A entrevista perdida com Kurt Cobain – por Jon Savage (1993) [tradução]

Tradução livre | Eder Capobianco Antimidia

Publicada originalmente pela revista britânica Guitar World.

Em julho de 1993 Kurt Cobain concedeu uma entrevista sincera e dramática para o respeitado jornalista britânico de rock Jon Savage. Foram discutidos livrementes temas controversos como Courtney Love, homosexualidade, heroína e a relação de Cobain com seus companheiros de banda.

Por Jon Savage

A entrevista que você está prestes a ler se sucedeu num fim de tarde de uma terça-feira, 22 de julho, de 1993, organizada como parte da campanha de imprensa do Nirvana no Reino Unido para o então lançado In Utero (DGC). Em contraste com seu silêncio quase total na mídia americana, o Nirvana concedeu cinco entrevistas e sessões de fotos para britânicos em sua breve estada em Nova Iorque, culminando com um show no Roseland na noite do dia 23. Esta teria sido uma programação excepcionalmente incomum até mesmo para as bandas mais imperturbáveis. Mas quase nada associado com o Nirvana é normal.

Contudo, a presença afável e direta de Chris (agora Krist) Novoselic e Dave Grohl, e a atmosfera que cercava o Nirvana naquele tempo lembrava fortemente o sentimento que acompanhava os Sex Pistols em 1977. Aqui, também, era uma banda – a maior banda – do momento, que era sobre mais que só música, e se recusando a jogar o jogo. Julgando pela histeria que saudou seu retorno depois de um ano de silêncio, o Nirvana desempenhou o papel de um tipo de raio psíquico: um foco para todos os medos, esperanças, amores e ódio. Poucos sabiam de onde eles vieram, ninguém sabia o que eles fariam.

Grande parte dessa pressão repousava em Kurt Cobain, que – apenas para manter as coisas interessantes – era ao mesmo tempo charmoso, arrogante, vago e imprevisível. Levá-lo a sentar para entrevistas era difícil. Consegui pegar ele nos bastidores depois em um extraordinário show dos Melvins que ambos estávamos. “Tenho que fazer isso agora?”, ele me perguntou. “Sim”, simplesmente respondi, e foi isso. Nós, posteriormente, passamos para o meu quarto no hotel New York Palace, onde depois de relaxado, Cobain foi inteligente, convincente e tão sincero quanto podia, dada a situação.

A entrevista parecia prover para Cobain um oásis de calma no meio da loucura. Eu me animei, e queria acreditar no que ele disse. Meu último sentimento – confirmado pelo show do Roseland na próxima noite – era de que aqui havia uma pessoa, e uma banda, equilibrada entre um poder considerável e positivo e a autodestruição. Aqui está um registro desse momento crucial.

Guitar World: Me fale sobre suas origens.

Kurt Cobain: Nasci em Aberdden, Washington, em 1967, e vivi entre lá e Montesano, que era 20 milhas de distância. Me mudei para cá e para lá entre a casa de parentes durante toda minha infância.

Guitar World: Seus pais se separam quando você era jovem?

Kurt Cobain: Sim, quando tinha sete anos.

Guitar World: Você lembra alguma coisa disso?

Kurt Cobain: Me lembro de ter me sentido envergonhado, por alguns motivos. Tinha vergonha dos meus parentes. Não podia encarar alguns dos meus amigos da escola nunca mais, porque eu desesperadamente queria ter uma clássica, sabe, típica família. Mãe, pai. Queria essa segurança, então eu me ressenti com meus pais por alguns anos por causa disso.

Guitar World: Já se encontrou com eles agora?

Kurt Cobain: Bem, sempre mantive uma relação com minha mãe, porque ela sempre foi mais carinhosa. Mas não falei com meu pai por dez anos até o ano passado, quando ele me procurou nos bastidores de um show que fizemos em Seattle. Estava feliz por ver ele porque eu sempre quis que ele soubesse que não odeio ele mais. Por outro lado, não queria encorajar nossa relação porque não tinha nada para dizer à ele. Não queria ter uma relação só porque ele era meu parente de sangue. Isso me aborreceria.

Então, a última vez que vi ele expressei, e deixei bem claro, que não queria nada com ele. Mas foi um alívio para ambas as partes, sabe? Porque por muitos anos ele sentia que eu realmente o odiava muito.

Guitar World: Você não podia curvar-se.

Kurt Cobain: Foi o que fiz a vida inteira, entretanto. Sempre larguei o trabalho sem falar para o empregador o que eu estava largando; eu simplesmente não aparecia um dia. Era o mesmo na escola – desisti com só dois meses para terminar. Sempre fiz as coisas com o pretexto de encarar meu pai – embora ele preferisse me procurar – foi um bom alívio.

Guitar World: Você já escreveu sobre essas coisas? A letra de Serve the Servants parece autobiográfica.

Kurt Cobain: Sim, é a primeira vez que realmente lidei com essas questões de família. Eu dificilmente escrevo alguma coisa obviamente pessoal.

Guitar World: Como foi para você crescer?

Kurt Cobain: Eu era muito isolado. Eu realmente tive uma infância boa, até o divórcio. Então, de repente, todo meu mundo mudou. Me tornei anti-social. Comecei a entender a realidade do meu entorno, que não tinha muito a oferecer. Aberdeen era uma cidade tão pequena, e de, ou quem era compatível comigo, ou gostava de fazer coisas que eu gostava. Eu gostava de fazer coisas artísticas e escutar música.

Guitar World: O que você escutava, então?

Kurt Cobain: Tudo que eu podia conseguir. Minhas tias me deram um discos dos Beatles, então, na maior parte, era só Beatles, e de vez em quando, se tivesse sorte, conseguia comprar um single.

Guitar World: Você gosta dos Beatles?

Kurt Cobain: Oh, sim. Minha mãe sempre tentou manter um pouco da cultura britânica na nossa família. Nós bebíamos chá o tempo todo! Realmente nunca soube sobre meus ancestrais até esse ano, quando aprendi que o nome Cobain era irlandês. Meus pais nunca se incomodaram em procurar essas coisas. Descobri olhando pelas listas telefônicas dos Estados Unidos pelos nomes que eram similares ao meu. Nunca consegui encontrar nenhum Cobain, então comecei a ligar para os Coburns. Encontrei uma senhora em São Francisco que estava pesquisando nossa história familiar há anos.

Guitar World: Então era Coburns?

Kurt Cobain: Na verdade era Cobain, mas os Coburns ferraram com tudo quando vieram pra cá. Eles vieram para Country Cork, que realmente é uma coincidência estranha porque quando nós fizemos uma turnê pela Irlanda tocamos em Cork, e por um dia inteiro eu andei meio perdido. Nunca me senti tão espiritual em minha vida. Foi o sentimento mais estranho e – tenho um amigo que estava comigo e pode testemunhar isso – estive em lágrimas quase o dia todo. Desde essa turnê, que foi há uns dois anos atrás, tive a sensação de que eu era da Irlanda.

Guitar World: Me conte sobre suas experiências no colegial. As pessoas eram antipáticas com você?

Kurt Cobain: Eu era um bode expiatório, mas não no sentido de que era escolhido para o tempo todo. Eles não me escolhiam, ou me batiam, porque eu já estava afastado naquele momento. Eu era tão anti-social que era quase insano. Me sentia tão diferente, e tão louco, que as pessoas me deixavam sozinho. Não ficaria surpreso se eles votassem em mim como Mais Provável De Matar Todos Em Um Baile Da Escola.

Guitar World: Você pode entender agora como algumas pessoas se tornam tão alienadas que se tornaram violentas?

Kurt Cobain: Sim, definitivamente eu posso ver como uma pessoa pode ter um estado mental deteriorado ao ponto onde fantasia com isso, mas tenho certeza que optaria por me matar primeiro. Mais ainda, eu sempre amei filmes de vingança sobre bailes na escola, coisas como Carrie.

Guitar World: Quando foi a primeira vez que você escutou punk rock?

Kurt Cobain: Provavelmente 1984. Eu tento manter esta história na cronologia certa, e simplesmente não consigo. Minha primeira exposição ao punk rock veio quando o Creem começou a tocar covers do Sex Pistols na sua turnê estadunidense. Eu já tinha lido sobre eles e já imaginava sobre como seria incrível escutar sua música e ser parte disso. Mas eu tinha uns 11 anos e não poderia ter a possibilidade de seguir eles numa turnê. O simples pensamento de ir para Seattle – que era só 200 milhas de distância – era impossível. Meus pais me levaram para Seattle, provavelmente, três vezes na minha vida, que posso me lembrar, e aquelas eram viagens de família.

Depois disso eu sempre estava tentando achar o punk rock, mas claro que eles não tinham isso em nossas lojas de discos em Aberdeen. Os primeiros punk rock que tive condições de comprar foram, provavelmente, Devo e Oingo Boingo, coisas como isso; estas coisas finalmente chegaram em Aberdeen muitos anos depois desse fato.

Então, finalmente, em 1984 um amigo meu chamado Buzz Osborne (vocalista e guitarrista dos Melvins) me fez algumas complicadas fitas com Black Flag e Flipper, tudo, tudo das mais populares bandas de punk rock, e fiquei completamente alucinado. Finalmente achei meu ar fresco. No mesmo dia cortei meu cabelo. Eu babava naquelas fitas – tocava elas todos os dias – e isso era o melhor de tudo. Eu já estava tocando guitarra há dois anos, e estava tentando tocar meu próprio estilo de punk rock, ou o que imaginava que era. Sei que era rápido e tinha um monte de distorção.

O punk expressava o jeito como me sentia social e politicamente. Havia tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Expressou a raiva que eu sentia – a alienação. Isso também me ajudou a abrir os olhos sobre o que eu não gostava em bandas de metal, como Aerosmith e Led Zeppelin, enquanto ainda gostava, e gosto, de algumas melodias que essas bandas fizeram, percebi de repente que não gostava das suas atitudes sexistas – a maneira que eles simplesmente escreviam sobre seus pintos e transas. Essas coisas me aborreceram.

Guitar World: Quando você começa a pensar em sexismo? Foi uma consequência do seu interesse pelo punk?

Kurt Cobain: Não, foi antes disso. Nunca consegui encontrar bons amigos do sexo masculino, então acabei andando com muitas meninas, e eu só via que elas não eram tratadas iguais e não eram tratadas com respeito. Odiava a forma como Aberdeen tratava as mulheres em geral – elas eram apenas totalmente oprimidas. As palavras “cadela” e “vaca” eram totalmente comuns, você escutaria elas toda hora. Mas demorou muitos anos para perceber que aquelas eram as coisas que me irritavam. Só estava começando a entender que isso estava me irritando muito, e no colegial encontrei o punk rock e veio tudo junto. Finalmente entendi que eu não era retardado mental, sabe?

Guitar Player: Você já teve problemas com pessoas pensando que você era gay?

Kurt Cobain: Sim. Até eu pensei que era gay. Entretanto nunca tive uma experiência, eu pensava que poderia ser a solução dos meu problemas. Tinha amigos gays, e esta foi a única vez que tive um experiência real de confronto com as pessoas. Como disse, por muitos anos eles tinham, basicamente, medo de mim, mas quando eu comecei a andar com este cara, o Myer Loftin, que era conhecido por ser gay, começaram a me dar um monte de merde, me bater, coisas assim. Então minha mãe não permitiu que eu fosse mais amigo dele porque ela era homofóbica.

Guitar World: E você parou?

Kurt Cobain: Sim. Isso foi realmente devastador porque eu tinha encontrado um amigo do sexo masculino que eu podia conversar de verdade e ser próximo, e me foi dito que não poderia mais andar com ele. Por essa mesma época coloquei todas as peças do quebra-cabeças no lugar. Ele desempenhou um papel importante nisso.

Guitar World: Suas letras contém uma certa referência gay provocativa, em particular na fala “todo mundo é gay” de All Apologies. É reflexo desse tempo?

Kurt Cobain: Eu não diria que foi reflexo dessa época. Só estou seguindo em frente com minhas crenças agora. Acho que isso é (provocativo) num sentido comercial, por causa de quantos discos vendemos.

Guitar World: É bastante incomum encontrar bandas falando sobre esse tipo de coisa, particularmente no formato que você está usando, que é o rock masculino.

Kurt Cobain: Sim, mas acho que está melhorando, agora que a “música alternativa” está, finalmente, sendo aceita, entretanto esse é um termo triste, como eu concebo. Mas ao menos a consciência está lá, e isso é realmente saudável para as gerações mais jovens.

Guitar World: Você teve algum problema com a indústria, ou os fãs, por causa de suas referências gays?

Kurt Cobain: Nunca. O Pansy Division fez uma versão de “(Smells Like) Teen Spirit” e criou a “Smells Like Queer Spirit”, e nos agradeceu nos créditos. Acho que disseram, “obrigado ao Nirvana por ter a maior postura pró-gay de qualquer banda de rock comercial de sucesso”. Foi uma coisa realmente bonita. É só que não é novidade para nenhum dos meus amigos, porque esta é a música que estamos escutando nos últimos 15 anos.

Suponho que as coisas são diferentes agora. Se eu assistir a MTV, eles tem aqueles segmentos “liberte sua mente” nas notícias, quando eles fazem reportagens sobre questões gays e coisas assim. Praticamente de formas sutis, eles lembram a todos quão sexista foi a onda de heavy metal pela década de 1980 inteira, porque estas coisas estão quase completamente mortas. E estão morrendo rápido. Acho que é realmente engraçado ver um monte dessas bandas, como Poison – nem sempre o Poison, mas Warrant e Skid Row, bandas como estas – agarrando desesperadamente suas antigas identidades, mas agora tentando dar um anglo alternativo nas suas músicas. Isso me dá uma pequena emoção de saber que ajudei, de uma forma menor, a se livrar dessas pessoas – ou talvez, ao menos, a fazer elas pensarem sobre o que elas fizeram nos dez anos que se passaram. Nada mudou, realmente, exceto por bandas como Soul Asylum que estiveram por aí por uns 12 anos, estão eternamente lutando em bares, e agora tem seus belos rostos na MTV. Ainda assim eles tem uma atitude melhor do que os metaleiros. Acho que é saudável. Prefiro isso que coisas antigas.

Guitar World: A faixa que primeiro me veio do Nirvana foi On A Plain. Mas é sobre o que?

Kurt Cobain: Alienação clássica, eu acho. Toda vez que falo dessas músicas tenho que mudar minha história, porque eu estou tão perdido quanto qualquer um. Na maior parte, escrevo músicas com pedaços de poemas juntos. Quando escrevo poesia ela não é pura. Tenho muitos cadernos de anotações, e quando se trata de escrever letras eu apenas roubo meus poemas.

Guitar World: É como as canções do In Utero foram escritas?

Kurt Cobain: Um pouco menos. Existem mais canções neste álbum que são temáticas, que são realmente sobre algo em vez de apenas pedaços de poesia. Como Scentless Apprentice é sobre o livro Perfume, de Patrick Süskind. Não acho que escrevi uma música com base num livro antes.

Guitar World: Você leu muito quando era criança?

Kurt Cobain: Provavelmente eu tinha uns 14 anos. No ginásio. Nunca levei isso muito a sério. Nunca mantive jornais pessoais também. Nunca mantive um diário, e tentava escrever histórias em poesias; sempre foi abstracto.

O plano da minha vida, desde que me lembro, era ser um artista comercial. Minha mãe me deu muito suporte para ser artista – ela realmente elogiava meus desenhos e pinturas. Então eu sempre estava construindo isso. Quando eu estava na nona série e estava tendo três aulas de arte comercial e planejando ir para escola de artes. Meu professor de artes iria entrar com minhas pinturas e coisas em concursos. Mas, em última instância, não estava interessado nisso, realmente; não era o que eu queria fazer. Sabia das minhas limitações. Entretanto, realmente gosto de arte e ainda gosto de pintar.

Sempre senti o mesmo pela escrita também. Sei que não tenho educação suficiente para realmente escrever alguma coisa no nível que eu gostaria de ler.

Guitar World: Quando foi sua primeira visita à Inglaterra?

Kurt Cobain: 1989.

Guitar World: Você se divertiu?

Kurt Cobain: Sim. Especialmente da primeira vez. Nós também fomos pelo resto da Europa, mas lá pela sétima semana eu estava pronto para morrer. Nós estávamos numa turnê com a Tad. Eram onze pessoas numa realmente pequena van Volvo, como todos nossos equipamentos.

Guitar World: Você quis dizer 12, com Tad….

Kurt Cobain: Quinze! Dependendo se o estômago estava vazio ou não. Ele vomitou muito nessa turnê.

Guitar World: Quando você percebeu, pela primeira vez, que as coisas estavam começando a ficar grandes para a banda?

Kurt Cobain: Provavelmente enquanto estávamos em turnê na Europa em 1991. Nós tínhamos terminado o vídeo de Teen Spirit e eles começaram a tocar enquanto estávamos em turnê. Recebia notícias de amigos meus de vez em quando durante a turnê me dizendo que eu era famoso. Então isso não me afetou até provavelmente três semanas depois que éramos famosos nos Estados Unidos.

Guitar World: Houve um momento em que você entrou nisso e percebeu de repente?

Kurt Cobain: Sim. Quando voltei para casa. Um amigo meu fez gravações de todas as notícias sobre nossa banda que apareceram na MTV e nos programas de notícias locais e estas coisas. Foi amedrontador. Isso me assustou.

Guitar World: Por quanto tempo isso te assustou?

Kurt Cobain: Por cerca de um ano e meio – cresceu até os últimos oito meses ou mais. Até minha filha nascer, eu diria. Foi quando finalmente decidi me arrastar para fora do meu refúgio e aceitar isso. Houve momentos em que queria acabar com a banda por causa da intensa pressão, mas, porque gosto da banda, senti que tinha a responsabilidade de não fazê-lo.

Guitar World: Foi por volta de sua turnê Européia de verão em 1992?

Kurt Cobain: Sim. Foi quando a banda começou a realmente me abalar emocionalmente. Muito disso veio com o fato de que estávamos tocando naqueles grandes festivais de dia inteiro. Não existe nada mais chato do que fazer isso. O público é massivo e nenhum deles liga para a banda no palco. Eu estava superando meu vício em drogas, ou tentando combater isso, e era demais. Pelo resto do ano me mantive indo e vindo entre a vontade de sair da banda ou mudar nosso nome. Mas porque eu realmente curtia tocar com Chris e Dave não conseguia nos dividir por causa da pressão do sucesso. E só patético, sabe? Ter que fazer coisas como isso.

É estranho. Não sei se quando nós tocamos ao vivo existe muito de conexão consciente entre Chris, Dave e eu. Não costumo nem perceber eles; estou no meu próprio mundo. Por outro lado, não estou dizendo que não importa se eles estão lá ou não, que eu poderia contratar músicos de estúdio ou alguma coisa assim.

Guitar World: Sei que não seria a mesma coisa. Para mim a banda original é você, Chris e Dave.

Kurt Cobain: Considero essa banda a original também, porque foi a primeira vez que tivémos um baterista competente. E por muitas razões eu precisava ter um bom e sólido baterista. Existem muitas bandas que adoro e tem bateristas terríveis, mas um baterista terrível não daria certo para esse som. Pelo menos não é o certo para as músicas que escrevemos agora.

Guitar World: Você não esteve na estrada por um ano, não desde a turnê do Nevermind.

Kurt Cobain: Estive me recuperando.

Guitar World: Por que as drogas aconteceram? Elas ainda estão por aí?

Kurt Cobain: Tinha usado heroína por cerca de um ano, indo e vindo, tive essa condição estomacal por cinco anos. Houve momentos, especialmente durante a turnê, quando eu simplesmente me senti como um viciado em drogas – mesmo que não fosse – porque eu estava morrendo de fome (uma consequência de sua condição – nota da Guitar World) e não conseguia descobrir o que estava errado comigo. Tentei tudo que podia pensar. Mudei de dieta, comprimidos, tudo…exercício, parei de beber, parei de fumar e nada funcionou. Acabei de decidir que se eu estou me sentindo como um viciado toda porra de manhã, e estou vomitando todo dia, então eu também posso tomar uma substância que mata a dor. Não posso dizer que esta é a principal razão pelo qual faço isso, mas tem muito a ver. Tem muito mais haver com isso do que a maioria pensa.

Guitar World: Você descobriu o que era a coisa no estômago?

Kurt Cobain: Não.

Guitar World: Você ainda sente isso?

Kurt Cobain: De vez em quando. Mas, por alguma razão, simplesmente se foi. Acho que era uma coisa psicossomática. Minha mãe teve isso por alguns anos quando ela tinha vinte e poucos anos, e eventualmente passou. Ela ia pro hospital toda hora por causa disso.

Guitar World: Você está se sentindo um pouco melhor agora?

Kurt Cobain: Sim. Especialmente no último ano, desde que me casei e tive uma filha meu estado mental e físico tem melhorado quase 100%. Estou muito animado para as turnês novamente. Não sentia esse otimismo desde antes dos meus pais se divorciarem.

Guitar World: Você acha que essa é a animação que você começou a banda, e tinha tocando estas grandes música, quando de repente todas essas coisas estranhas começaram a acontecer na mídia?

Kurt Cobain: Oh, sim, isso me afetou a ponto de querer acabar com a banda o tempo todo.

Guitar World: Foi principalmente o artigo da Vanity Fair? (Um ensaio de setembro de 1992 na Vanity Fair insinuou que a esposa de Cobain, Courtney Love, usou heroína durante a gravidez da sua filha Frances – nota da Guitar World.)

Kurt Cobain: Começou aí. Houve provavelmente 50 outros artigos baseados nessa história. Nunca tinha prestado atenção na imprensa mainstream ou mídia antes, por isso não sabia que as pessoas eram atacada e crucificadas nesse nível. Não posso deixar de sentir que fomos um bode expiatório, de certa forma. Tenho muita animosidade com jornalistas e a imprensa em geral. Porque esta acontecendo comigo, é claro, estou provavelmente exagerando, mas não consigo pensar em outro exemplo de uma banda atual que teve mais artigos negativos escritos sobre eles.

Guitar World: Porque você acha que é isso?

Kurt Cobain: Muito disso é simplesmente sexismo. Courtney é minha esposa, e as pessoas podem não aceitar o fato de que estou apaixonado, e que eu posso ser feliz. Porque ela é uma pessoa tão poderosa, e uma pessoa tão ameaçadora, muitos sexistas dentro da indústria só juntaram forças e decidiram nos conter.

Guitar World: Vamos falar sobre o In Utero. Soua claustrofóbico para mim.

Kurt Cobain: Acho que sim, sim. A principal razão pelo qual gravamos o novo álbum, In Utero, com (o produtor) Steve Albini é ele ter a capacidade de tirar um som que parece que a banda está em um quarto não tão grande como o que estamos agora. In Utero não soa como se tivesse sido gravado em uma sala, ou que está tentando soar maior que a vida. É muito na-sua-cara e real.

Tecnicamente, aprendi que a maneira de alcançar isso é usar um monte de microfones. Eu sabia há anos, desde que comecei a gravar, porque os microfones são tão direcionais que se você quer o som ambiente precisa perder um monte de pistas. Ou você precisa usar um microfone omnidirecional, mais longe dos instrumentos, para poder pegar a reverberação das paredes.

Guitar World: Quantos mics vocês usaram no In Utero?

Kurt Cobain: Não tenho ideia, mas muitos. Nós tínhamos uns antigos microfones alemães grandes colados no piso, no teto e nas paredes, por todo o lugar. Tenho tentado com que os produtores façam isso desde que começamos a gravar. Não sei coisa nenhuma sobre gravações, mas isso só parece tão óbvio para mim que é isso que você precisa fazer. Eu tentei fazer com (o produtor do Nervermind) Butch Vig, tentei fazer com (o produtor da Sub Pop) Jack Endinno, e todos eles responderam: “Não é assim que se grava.” Steve Albini provou nessas músicas, embora eu não saiba exatamente como ele fez isso; só sabia que eu tinha que ser assim. Ele tinha que usar um monte de microfones. É simples assim. É por isso que as gravações ao vivo de punk soam tão bem. Você realmente sente o que está acontecendo.

Guitar World: Você re-gravaram alguma destas faixas?

Kurt Cobain: Não. Nós re-mixamos umas duas por causa dos vocais não estarem alto o suficiente. Steve é um bom engenheiro de gravação, mas terrível como mixador, como eu concebo. Para mim, mixar é como fazer palavras cruzadas ou algo assim. É como matemática, ou uma coisa realmente técnica. Isso te suga, você realmente tem que se concentrar nisso. Existem muitas variações nos tons de cada instrumento que podem levar dias para mixar uma música se você realmente quer fazer isso bem. Eu fui só para ser gravado, e depois ele aparece com uma fita, e era assim que deveria sair. Mas para algumas músicas isso simplesmente não funciona.

Guitar World: Realmente gosto das músicas lentas do In Utero.

Kurt Cobain: Ela saíram realmente boas, e técnicas de gravação do Steve Albini realmente serviram bem aquelas músicas; você pode realmente ouvir o ambiente naquelas músicas. Foi perfeito para elas. Mas para All Apologies e Heart Shaped Box nós precisamos de mais. Minha principal reclamação era que os vocais não estavam alto o suficiente. Em todas as mixagens do Albini eu nunca escutava, os vocais sempre estavam baixos. Aquela era a maneira como ele gostava das coisas, e ele é uma personalidade difícil de persuadir. Quero dizer, ele estava tentando mixar cada tom em uma hora, que só não é como a música funciona. Isso era para poucas músicas, mas não todas elas. Você deve estar capacitado para fazer mixagens diferentes e escolher a melhor.

Nunca pensei que iria curtir conversar sobre o lado técnico da gravação. Nunca fez nenhum sentido para mim antes. Mas agora, não acho que seja uma coisa ruim para se falar sobre.

Guitar World: Você parece estar numa posição realmente boa, visto que se o álbum não for bem você fez a gravação que queria fazer.

Kurt Cobain: Absolutamente. Oh cara, é por isso que estou tão excitado sobre este disco. Na verdade quero promover este disco, não por causa da venda, mas por que estou mais orgulhoso dessa gravação do que de qualquer outra que tenha feito. Nós finalmente conseguimos o som que tenho ouvido na minha cabeça eternamente.

Guitar World: Você não conseguiu no Nevermind?

Kurt Cobain: De modo nenhum. É tão lustroso. Não escuto gravações como estas em casa. Não consigo escutar aquelas gravações. Gosto de um monte de músicas. Realmente gosto de tocar algumas delas ao vivo. Em um sentido comercial acho que é realmente um bom disco, tenho que admitir isso, mas é um tipo barato. Mas para meu prazer pessoal de ouvir, sabe, é só muito lustroso.

Guitar World: Como você canta? Porque você usa um número de vozes…

Kurt Cobain: Na maior parte do tempo canto direto do meu estômago. Direto de onde minha dor do estômago esta.

Guitar World: Aquele da onde a dor e a raiva surgem?

Kurt Cobain: É definitivamente lá. Toda vez que tive que fazer uma endoscopia eles acham um registro de irritação no meu estômago. Mas isso é psicossomático, é tudo de raiva. E gritos. Meu corpo está danificado pela música de duas maneiras: não apenas meu estômago inflamado de irritação, mas tenho escoliose. Tinha uma escoliose menor no primário, e desde que toco guitarra, desde então o peso da guitarra fez minhas costas crescerem nessa curvatura. Então quando eu aguento, tudo fica de lado. É estranho.

Guitar World: Você poderia resolver isso.

Kurt Cobain: Vou num quiroprático de vez em quando. Você realmente não consegue corrigir a escoliose por que é um crescimento da espinha. Sua espinha cresce durante seus anos de adolescência em uma curvatura. A maioria das pessoas tem uma pequena curvatura em sua coluna vertebral, embora algumas tenham que usar aparelhos de metal. Isso me dá dor nas costas o tempo todo. Isso realmente aumenta a dor em nossas músicas. Sou meio agradecido por isso.

Guitar World: Você sente agora que existem contradições entre suas ideias e seu enorme sucesso? É uma coisa que preocupa você?

Kurt Cobain: Eu realmente não sei mais. Acho que provavelmente estava me sentindo muito mais contraditório um ano e meio atrás, porque eu estava lutando cegamente e nem sabia o que estava lutando. E, até certo ponto, ainda estou. Como eu disse, realmente não sei como lidar com a mídia. Um ano atrás eu disse que não havia, absolutamente, nenhuma porra de maneira que eu falaria em público novamente, e que seguiria do meu jeito sem nunca mostrar meu rosto novamente. Mas então decidi que não ia deixar um punhado de jornalistas ditar a porra da minha vida.

Eu apenas sou grato que no último ano tenha cruzado com algumas poucas pessoas, que aconteceram de serem jornalistas, que eu confio e gosto de conversar.

Guitar World: Talvez esse seria um bom momento para abordar alguns dos rumores que tem atormentado você. Quando Nevermind explodiu houve relatos de que você era narcoléptico.

Kurt Cobain: Não, não…essa foi só uma história que inventei para explicar porque eu dormia muito. Costumava me pegar dormindo muito antes dos shows. Muitas vezes as áreas dos bastidores estão cheia de cenas grosseiras, não queria falar com ninguém. Então simplesmente caia no sono. Há tantas pessoas que nós conhecemos agora, são tantos amigos e membros da equipe que não posso pedir para saírem. Não quero agir como o Axl Rose e ter meu próprio ônibus ou meu próprio quarto nos bastidores.

Guitar World: Falando de Axl, qual é a história por trás da sua discussão com ele nos bastidores do MTV Music Awards 1992?

Kurt Cobain: Bem, aparentemente Axl estava realmente de mau humor. Alguma coisa o entristeceu, provavelmente minutos antes de nosso encontro com ele. Nós estávamos na tenda de alimentação, eu estava segurando minha filha, Frances, e ele veio pomposo abafado pelos seus cinco guarda-costas e uma pessoa com uma câmera filmadora. Courtney de gozação gritou para ele: “Axl, você vai ser o padrinho da nossa filha?” Todo mundo riu. Nós tínhamos alguns amigos a nossa volta, e ele só parou de se arrastar por seu caminho e começou a gritar suas palavras abusivas para nós. Ele me disse que eu deveria mandar minha cadela se calar, então olhei para Courtney e disse: “Cala a boca, cadela, hehe!” Todo mundo começou a gritar e rir e Axl ficou envergonhado e foi embora. Depois, ouvimos que Duff (McKagen, baixista do Guns and Roses) queria bater no Chris.

Guitar World: Achei que foi muito bom quando o Chris bateu com a guitarra na cabeça no fim de sua performance naquela noite. Vocês estavam tentando ser legais e devastar seus instrumentos, e ele realmente fudeu com tudo – foi realmente bom!

Kurt Cobain: Aquilo aconteceu muitas vezes.

Guitar World: Um final impressionante, e você ainda termina parecendo realmente estúpido, mas muito bom também.

Kurt Cobain: Era tão esperado, sabe? Deveríamos só sair do palco andando, ou deveríamos quebrar nosso equipamento de novo? Passamos por tantas emoções naquele dia, porque até alguns minutos antes de tocarmos não tínhamos certeza se iríamos em frente. Nós queríamos tocar Rape Me, e a MTV não deixaria. Eles nos substituiriam se a gente não tocasse Teen Spirit. Nos comprometemos e acabamos tocando Lithium. Dei uma cuspidinha no piano do Axl quando nós sentamos no palco. Era isso ou socar ele. Estávamos descendo na plataforma que abaixou a gente hidraulicamente, sabe? Eu vi o piano dele lá, eu só aproveitei essa oportunidade e cuspi um grande catarro por todo seu piano. Espero que eles não tenham limpado.

Guitar Player: Diga-me, eu tenho que perguntar, o que aconteceu naquela coisa com a arma. Era tudo besteira? (Em 4 de junho de 1993 a polícia chegou na casa de Cobain depois de ser chamada para acabar com uma briga doméstica. Courtney Love disse a polícia eles haviam discutido sobre armas em casa. – nota da Guitar World)

Kurt Cobain: Oh, sim. Pura besteira. Essa é outra coisa que me fez querer desistir. Nunca esganei minha esposa, mas todas as reportagens, até a Rolling Stones, disseram que eu esganei. Courtney estava usando uma gargantilha. Eu arranquei, e acabou que no relatório da polícia eu esganei ela. Nós não estávamos nem brigando. Nós não estávamos nem discutindo, nós estávamos escutando música muito alto, e os vizinhos reclamaram e chamaram a polícia para gente. Essa foi a primeira vez que eles tiveram uma reclamação, e nós estávamos ocupando a casa fazia um bom tempo.

Guitar World: É assim que esperam que você se comporte, porque você é uma estrela do rock controversa?

Kurt Cobain: A polícia foi muito legal sobre isso, no entanto. Não podia acreditar. Veja, existe essa nova lei, que foi aprovada naquele mês em Seattle, que dizia que quando há uma chamada de violência doméstica eles tem que levar um parceiro ou outro para cadeia. Então, a única argumentação que Courtney e eu tivemos foi quem iria para a cadeia por algumas horas. E eles nos perguntaram do nada: “Tem alguma arma na casa?” Eu disse não, porque não queria que eles soubessem que havia armas na casa. Eu tenho uma M-16 e duas pistolas. Elas estão guardadas, não há balas nelas, estão em cima do armário, então levaram elas. Posso pegá-las de volta agora. Ainda não me incomodei em recuperá-las, mas isso foi só uma situaçãozinha ridícula. Não foi nada. E isso foi colocada fora de proporção. É assim que sinto que as pessoas não acreditam em mim. Como eu sou um mentiroso patológico. Tenho que ficar constantemente me defendendo. As pessoas ainda não evoluíram o suficiente para questionar qualquer coisa impressa. Ainda estou muito mal com isso. Ainda não acredito em um monte de coisa que li.  

Guitar World: Mas você deve se comportar mal às vezes.

Kurt Cobain: Claro. Courtney e eu brigamos. Nós discutimos muito. Mas eu nunca esganei minha esposa. Essa é uma porra de coisa terrível para ser impressa, para ser pensada de você. Sabe, nós não temos nenhum problema, nenhuma queixa ruim, nenhum artigo escrito sobre nós em muito tempo. Nós pensávamos que finalmente acabou – que nossa maldição tinha se esgotado.

Guitar World: Também deve ser porque as pessoas percebem você como uma ameaça.

Kurt Cobain: Acho que a Courtney é uma ameaça maior que eu.

Guitar World: Quais foram as piores tentações geradas pelo seu sucesso?

Kurt Cobain: Nada que eu possa lembrar, exceto o Lollapalooza. Eles nos ofereceram uma garantia de algo como seis milhões de dólares, e isso é muito mais que do que dinheiro…nós vamos dar um tempo mesmo depois dessa turnê porque nós tocamos em teatros, e a produção é muito mais cara neste nível. Mas além disso nunca tive nenhum tipo de oferta legítima como Guns N’ Roses, Metallica ou U2. Elas nunca foram uma realidade para mim.

Guitar World: Então quais são os planos para o In Utero? Quanto de turnê para promover ele?

Kurt Cobain: Nós estaremos em turnê por seis semanas pelos estados, começando em outubro. Então não quero me comprometer com nada até nós vermos como vou me sentir fisicamente depois disso. Talvez nós vamos para Europa. Tenho certeza de que acabaremos na Europa para promover este disco dentro de um ano, mas não estou certo disso. Não quero planejar um ano inteiro de turnê.

Guitar World: Parece haver uma tensão, já que você se definiu como influenciado pelo punk, e parte do ser punk era que não era legal ter sucesso. Você sente esta tensão, e isso tem causado problemas?

Kurt Cobain: Não foi assim que percebi o punk. Pensava que o Sex Pistols queria dominar o mundo, e eu estava enraizado neles. Mas então o punk americano, no meio dos anos 1980, veio totalmente estagnado e elitista. Foi uma grande decepção para mim. Não gostava de nada disso. Mas ao mesmo tempo eu estava pensando há tanto tempo que era para mim difícil entender os termos do sucesso. Mas não ligo para isso agora. Não há nada que eu possa fazer sobre isso. Não vou soltar um disco de merda de propósito. Isso seria ridículo. Mas provavelmente teria feito isso há um ano e meio atrás – eu teria feito diferente para ter certeza de que o novo disco era mais barulhento que o outro. Sei que não vamos ter um milhão de marginais que não gostam da nossa música, que não curtem nossa banda por alguma razão, como uma ferramenta para fuder. Mas nós gravamos da forma que queríamos. Estou feliz por isso.

Guitar World: Me preocupou um pouco que você pudesse cair na armadilha, porque isso não é interessante.

Kurt Cobain: Isso acaba com toda a razão de fazer música. Tenho sido uma validação, além de qualquer coisa. Mas com muito prazer eu voltaria ao ponto de vender Vogue em Seattle, o que atinge cerca de trezentas pessoas. Ficaria feliz de voltar a tocar para vinte pessoas – se eu ainda estiver curtindo isso.

Texto original | http://www.nirvanaclub.com/get.php?section=info/articles&file=10.00.93-gw.html

Anúncios