A inevitável mediocridade da vida [conto]

Meu Deus, como cheguei até aqui? Qualquer Deus misericordioso já teria acabado com essa tortura que é a minha vida. O meu não. Ele tem algum tipo de prazer sádico em me ver acordar mais fudido a cada dia que passa. De repente quem me mantém vivo é o Diabo para provar que a raça humana não é digna de ter uma alma. Olhando agora, acho que o sonho nunca existiu. Sempre soube que o John Lennon era só um guitarrista meia boca de uma five band, mas nunca dão ouvido aos gênios. Deveria ter passado mais tempo aprendendo karatê ou boxe tailandês, assim eu poderia lutar de igual para igual contra esse exército de anões que estão martelando minha cabeça.

Levantei da cama direto para o banheiro, impulsionado por uma força interior que projetou pela minha boca todo tipo de merda que restava no meu estômago. O que aconteceu ontem a noite? Cadê a Lu? Preparei um copo de água morna com limão para tomar enquanto fumava um cigarro e tentava responder os questionamentos mais profundos sobre a existência: o que significa esta vida de merda? Não resisti a tentação e tomei um analgésico para suportar o fato de ter de viver na era onde qualquer idiota pode ser presidente. Enquanto terminava o cigarro no corredor entre o muro e a cozinha percebi que as nuvens nunca transmitem paz e tranquilidade. Sempre soube que o céu de Monet era uma metáfora de pseudo-intelectuais sobre nada, mas nunca dão ouvido aos gênios.

Sentei na frente do computador para abrir meus e-mails e fumar um baseado quando o telefone tocou como que se tivesse esperando o pior momento para me importunar. “Você precisa dos textos para daqui três dias, são cinco, é um prazo curto, considera isso.” “Sei que não é o costumeiro, mas falharam comigo, me da essa força.” “Ok, dez reais cada um.” “Cara, não precisa ter 2.000 caracteres, 1.500 tá legal. Esquema SEO simples. Valeu. Te mando as pautas daqui a pouco.” É assim que se prostitui quem só sabe ler e escrever.

Voltei para cozinha determinado a comer alguma coisa. Era uma questão de saber até onde se expandia o problema. Ia ser digerido ou rejeitado? Tinha duas bananas e um pedaço de queijo. Uma vez fiz uma postagens para um blog fitness sobre bons hábitos. Usei como base uma notícia do Estadão de uns anos atrás. Nela uma nutricionista dizia que era bom começar o café-da-manhã com uma fruta. Resolvi acreditar nela hoje. Se a banana não voltar encaro o queijo e elevo a não sei se tem nome nutricionista ao posto de guru natureba. Sempre soube que a super modelo que faz a propaganda de refrigerante não toma ele se quiser manter aquele corpinho, mas nunca dão ouvido aos gênios.

Abri o e-mail fumando o baseado e estava lá o que chamavam de pauta. “Os textos são para um blog de carros” preenchia os tópicos tema, sinópse e abordagem. “O textos tem que ser sobre: pneus, econômia de combustível, câmbio automático, como funciona a câmera de ré e qualquer coisa interessante que você achar. Você faz do jeito que achar melhor” faziam a parte dos campos enredo, produção e fontes. Sempre soube que essa coisa de liberdade de trabalho era papo barato de editor que não sabe o que fazer, mas nunca dão ouvido aos gênios. Também não estou inspirado para pensar tanto por cinquenta míseras pratas. Fica para amanhã.

Coloquei todas as esperanças que me restavam em um mundo sem dor no queijo. Na verdade o problema era fome. Tinha que ser. Não lembro quando foi a última vez que comi arroz e feijão. Nunca me lembro de muita coisa, então isso não é parâmetro. Preciso tirar forças de algum lugar para começar a escrever minha dissertação. Talvez seja hora de lembrar que além de me prostituir no mercado editorial do SEO também preciso tomar no cú, academicamente falando. Mas a prioridade para o momento é comer e me sentir melhor.

O queijo ajudou. Consegui reunir forças o suficiente para tomar um banho. Não era exatamente o que ia salvar minha vida, mas foi o suficiente para me tornar aceitável socialmente. Com um pouco de perfume ficaria até palatável para diversões íntimas com mulheres. Mas a dor de cabeça continuava lá.

Peguei cigarro, uns baseados e fui para casa da Lu para saber se a noite de ontem tinha mudado alguma coisa no nosso acordo de transar de vez em quando e fingir que não tínhamos um relacionamento monogâmico. Como ela me deixou entrar concluí que tudo estava igual a última coisa que eu lembrava. “Você fez almoço?” “Sobrou um pouco de arroz e berinjela no fogão. Pode fritar um ovo se quiser.” “Você não frita pra mim se eu bolar o baseado?” “Você é folgado, hen?!” “Bolar também é trabalho.” “Mas eu não vou comer.” “Você já comeu. Gema mole, por favor.” Sempre soube que na discussão entre Sartre e Camus o primeiro é que era o tosco, mas nunca dão ouvido aos gênios. Depois de comer me sentia quase como o Popeye quando devora uma lata de espinafre.

A Lu colocou Ghost in the Machine do Police e sentamos para fumar. “Como estão as coisas?” “Fiz alguma coisa que não devia ontem a noite?” Ela ficou me olhando com a cara de decepção de quem está falando sério. “No geral atrasadas, mas tudo ainda pode ser feito dentro dos prazos, então bem. E você? Como estão as coisas?” “Eu também tenho uma coisa atrasada, e acho que vou perder vários prazos.” “O que tá te apertando?” “Estou grávida, de dois meses.” Fui para casa escrever posts para blogs cretinos e começar a dissertação.

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