentos criam o inconsciente coletivo. Estes ideias estão ligadas ao hermetismo do Séc. II, que buscava uma verdade desconhecida escondida nos livros, sendo que cada um contém uma pequena porção de verdade. Logo se juntarmos todos os fragmentos teremos a grande verdade. Esse pensamento coloca em xeque a lei do terceiro excluído, e abre espaço para a interpretação através de símbolos e alegorias.

Essa caçada implacável pela verdade a banaliza, até que se torne senso comum e seja desacreditada. Então surge a necessidade de se estabelecer outra verdade e dar continuidade a um ciclo. Seguindo o pensamento hermético, as ideias não se opõe, não é possível se estabelecer a lei do terceiro pensamento.

“Enquanto para o racionalismo grego uma coisa era verdade quando podia ser explicada, uma coisa verdadeira era agora principalmente algo que não podia ser explicado.” (p. 36) “Consequentemente, a interpretação é indefinida. A tentativa de procurar um significado final intangível leva à aceitação de uma interminável oscilação ou deslocamento do significado.” (p. 37)

Corpus Hermeticum x gnose

O conhecimento hermético esta diretamente ligado a ciência. Primeiro pela alta influência nos pensadores da Renascença, que ressaltavam a importância da cultura clássica, depois por ser o contraponto ao racionalismo científico moderno. Eco ainda acrescenta o conceito de segredo, que move as descobertas em sua incansável busca por uma verdade suprema. Mas, de acordo com o pensamento hermético, a verdade (ou segredo) é secreta e inatingível.

“A verdade é secreta e nenhum questionamento dos símbolos e enigmas jamais revelará a verdade última, só deslocando o segredo para outro lugar. Se esta é a condição humana, então significa que o mundo é o resultado de um erro. A expressão cultural desse estado psicológico é a gnose.” (p. 41)

Esse movimento cristão vê o indivíduo como um ser em exílio no mundo, preso em uma corpo de carne condenado ao fim universal, a morte. No tempo que tem habitando esse corpo ele precisa descobrir uma saída / verdade. Como argumentação para a influência do pensamento gnóstico na cultura moderna e contemporânea Umberto Eco usa o exemplo do amor cortês. Este renuncia ao desejo sexual em nome de uma relação espiritual maior, ou seja, a renúncia aos prazeres da vida também é a renúncia dela em si, que gera uma pureza que vai levar ao conhecimento da verdade / segredo. Juntando a herança hermética a esse pensamento agnóstico teremos como resultado a “síndrome do segredo”. Esta caça também tem causas sociais.

“Por outro lado, quando Lukács diz que o irracionalismo filosófico dos dois últimos séculos é uma invenção da burguesia tentando reagir à crise que está enfrentando e dando uma justificativa filosófica para sua própria vontade de poder e sua própria prática imperialista, está simplesmente traduzindo a síndrome gnóstica para a linguagem marxista.” (p. 43)

A interpretação textual

A herança cultural de todos estes pensamentos representam um contrato social para elucidar os significados de um texto. Para determinar como tudo se converge na cultura moderna e contemporânea Umberto Eco lista algumas afirmações que corroboram com sua teoria:

  • 1) um texto permite infinitas interconexões vindas de seu leitor.
  • 2) a linguagem produz significados ilimitados.
  • 3) o indivíduo não consegue extrair qualquer significado transcendental da linguagem por causa dos pontos 1 e 2.
  • 4) um texto que pretende revelar algo unívoco vai acabar se contradizendo.

Por fim, um texto sem contexto é aberto, e gira em torno de um significado vazio. Para Eco cabe ao leitor, que é parte deste contexto, entender que as palavras não revelam nenhum segredo, mas ocultam significados. Colocando isso no conhecimento popular, o importante não é o que foi escrito, mas o que ficou de fora. É unindo o que foi escrito ao que ficou de fora teremos uma interpretação, que deve respeitar os limites lógicos da razão para ter algum significado real.

“O que quero dizer aqui é que existem critérios para limitar a interpretação. Caso contrário, correríamos o risco de nos ver diante de um paradoxo meramente linguístico do tipo formulado por Macedonio Fernandez: Neste mundo faltam tantas coisas que, se faltasse mais uma, não haveria lugar para ela.” (p. 46)