The good times [conto]

A imagem que surge na tela como um estalo mostra um relógio de dar corda marcando sete horas da manhã e despertando estridentemente. No fundo a parede vermelha está descascando. Uma mão bate no pino que interrompi o ruído de bom dia. Começa a tocar uma batida de tempo no fundo. A mesma mão pega um relógio de pulso dentro da gaveta e leva até o pulso da outra. As duas juntas vestem uma calça e um casaco em cortes de um segundo. No outro segundo elas estão no elevador. A batida de tempo para e é substituído por If You Leave Me Now do Chicago.

– Vi que hoje a previsão é de chuva grossa no fim da tarde.

– Por isso que sempre levo um guarda-chuvas sempre. Nessa cidade nunca se sabe.

– Existe até risco de granizo.

– Este tempo que não sabe se vai ou se volta, é foda.

O elevador para. A música também. A porta abre. Volta a batida de tempo no fundo num ritmo mais rápido. O vídeo corta para as mãos abrindo o portão depois do barulho de destrava eletrônica e entram no meio da multidão no movimento de quem caminha com pressa. Num clique as duas estão sustentando o corpo agarradas no apoio do ônibus. Elas fazem um movimento sincronizado de pra frente e para trás conforme a aceleração acelera e diminui. Primeiro elas fazem força para se segurar, e depois relaxam.

– Minha nossa, como isso está apertado.

– Esta hora é sempre assim.

– É o horário de pico.

– Todo mundo precisa chegar no trabalho, é foda.

As mãos pulam de corrimão em corrimão até chegar na porta do ônibus e sair. O som da batida de tempo acelera. De volta ao movimento de quem caminha com pressa no meio da multidão. Corta para uma mão empurrando a catraca de entrada de um acesso restrito. Depois pula para a mão entrando no bolso e tirando um cartão magnético de ponto do bolso, passa o cartão magnético no leito, o botão verde acende e a mão volta para o bolso com o cartão. As batidas de fundo dão lugar para The Times They Are A-Changin’ do Bob Dylan. Alguns acenos para lá e para cá as mão chegam num teclado de computador.

– Não aguento mais esse trabalho.

– Sei lá, ninguém lê essa revista.

– Tô de saco cheio.

– Ainda bem que hoje é sexta-feira, é foda.

Na volta da imagem começa Breathe, do Prodigy, mas no meio da música. No canto inferior da tela um time code gira o tempo rapidamente enquanto as mãos se revezam entre o telefone e o teclado. Quando o time code chega no 12:00 ele pisca alucinadamente e a mão repete o ritual do cartão de ponto com as imagens aparecendo em fotos ao som de uma buzina de navio de desenho. De fundo o som de um jornal passando na televisão e o barulho das pessoas falando. As mãos aparecem segurando um prato e se servindo num buffet de pires numa mesa de madeira. A imagem esmaece em fade out e surfe em fade in com as mãos numa balança e em seguida segurando garfo e faca e comendo.

– Não dá para ser feliz com esse time.

– Falta um camisa 9.

– Tem que mudar o estilo de jogo.

– Toca, toca, toca e não chega a lugar nenhum, é foda.

Ao som do tique taque do tempo que passa na proporção de 120 batidas por minuto, as mãos tiram o cartão da carteira, passam na máquina, colocam o cartão na carteira e saem marchando pela rua. A imagem muda para uma mão cutucando o dedo da outra enquanto os toques passa mais rápido. A velocidade acelera, 150 batidas por minuto, e as mãos digitam num caixa eletrônico e pegam um extrato onde o valor da conta é negativo. As mãos digitam no caixa eletrônico e depois pegam o dinheiro na boca de saída. O tique taque acelera, 180 batidas, e em cortes rápidos a cena do cartão de ponto se repete, mas desta vez quando ele passa no leitor uma luz vermelha acende e o visor indica 10min de atraso. O tique taque para, e a imagem das mãos no teclado do computador se sobrepõe na tela.

– Vai chegar a segunda mais não vai chegar as 18:00.

– Sexta-feira a tarde é sempre assim.

– Este fim de semana minha sogra vai vir do interior e ficar em casa.

– Nossa, é foda.

Quando a mão desliga o estabilizador começa a tocar Chariot of Fire. Com sons de raios as mãos passam o cartão de ponto no leitor que acende a luz verde. Elas saem pela rua calmamente e uma pega a lata de cerveja e outra paga a conta com dinheiro no bar. Uma mão eleva a lata até a boca mas a câmera fica focada na mão vazia. A lata troca de mão, e a que pega amassa ela e joga no lixo. Tudo no ritmo de Chariot of Fire. Conforme a música vai chegando no seu tom mais alto as mãos abrem uma porta que reflete luzes de neon. O estroboscópio giram nas mãos que se apoiam junto com várias outras no balcão.

– A gente tem que saber aproveitar os bons momentos.

– Não se vence sempre.

– Da onde eu venho tem um ditado que diz: um dia você segura a barra, no outro a barra cai em cima de você.

– Verdade, é foda.

Câmera fechada numa caixinha de música. Luz vermelha. Trilha sonora: The Thrill is Gone do B.B. King e uma cama velha rangendo. Imagem vai se abrindo até revelar um quarto de bordel. Uma garota de programa rechonchuda pula desvairadamente em cima de um tripa seca. As mãos estão apertando forte a bunda que sobe e desce. Aquele era o ponto alto da vida para elas.

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