O fim do mês e a conta na mercearia [conto]

A vida para Eliana parecia ser bastante simples. Ela acordava às 5h, chegava no centro de telemarketing unificado às 8h, saía às 11h para o almoço, que terminava meio dia. Às 17h estava liberada para ir para casa, onde chegava às 19:30. Seu trabalho não exigia muito. Atender o telefone, respostas no caderno ao lado ou na tela do computador. O mais chato eram os relatórios, pouco tempo para fazer e exigiam um número de informações infinitos. Mas ela não levava trabalho para casa, também não precisava estudar, e depois de 12 meses ainda tinha direito a férias remuneradas, além de um salário mínimo por mês. Pagar as contas e fazer tudo isso de novo seis dias por semana. Para algumas pessoas, em tempos de crise, só isso já era o suficiente para agradecer à Deus o resto da vida pela benção recebida. Para Eliana não. Para ela isso tudo não tinha nada de fácil, nem legal, nem vantajoso, nem nada. Principalmente porque a mãe dela estava devendo na mercearia do Seu João, e o dinheiro não era o suficiente para pagar a conta. “Pode levar as compras, mas pede para sua mãe vir conversar comigo amanhã à tarde.”

O tom do “pede para sua mãe vir conversar comigo amanhã à tarde”, somado ao olhar ensandecido nas coxas de Eliana, revelaram cedo para ela como as coisas se resolviam. “O Seu João pediu para você ir amanhã a tarde conversar com ele sobre a conta.” A fala saiu normal para sua mãe enquanto ela guardava os tomates e o alface na geladeira. Não era primeira vez que ela transmitia o recado. Sua mãe suspirou e por um segundo o instante atormentador da complacência fez Eliana tremer. “Tudo bem. Amanhã vou lá falar com ele.” A resposta foi como o fim temporário de um ponto de interrogação gigante. Todo fim de mês sentia a angústia de não saber em qual dia teria que dar o fatídico recado. Por mais que desse quase todo seu dinheiro para as contas da casa, nunca era o suficiente. Desde que começou a desvendar os significados de tons e olhares pensava no que aconteceria o dia que sua mãe respondesse que não ia conversar com o Seu João no outro dia a tarde. “Você já jantou?” Assim, com uma pergunta trivial, a normalidade podia voltar a reinar. “Estava te esperando, é só esquentar o macarrão.” “Vou fazer uma salada.” E tudo estava novamente nos trilhos.

No dia seguinte, quando chegou em casa, sua mãe estava sentada no sofá fumando um cigarro com cara de quem chorou por horas e mais horas a fio. Uma pontada atingiu o fundo do estômago de Eliana e foi ecoando por todo corpo que quase saiu do chão levado pelo arrepio. Num primeiro momento ela não sabia o que falar. O que ela sabia era exatamente do que aquilo se tratava. Era hora de falar sobre como uma mulher sem carteira assinada faz para criar uma filha. “Ele não me quer mais.” “Como assim, do que você está falando?” Eliana sempre soube, mas parecia querer escutar com todas as palavras para que aquilo virasse realidade. “O Seu João. Do que mais eu taria falando? Você não é mais criança há muito tempo.” Não, não era, e mesmo assim parecia não estar preparada para falar sobre como uma mulher sem carteira assinada faz para criar uma filha. “Eu estou com gonorreia. Ele disse que não quer mais uma puta velha doente.”

Essa última informação deixou Eliana completamente fora de órbita. Parada na frente do sofá ela se instalou num estado de negação que se traduzia em um silêncio apático. “Tentei ligar para todo mundo que eu conheço, mas ninguém tem como ajudar a gente agora.” A visão de Eliana estava desfocada, era como se ela estivesse de alguma forma tentando sumir dali, viajar no tempo para depois de tudo aquilo. Num tom resignado e baixo, resgatando o choro de uma tarde inteira, a mãe dela falou: “Ele quer você.” Os arrepios retornaram para o estômago de uma forma tão fulminante e letal que Eliana entrelaçou os braços entre si e se retraiu. Não é que ela não conseguia falar, é que ela não sabia o que falar. Depois de uns segundos de silêncio ela perguntou. “Quanto a gente deve para ele?” “Não sei. Ele é o dono da casa também.” Era como se um grande quebra-cabeça tivesse acabado de se completar na sua mente. As viagens da escola, a formatura, o vestido para o baile e todo dinheiro que sua mãe tinha. Era o Seu João que pagava tudo desde sempre.

Quando desceu do ônibus no outro dia depois do trabalho percebeu que Seu João a olhava com um sorriso sacana na porta da mercearia. Ele fez um sinal com a mão para que ela fosse até ele. Eliana estava notavelmente incomodada. “Sua mãe falou com você?” Ela acenou lentamente que sim com a cabeça olhando para baixo. “Então espera eu fechar, umas nove horas e vem aqui para gente conversar.” Ela só andou para casa sem conseguir olhar para cara dele ou dizer uma palavra. Quando chegou sua mãe estava trancada no quarto. Ela deitou na cama em posição fetal e ficou chorando baixinho esperando dar a hora que ele marcou. Três minutos antes das nove ela levantou e foi para a mercearia. Seu João estava na frente, com porta sanfonada já fechada pela metade. “Entre minha querida.” Eliana tremia. “Não precisa ter medo. Não vou fazer nada que você não queira.” O estômago dela queimava, e ela tremia e não conseguia conter as lágrimas. Seu João foi apalpando sua bunda até o escritório. Ele se jogou no sofá, tirou o cinto, abaixou as calças e tirou o pau duro para fora da cueca. “Vem cá meu amor, mama um pouquinho o papai, vai.” Ela virou a cara para não ter que ver aquilo e viu uma tesoura em cima da mesa. Ela pegou a tesoura e foi para cima dele. Começou a estocar a tesoura no peito dele e a gritar não compulsivamente. Quando se sentiu cansada e completamente desorientada parou de golpear aquela carcaça de carne sem vida.

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