Introdução – Bird in the Bush: Obvious Essays – Kenneth Rexroth (1959) [tradução]

Kenneth bird in the bush

Kenneth Rexroth (1905-1982) foi um crítico, poeta e tradutor estadunidense da Geração Beat.

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

Escritores e artistas praticantes notoriamente tem tido muito pouco uso para os críticos. Eu sou um artista e escritor praticante. Muito tempo atrás, Edmund Wilson teria dito que o crítico é um revisor de livros que escreve para revistas que pagam pouco ou nada.

Estes textos não são críticas, mas jornalismo. Espero que encontrem um lugar modesto no que os críticos chamam de “tradição” – a tradição de Huneker, Mencken, Wilson. Nenhum deles apareceu alguma vez em uma Quarterly*. Todos foram nomeados com antecedência, escreveram no tamanho requisitado e por um valor acordado. Caso contrário, eu nunca teria escrito para eles. Poetas são muito mal aconselhados a escrever prosa de qualquer coisa por dinheiro. A única exceção possível é por raiva, ou troca de favores, de um amigo.

* A Quarterly Review of Literature foi uma influente revista de literatura estadunidense que circulou entre 1943 e 1999. (https://en.wikipedia.org/wiki/Quarterly_Review_of_Literature)

Curiosamente, essa é a única relação que permite ao escritor alguma liberdade. Contanto que você evite difamação ou deturpação de um fato conhecido, o melhor tipo de jornal e revistas finas permitem que você escreva praticamente o que quiser. Ele estão interessados em coisas animadas, cópia envolvente, e dentro dos limites da razão, quanto mais controvérsia melhor. A Quarterlies and Critical Reviews, por outro lado, tem uma linha partidária de rigidez inacreditável. É uma mistura sutil de falência, bolchevismo sectário, a Ku Klux Klan, o provincialismo dos metrôs holandeses e a propaganda mais descarada do Departamento de Estado. Além disso, eles não permitem o menor desvio em relação aos cânones saboreados nos coquetéis do ano anterior.

Gosto é uma coisa individual. Se não é vasto e errático, capcioso e imprevisível, não é gosto, mas esnobismo. Basta tentar dizer: Mark Twain é melhor escritor que Henry James. O 10th Street Club é uma apoteose da fórmula acadêmica pintada. Kierkegaard é maçante e bobo. Nenhum adulto pode levar Dostoevsky a sério. Pissaro era um pintor melhor que Van Gogh e Tiepolo que El Greco, que é outro artista para adolescentes. Finnegans Wake é um embaraçoso fracasso. Você não pode se associar continuamente com mentes imaturas e escrever poesia – mesmo se for chamado de Poesia Criativa 1976520A e você for receber $18.000 por ano por isso….apenas diga algo assim e veja aonde você chega com Phil Rahv.

Esses ensaios são todos trabalhos, exceto um do Buber que eu escrevi para organizar minha própria relação com um pensamento que tinha uma grande influência em mim. Poderia ter escolhido outros assuntos se eu tivesse apenas feito crítica por diversão. Eu prefiro Tiepolo, Redon, Pissaro – ou Ernest Briggs – até Léger. Penso que Lawrence é um grande poeta de fato, mas um homem bastante nojento, com medo de gatos selvagens, índios vermelhos e crianças, que deliberadamente escreviam romances eróticos e se levantavam e saiam da sala com raiva quando alguém contava uma piada suja. Há muita porcaria em Lawrence, Miller ou Patchen – mas os inimigos deles são meus inimigos.

Todo mundo tem uma monte de falsidades maquiadas. Quando isso é pessoal, está tudo bem. Um homem pode ser perdoado por ser um sujinho, um vegetariano ou um frequentador de astrologistas. Ele não pode ser perdoado por ser um pastor, ou um agente social ou um professor. Nenhum jumbo com a Mentira Social. Porque não? Não porque isso faz de você um parceiro do assassinato em massa, o que faz, mas porque isso reduz toda ação à futilidade.

Uma vez que a autoridade moral é delegada, toda ação fica sem sentido. A institucionalização da criatividade, que prevalece hoje em dia, é repleta de relutância, teimosia secreta, tédio vitae, por mais espalhafatosas que sejam as recompensas, ou até mesmo os nobres fins. A engenharia relutante pode construir Dnieprestroy*, intelectuais relutantes podem implementar a arrogância letal do Sr. Dulles** em Taiwan, Espanha ou Santo Domingo. Você não pode escrever um poema relutante ou pintar um quadro relutante. Aqueles que pretendem ser, diante disso, imbecis institucionalizados.

* Hidrelétrica gigante construída pela União Soviética, no que hoje é a Ucrânia, famosa por ser uma das maiores construções de seu tempo. (https://en.wikipedia.org/wiki/Dnieper_Hydroelectric_Station)

** Secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1953 e 1959, na administração do presidente republicano Dwight D. Eisenhower. Ficou famoso pela sua postura arrogante e sua política arcaica frente ao comunismo. (https://en.wikipedia.org/wiki/John_Foster_Dulles)

A maior parte do que é escrito, pintado e composto no mundo hoje, em ambos os lados da Guerra Fria, é feito por pessoas cuja carreira está marcada por futilidades arrepiantes. Primeiro era o cubismo, o futurismo, o surrealismo. A escola dominante hoje é o Movimento da Lobotomia Pré-Frontal. Isso produz telas cuidadosamente pintadas para representar espaços vazios, colunas de tipo recostada nas duas margens e escritas por Professores de Poesia Criativa, que estão realmente camufladas elaboradamente no papel. Isso também produz bombas de hidrogênio. Contra os exércitos dos insensatos, tomarei os poucos aliados que eu possa encontrar, quaisquer que sejam suas falhas.

Entretanto, eu não tomarei como possíveis aliados aqueles que a Avenida Madison tem cuidadosamente manufaturado e estão tentando agora empurrar pra mim. Se a única revolta significativa contra o que os franceses chamam de alucinação publicitária é a heroína e o Zen Budismo, ninguém jamais será capaz de escapar dessa corrente miserável que um filme Russo chama de “O Colapso da Civilização Capitalista”, para qual de alguma forma todos nós parecemos vagar.

A geração Beat pode ter sido a essência do ser humano – hoje eles são simples melecas cômicas conjuradas pelas publicações Luce. Seus principais porta vozes são o “Motor Charley” Wilson* e o Dr. Oppenheimer** usando uma barba grande e meias sujas. Por essa razão omiti dessa coleção todos os artigos que discutiam a revolta ou o suicídio emocional de jovens escritores americanos, publicados nos dias em que a Avenida Madison e a linha de frente da Quarterlies insistiam que tudo era conformismo, paz e cátedras.

* Secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1953 e 1957, na administração do presidente republicano Dwight D. Eisenhower. Era também conhecido como “Motor Charlie” por ter sido presidente da General Motors. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Erwin_Wilson)

** Físico estadunidense responsável pelo Projeto Manhattan, que culminou com a construção da bomba atômica. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Oppenheimer)

O sucesso, infelizmente, como quase sempre faz, levou ao pior tipo de suicídio emocional. Aqueles para qual este tipo de sucesso foi uma tentação se tornaram macacos treinados, os palhaços macabros do Inimigo. Eles vieram a nós tarde, das favelas do Greenwich Village, e partiram cedo, para os salões dos milionários.

A vida conosco continua a mesma. Nascido e criado no que eles costumavam chamar de “O Movimento Radical”, eu sempre olho para trás com um divertido orgulho daqueles veteranos que não fumavam ou bebiam, e viviam uma longa e atribulada vida absolutamente devotados a um cônjuge não casado – para se manterem em forma e prontos para as barricadas. O Mundo, A Carne e O Diabo são personagens muito mais sutis do que aqueles inocentes mecânicos judeus e camponeses italianos pensavam, mas eles ainda andam a noite como leões rugindo procurando quem devorar. Cabe ao artista reconhecê-los e evitá-los, especialmente quando acenam bandeiras vermelhas ou negras, bem como rugidos. Porque arte é uma arma. Depois de milhões de golpes bem direcionados, um dia talvez quebre o coração de pedra das desmioladas amebas chamadas “As coisas são como são”. Todo o resto falhou.

KENNETH REXROTH

1959

Introdução a primeira coleção de ensaios de Kenneth Rexroth, Bird in the Bush (New Directions, 1959).

Mais informações sobre Kenneth Rexroth | https://pt.wikipedia.org/wiki/Kenneth_Rexroth

Texto Original | http://www.bopsecrets.org/rexroth/essays/essays.htm

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