A sombra e a luz da alma de um jovem homem – Por Walt Whitman (1848) [tradução]

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Walt Whitman (Imagem George C. Cox) – Domínio Púbico via Wikepédia

Tradução livre | Eder Capobianco Antimidia

 

Publicado originalmente no The Union Magazine of Literature and Art 2, em junho de 1848.

Quando o jovem Archibald Dean foi-se da cidade – (viver fora da qual ele, tão frequentemente, dizia que era não viver) – desbravando o país para assumir uma pequena escola distrital, ele sentia como que se a última tábua de salvação que o apoiava, na esperança e na felicidade, estivesse afundando, e ele com ela. Mas a pobreza é tão severa, se não tão certa, como a morte e os impostos, que Franklin a chamou de a coisa mais segura da era moderna. E a pobreza compeliu Archie Dean; pois quando o destrutivo incêndio de Nova Iorque, em 35, aconteceu, arruinou tanto os donos de propriedades e comerciantes ricos, quanto arruinou os escritórios de seguros, o que certamente arruinou aqueles cuja pequena riqueza havia sido investida em suas ações. Entre as centenas de milhares de outras infelizes pessoas, os velhos, as sem maridos, os órfãos e os inválidos, a viúva Dean perdeu cada dólar com qual dependia para subsistir em sua vida minguante. Não era um negócio muito bom; ainda que tenha cedido, e era supostamente provável que cedesse, uma renda grande o suficiente para sustentar-se e criar seus dois meninos. Mas, quando primeiro choque passou, a mulher de espírito alegre chutou para o lado, tanto o quanto pode, todos os pensamentos lúgubres, determinada a conter as águas da ribombante fortuna. O que a perturbou muito, talvez mais, foi o caminho de seu filho Archibald. “Instável como água”, mesmo a juventude não era desculpa o suficiente para sua falta de energia e determinação; e ela estava calejada de momentos tristes em suas reflexões maternas, que terminavam com o medo de que ele não se sobressaísse. O jovem homem tinha muito daquele tipo de orgulho insignificante que teme sair em público com qualquer coisa menos que trajes da moda, e chapéus e botas adequadas às críticas modernas. Suas bochechas formigavam com vergonha de ser visto como alguém preparado para o trabalho: se seus jovens amigos o encontravam quando ele mostrava sinais de necessidade de emprego, ou ausência de fundos, seu coração afundava em si mesmo. Ademais, Archie olhou para o lado sombrio de sua vida com demasiada frequência; ele consumia-se em suas deficiências, como ele as chamava, pelo que ele se referia aos desejos da mente, bem como, monetários……Mas para fazer justiça juvenil, suas boas qualidades devem ser ditas, também. Ele era incrivelmente honesto; ele teria gastado uma fortuna, se ele possuísse uma, para o conforto de sua mãe; ele não era indisposto ao trabalho, e trabalho fiel, poderia fazê-lo numa esfera igual sua ambição; ele tinha uma alma benevolente e sincera, e nenhum dos vícios sombrios que são tão comuns junto aos jovens camaradas de nossas grandes cidades.

Um bom amigo, em cuja casa mobiliada ela poderia ser útil, forneceu a viúva um aconchegante abrigo; e aí ela também levou o menino mais novo, o filho doente e pálido, o loirinho e pequeno David, que parecia magro o suficiente para ser levado por uma brisa. E acidentalmente aconteceu de escutar de um distrito do interior onde, por um pagamento miserável e alimentação grosseira, um professor de escola era necessário, e concluindo que Archie, embora fosse pouco mais que um menino, tinha educação fina, preencheria as necessidades do ofício, alí o jovem homem estava se condenando, doente da alma, e dificilmente reprimindo lágrimas infelizes quando sua mãe beijou sua bochecha, enquanto ele abraçava seu irmão com força, o próximo passo seria encontrá-lo à algumas milhas em sua jornada. Mas é o que deve ser. Ele não tinha esquadrinhado cada canto da cidade por um emprego como balconista? E ele não estava envergonhando o bastante por ser por mais tempo um fardo para as pessoas que o sustentavam?

No final de sua primeira semana de trabalho, um começo onde, com os sentimentos e circunstâncias dos inícios, não vale a pena narrar, Archie escreveu uma longa carta para sua mãe (por mais estranho que pareça para a maioria dos homens, ela era também sua amiga e confidente), da qual segue esta parte:

“—— Você pode estar cansada desse derramamento de mau humor, mas minha experiência me diz que irei me sentir melhor depois de escrevê-los; e estou nesse humor de quando uma música doce não me conferiria prazer. Contido e sufocado aqui entre um grupo de seres do qual a graça e o refinamento são desconhecidos, sem luz do sol, tenho eu razões para sentir as trevas sobre mim? Ah, pobreza, que diabo tu eres! Quantos desejos de sucesso, quantas aspirações depois da bondade e da verdade você esmagou sob o seu calcanhar de ferro do inferno! Quais corações inchados tu enviaste em silêncio para casa, depois de uma longa temporada de conflito e amargura! Quais talentos, nobres como o dos grandes poetas e filósofos, tu incinerates na obscuridade, ou morto em desespero! * * * Mãe, minha garganta sufoca e meu sangue quase para quando vejo a minha volta tanta pessoas que parecem nascer no mundo apenas para comer e dormir, e executar a mesma monótona e maçante rotina – e penso que eu também devo cair nessa correnteza, e viver e morrer em vão.”

Pobre juventude, quando, como você, tem olhado no homem e na vida a mesma luz descortês! A sábia providência de Deus ordenou coisas erroneamente, então? Há discórdia na máquina que move os sistemas nos mundos, e mantêm eles numa órbita harmoniosa? Oh, não: há discórdia no seu próprio coração; nisso reside a escuridão e a confusão. Para o jovem, com saúde e espírito vigilante, há vergonha na melancolia.  

Aqui nós temos um mundo, mil avenidas para tirar proveito e lucrar com longas distâncias entre nós. Esse é o lugar de uma alma caída? A juventude é o momento de produzir, quando a corrida está só começando?

Mas um espírito mudado, o feliz resultado de um incidente particular, e uma sucessão de diversos pensamentos claros, começaram a influenciar a alma de Archie Dean no curso do verão: pois era no início da primavera que ele iniciara a carreira em seu ofício e sentira suas severas privações. Certamente, também, uma influência refrescante da natureza ao ar livre, e num cenário natural, com o ocasional tempo livre para apreciar, o que causa na mente de um homem reflexões verdadeiras e mais saudáveis, analisa e equilibra suas decisões e esclarece se elas são erradas, então ele pode ver seus erros – uma influência que tira a vantagem de muitas emoções enevoadas, e neutraliza muito de uma perda, que é mais uma perda de imaginação. Se essa ideia é justificada ou não, não havia dúvida de que o espírito jovem do professor descontente foi, eventualmente, emergindo e tornando mais agradável sua vida no interior, pelas suas longas caminhadas pela colina, pelos seus passeios a cavalo todo sábado, suas divagações matutinas e voltas no fim da tarde, pela sua vida rude até, e o ar e a água não contaminados, que pareciam fazer um sangue melhor em suas veias. Gradualmente, também, ele achou alguma coisa para admirar no caráter e costume de camponeses não polidos; seu autêntico sentido na maioria dos assuntos práticos, sua hospitalidade e suas indústrias.

Um dia, aconteceu de Archie ter conhecimento da história de uma personagem peculiar do bairro – uma velha donzela, esquelética, de rosto amarelo, com que ele frequentemente se encontrava, e que parecia ser benevolente com todos; sua forma e rosto recebiam boas vindas, mesmo com sua ausência súbita e enfraquecimento, onde e quando ela aparecesse. Na infância desta solteira de longa data, a grande fazenda de seu pai tinha sido completamente perdida e vendida por ele, para pagar dívidas pelas suas extravagâncias e desperdícios. A consequente ruína da paz da família se seguiu, causando uma impressão profundamente singular na mente da menina, e ele resolveu recuperar toda a fazenda. Essa determinação veio a formar sua vida – a maior parte dela – tanto quando seu corpo e suas veias. Ela era uma criatura perspicaz; ela trabalhou duro; ela recebeu o salário baixo que se dá ao trabalho da mulher; ela persistiu; noite e dia a encontravam ainda em suas tarefas, que eram de todas as descrições imagináveis; muitos – muitos – muitos anos se passaram; a juventude se foi (e diziam que ela tinha sido muito bonita); muitas mudanças de propriedade aconteceram na própria fazenda; ela não confiou sua decisão a nenhum ser humano; ela acumulou seus lucros; todas as outras paixões – até amar, deram lugar nela a uma grande determinação; ela viu sua oportunidade, e, por fim, conquistou seu objetivo! Ela não só arrumou a fazenda, mas ficou feliz em fornecer ao seu velho pai uma casa lá por anos antes de sua morte. E quando se vem a refletir nas desvantagens sob as quais uma mulher trabalha, na disputa pelo lucro, isso irá parecer um caso notável, quase incrível. E então, novamente, quando se pensa com quanta segurança, embora tão lentamente e passo a passo, a perseverança superou dificuldades aparentemente insuperáveis, o fato – para o incidente mencionado é um fato – pode não parecer tão estranho.

Archie sentiu a narrativa dos feitos da velha donzela como uma repreensão – uma lâmina moral afiada para ele mesmo e sua fraqueza de propósito. Além disso, seus costumes, e seu estilo de vida, forçaram ele a ter hábitos de atividades mais completas; ele tinha que ajudar a si mesmo ou seguir sem ajuda; ele encontrou um satisfação original naquele tipo máximo de independência, que consiste e ser habilitado para tirar do seu ofício seu próprio conforto, e alcançar recursos e desenvolvimento “para casa”, da qual a felicidade está fora do alcance de circunstâncias variáveis, ou da entrega ao tribuno, ou até do uso da fortuna. A mudança não foi súbita: algumas grandes mudanças são. Mas seu coração despertou para sua fraqueza; a semente foi semeada; Archie Dean sentia que poderia expandir sua natureza por meio dessa própria natureza. Muitas vezes ele tombou; mas, a cada dificuldade ele recuava e se lembrava da dama de rosto amarelo, e se colocava de pé novamente….Entretanto, mudanças ocorreram na condição de sua mãe. Archie foi chamado para casa chorar no leito de morte do pequeno David. Mesmo isso ajudou a realizar a revolução em todo seu feito; ele sentiu em sua pausa a responsabilidade de tornar os últimos anos da viúva confortáveis. “Deixarei meu cargo de professor,” disse ele para sua mãe, “e virei viver com você, nós vamos ter a mesma casa, pois é o melhor a fazer.” E então ele fez. E a fraqueza de coração do bom jovem nunca mais tomou o melhor dele depois disso, mas no curso das estações, foi colocada em suspensão rapidamente. Pela segunda vez ele garantiu um emprego. Com uma vontade de aço ele substituiu a ação e a alegria pelo desânimo e o mau humor. Ele encontrou sua sorte no caminho, cara a cara, e não se esquivou de nenhum conflito. Na verdade, ele se sentiu glorioso em vencer os obstáculos. Para sua mão ele forneceu uma casa tranquila e abundante; e partir do momento da morte de David, nunca fez de seu mau humor palavras que não fossem de bondade; ou seu lábio, quaisquer que sejam os aborrecimentos ou as decepções, deixaram de oferecer o sorriso mais alegre na presença dela.

Ah, por quanto mais os hábitos sombrios Archie descartava de sua natureza, veio a ser pelo longo uso da indulgência enraizada, e se espalhasse em sua amargura sob sua existência, e turva a paz de suas famílias, e segue pela primavera e início de verão de uma vida sem inspirar o cheiro, e sem o encorajamento, das flores!

Mais informações sobre Walt Whitman | https://pt.wikipedia.org/wiki/Walt_Whitman

Texto Original | http://whitmanarchive.org/published/fiction/shortfiction/per.00342.html