Cultura de massa no século XX: o espírito do tempo – I: neurose – Edgar Morin [fichamento]

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Imagem | Edgar Morin – Lisaetwikipedia CC via Wikipedia

MORIN, Edgar. A integração cultural. Cultura de massa no século XX: o espírito do tempo – I: neurose. 4 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977. p.11-85

Sobre o autor e a obra

Formado em direito, história e geografia (economia), Edgar Morin (nascido em julho de 1921) é um judeu francês crítico do estado de Israel. Participou da resistência francesa a invasão alemã na II Guerra Mundial e manteve atividades no partido comunista até 1951. O livro A integração cultural foi publicado em 1962, pouco tempo depois de uma viagem pela América Latina. Nele Morin fala sobre como a indústria cultural impacta a sociedade e sua inevitabilidade ao homem médio. Neste processo ele traça um panorama da Terceira Cultura (termo usado por ele para se referir a cultura de massa), passando pelo papel da indústria cultural, a criação do público e a absorção de tudo isso pelo mercado.

1 – Um terceiro problema

A industrialização se expandiu do Ocidente para todo o globo, levando com ela uma cultura (“segunda industrialização”) também globalizada, a Cultura de Massa. Por massa entendemos todas as pessoas. Morin denomina este fenômeno da indústria cultural de Terceira Cultura (sendo Cultura Clássica e a Cultura Nacional suas companheiras). Se entende por cultura um conjunto de hábitos e costumes que regem uma sociedade. Desta forma a cultura é mutável, ganhando novos significados de acordo com as mudanças sociais promovidas pelo tempo.

“Assim, a cultura nacional, desde a escola, nos imerge nas experiências mítico-vividas do passado, ligando-nos por relações de identificação e projeções aos heróis da pátria (Vercingetórix, Jeanne D’Arc), os quais também se identificam com o grande corpo invisível, mas vivo, que através dos séculos de provações e vitórias assume a figura materna (a Mãe-Pátria, a quem devemos amor) e paterna (o Estado, a quem devemos obediência). A cultura religiosa se baseia na identificação com o deus que salva, e com a grande comunidade maternal-paternal que constitui a Igreja. Mas sutilmente, ou antes, de modo mais difuso, a cultura humanista procura um saber e uma sensibilidade, um sistema de atitudes afetivas e intelectuais, por meio do comércio das obras literárias, em que os heróis do teatro e do romance, as efusões subjetivas dos poetas e das reflexões moralistas desempenham, de modo atenuado, o papel de heróis das antigas mitologias e de sábios das antigas sociedades.” (p.15)

A Terceira Cultura se coloca como emuladora das outras, instalando uma sociedade moderna “policultural”. Isso porque esta cultura não entra no circuito de retroalimentação descrito na citação, e sim absorve e consome a outras, transformando-as em cultura de massa.

Crítica intelectual ou crítica aos intelectuais

Se estabelece que a produção industrial, do que for, tem como premissa o lucro, sendo que com a indústria cultural não é diferente. O valor financeiro da arte também forma um mercado mais valorizado e elitizado junto com o produto arte da indústria cultural. O produto arte de consumo tem sua estética suprimida em nome desse lucro, assim como a considerada arte clássica tem seu valor financeiro aumentado.  

O processo de transformação da cultura em kitsch é prontamente criticado, ou rechaçado, pelos intelectuais (leia-se frankfurtianos e Macdonald). Morin chama essa crítica exacerbada de senso comum. Muito porque quando estes críticos são cooptados pela indústria cultural e, (bem) pagos pelos seus conhecimentos técnicos, também conseguem imprimir, de alguma forma, seus conhecimentos críticos ou artísticos à sua produção. A parcialidade é parte da produção artística.

“Qualquer que seja o fenômeno estudado, é preciso primeiramente que o observador se estude, pois o observador ou perturba o fenômeno observado, ou nele se projeta de algum modo. Seja o que for que empreendamos no domínio das ciências humanas, o primeiro passo deve ser a auto-análise, de autocrítica. Como intelectual atacando o problema da cultura, é, em primeiro lugar, minha concepção de cultura que está em jogo. Como pessoa culta dirigindo-me a pessoas cultas, é exatamente essa “cultura” comum que devo primeiramente colocar em questão. (…) O problema preliminar a ser circunscrito é o seguinte: em que medida estamos nós mesmos comprometidos com um sistema de defesa às vezes inconsciente, mas sempre incontestável contra um processo que tende à destruição dos intelectuais que somos?” (p. 19-20)

Método

Por isso que antes de criticar a cultura de massa é preciso se inserir nela, ser parte dela e sentir como opera suas relações a partir de experiências vividas.

2 – A Indústria Cultural

Como todo comércio, a Indústria Cultural depende do lucro para se perpetuar. Por isso é necessária a manutenção de um status quo que a favoreça, isso é, o sistema capitalista que a alimenta.

Dois sistemas

Atingir as massas está além da comunicação, arte ou cultura, acima de tudo se visa  controle que gere lucro. Por isso a intervenção do Estado na Indústria Cultural é inevitável. “Os conteúdos culturais diferem mais ou menos segundo o tipo de intervenção do Estado – negativo (censura, controle) ou positivo (orientação, domesticação, politização) – segundo o caráter liberal ou autoritário da intervenção, segundo o tipo de Estado interveniente.” (p.23)

No que diz respeito ao lucro (esfera privada), o produto arte da Indústria Cultural tem que agradar o seu cliente. Quando se pensa no controle se vê o Estado agindo ideologicamente no conteúdo. Contudo Morin concentra seu estudo nos “processos culturais que se desenvolvem fora da esfera da orientação estatal.” (p.24)

Produção-Criação: o modelo burocrático-industrial

A cadeia de produção da Indústria Cultural subverte seu fim, que seria a produção de um produto arte questionador. Ao contrário da matemática, onde uma fórmula leva a um mesmo resultado, a Indústria Cultural tem que fazer a fórmula chegar a resultados diferentes, mas com a mesma substância, o mesmo sentido. É preciso recriar o velho e revesti-lo de moderno. “Um filme pode ser concebido em função de algumas receitas-padrão (intriga amorosa, happy end) mas deve ter sua personalidade, sua originalidade, sua unicidade.” (p.25) Isso significa que existe espaço para criatividade na Indústria Cultural, mas a liberdade é limitada e condicionada.

Na busca de um produto individualizado a indústria busca na segmentação do mercado a singularidade padrão de um determinado grupo, mas a produção ainda se concentra nas mesmas empresas, centralizando, consequentemente, o lucro. Quando este domínio se vê ameaçado pela falta de capital, ou concorrência, a indústria passa a terceirizar sua produção, mas mantém as produtoras presas a sua ideologia. Se busca aí um equilíbrio entre a liberdade artística e as necessidades da indústria.

“Em outras palavras, a indústria cultural precisa de um eletrodo negativo para funcionar positivamente. Esse eletrodo negativo vem a ser uma certa liberdade no seio de estruturas rígidas. Essa liberdade pode ser muito restrita, essa liberdade pode servir, na maioria das vezes, para dar acabamento à produção padrão, portanto, para servir à padronização.” (p.29)

Produção e criação: a criação industrializada

A era da reprodutibilidade técnica avançada (tal como descrita por Benjamin) modifica o processo de criação do artista, que passa a ser dominado por técnicas de produção. Estas são, em muitas vezes, coletivas. Não basta um homem para fazer um filme, tem de ser um grupo. Esse coletivismo artístico, e a necessidade de invenção, propiciam um sistema de produção contínuo, introduzindo o fordismo a cultura, o que, consequentemente gera padronização.

“Essa divisão de trabalho tornado coletivo é um aspecto geral da racionalização que chama o sistema industrial, racionalização que começa na fabricação de produtos, se segue nos planejamentos de produção, de distribuição, e termina nos estudos do mercado cultural.” (p.30)

O fim de todo este trabalho coletivo é a criação de vedetes, individualizadas o suficiente para o mercado e atraentes ao público pela cultura que propagandeiam. Mas este processo também abre precedentes para produção a margem da indústria cultural, seja pelos altos contratos que algumas estrelas assinam, tendo a possibilidade de financiar projetos paralelos, ou pelo espaço que sobra para produções de baixo custo.

3 – O Grande Público

A massa, ou grande público, é formado para pessoas diferentes, que exigem produtos individualizados. Para se chegar a esse produto é necessário encontrar um denominador comum (senso comum), que universalize (moralmente) um produto. Assim Morin chega a segmentação de mercado, ou a criação do homem médio, formado por uma série de sincretismos.

“O estilo simples, claro, direto do copy-desk dá um estilo homogeneizado – um estilo universal – e essa universalidade oculta os mais diversos conteúdos. De modo ainda mais profundo, quando o diretor de um grande jornal ou produtor de filme dizem “meu público”, eles se referem a uma imagem do homem médio, resultante de cifras de venda, visão em si mesma homogeneizada. Eles imputam gostos e desgostos a esse homem médio ideal; este pode compreender que Van Gogh tenha sido um pintor amaldiçoado, mas não que tenha sido homossexual; pode consumir Cocteau ou Dali, mas não Breton ou Péret. A homogeneização visa a tornar euforicamente assimiláveis e um homem médio ideal os mais diferentes conteúdos.” (p. 36)

O novo público

Num primeiro momento, eram as diferenças de classes sociais e educação que dividiam a massa. Estas barreiras ainda sobrevivem. Mas o nascimento de uma mídia de massa pretende relativizar essas diferenças para atingir o maior número de pessoas ao mesmo tempo, independente do sexo ou idade. Neste contexto se desenvolvem uma imprensa infantil e uma feminina, que são braços dos tradicionais grupos de mídias. Cabe ressaltar que, para Morin, isso não significa que até então a imprensa era masculina, ela era sim, homogeneizada antes de um processo de segmentação.

“Pode-se dizer que a cultura de massa, em seu setor infantil, leva precocemente a criança ao alcance do setor adulto, enquanto em seu setor adulto ela se coloca ao alcance da criança. Esta cultura cria uma criança com características pré-adultos ou um adulto acriançado? A resposta a essa pergunta não é necessariamente alternativa. Horkheimer vai mais longe, longe demais, porém indica uma tendência: “O desenvolvimento deixou de existir. A criança é adulto desde que sabe andar e o adulto fica, em princípio, estacionário.” (p. 39)

As fronteiras se reabrem com a segmentação do conteúdo, e o fim das dicotomias sociais homogeneização o público aos mesmo tempo que o segmentam. Mas ao criar parâmetros para atingir esse homem médio, a cultura de massa o desenvolve e se desenvolve.

O consumo cultural

A cultura de massa esta diretamente ligada ao consumo. Pelo seu poder de persuasão ao individuo, através de instituições sociais, que agem nos meios de massa, que buscam o universal através do mercado.

4 – A arte e a Média

O poder do capital pode manter o Estado afastado da arte, abrindo brechas para a criação artística questionadora. O ponto é que o inevitável crescimento cultural da massa, graças a Indústria Cultural, abre espaço para a arte se desenvolver. É parte da teoria de que a repetição leva a perfeição. Morin notou que os periódicos de baixo nível perdem cada vez mais espaço para os de nível médio em países como EUA, Inglaterra e França.

“A qualidade literária e, sobretudo, a qualidade técnica sobem na cultura industrializada (qualidade redacional dos artigos, qualidade das imagens cinematográficas, qualidade das emissões radiofônicas), mas os canais de irrigação seguem implacavelmente os grandes traçados do sistema. (…) Por exemplo, a qualidade dos westerns provém também de sua quantidade, isto é, de uma longa tradição de produção em série. Ao mesmo tempo, o “gênio” tende a ser integrado na medida em que é curiosidade, novidade, esquisitice, escândalo. Cocteau e Picasso fazem parte da galeria das vedetes com Distel, Margaret Bardot. O “gênio” da a marca da “alta cultura”, análoga à marca da cultura de massa.” (p. 50)

5 – O Grande “Cracking”

A inserção da alta cultura na cultura de massa se da pela reprodutibilidade técnica, que também ajuda a elevar o padrão crítico do homem médio. Assim, duas correntes importantes para a arte ficam à mercê da indústria cultural: a “atualidade” e o “original”. Ao mesmo tempo que ela condena a Alta Cultura por desmerecê-la, se apropria dela para construir seus produtos e conceitos, num processo que envolve a hibridização de culturas e valores.

“Simplificação, maniqueização, atualização, modernização concorrem para aclimatar as obras de “alta cultura” na cultura de massa. Essa aclimatação por retiradas e acréscimos visa a torná-las facilmente consumíveis, deixa mesmo que se introduziram nelas temas específicos da cultura de massa, ausentes da obra original como, por exemplo, o happy end. A capa ilustrada dos livros de bolso é apenas um chamariz de apresentação em que nada modifica a obra reproduzida. A aclimatação cria híbridos culturais.

A inteligentsia humanista vê com bons olhos a democratização, com horror a hibridização.” (p.55)

O prolongamento cultural: o romance burguês

Vale lembrar aqui que no caso da literatura de massa, Gutemberg é o grande revolucionário. Seu mecanismo de reprodutibilidade técnica da bíblia, a prensa móvel, criou no meio do Séc. XV uma verdadeira revolução religiosa.

“No século XVII, o romance é esquartejado entre dois pólos de quimera e do realismo, mas logo esses dois pólos vão operar uma eletrólise de onde sairá o romance moderno. Os temas de amor serão extraídos dos romances de cavalaria (que se enfraquecerá) para serem integrados no romance burguês que deixará de ser cínico e caricatural para ficar realista.” (p.57)

O romance popular

No romance popular o elo de ligação entre obra e leitor é o imaginário, a projeção de um mundo fantástico. Surge então o folhetim como meio para comercialização / divulgação deste romance.

“O folhetim cria um gênero romanesco híbrido, no qual se acham lado a lado gente do povo, lojistas, burgueses ricos, aristocratas e príncipes, onde a órfã é a filha ignorada do príncipe, onde o mistério do nascimento opera estranhas permutas sociológicas, onde a opulência se disfarça de miséria e onde a miséria chega a opulência; a vida quotidiana é transformada pelo mistério, as correntes subterrâneas do sonho irrigam as grandes cidades prosaicas, o rebuliço do desconhecido submerge as noites das capitais, aventureiros desenfreados reinam sobre as sombras da cidade, mendicantes e vagabundos.” (p.59-60)

A Cultura Popular é a fonte da indústria cultural, a cultura burguesa se adequa. Um tanto porque, na cultura de massa, os meios de difusão passam a fazer parte do dia-a-dia do indivíduo.

Os folclores, as culturas e o hic e do nunc

Nesta nova rotina o indivíduo se vê imerso num universo que evoca folclores e costumes antigos, incorporando eles a suas vidas. Mas a mass midia transforma a relação do homem com a cultura, no sentido de torná-lo não parte dela, mas espectador, num movimento de subversão da Cultura Popular. Este é o “cracking analítico”, onde tudo é absorvido pela indústria cultural.

6 – Uma Cultura de Lazer

Num primeiro momento a industrialização criou uma classe de trabalhadores. Estes ficavam na labuta por horas a fio, tanto que pouco havia para se fazer a não ser descansar para o próximo período depois de um anterior de trabalho. Com o tempo, e a regulamentação do trabalho operário, surgiram as horas livres, que pela lógica do capitalismo se convertem em horas de consumo, ou lazer (colocando o consumo como um ato de lazer). Nessa esteira surge o indivíduo com vida privada, que faz escolhas, que é único. O pão e circo existe a muito mais tempo, mas ele não era televisionado, não movimentava repórteres e fanáticos conhecedores de toda uma cultura.

“Os aspectos negativos do divertimento, de evasão, de passividade, impressionam sobretudo os moralistas dessa confederação helvética do espírito que são as letras e a universidade. No entanto, é preciso também indicar que através do lazer moderno toda uma fração da humanidade, de modo obscuro e grosseiro, adere a uma espécie de jogo onde não se sabe quem joga e o que é jogado, encara o problema do destino singular e pessoal, isto é, encara sem o saber, mas concreta e experimentalmente, os problemas colocados no séculos passado por Steiner, Marx e Nietzsche. É o esboço informe de uma busca no sentido de assumir a condição humana.” (p.76)

7 – Os Campos Estéticos

“A relação estética reaplica os mesmos processos psicológicos da obra na magia e na religião, onde o imaginário é percebido como tão real, até mesmo mais real do que o real. Mas, por outro lado, a relação estética destrói o fundamento da crença, porque o imaginário permanece conhecido como imaginário.” (p.77)

A estética é o elemento de identificação da cultura de massa. É através dela que o indivíduo se relaciona com a arte, de massa ou não. As encenações do passado servem apenas como lembrança de um mundo pitoresco, (…)“as danças modernas ressuscitam as danças arcaicas de possessão, mas os espíritos não estão nelas.” (p.79) Neste processo se infla as emoções para gerar identificação. Os heróis (celebridades ou personagens) tem seus hábitos copiados pelas massas, seus produtos são comercializados e seu comportamento, e ideologia, servem como modelo para as pessoas. Além disso, a projeção de si no herói permite que os extremos se juntem, o rico pode se sentir pobre como no personagem de um filme, assim como o contrário também é válido.

“Trata-se também de saber hic et nunc em que medida a cultura de massa procura divertimento e evasão, compensação, expulsão, purificação (catarses), em que medida ela mantém fantasmas obsessionais, em que medida ela fornece modelos de vida dando forma e realce às necessidades que aspiram a se realizar. Isto é, em que medida a estética inválida e informa a vida prática.” (p.85)