Depois do sonho [conto]

Eram trinta e sete minutos do segundo tempo e o time da casa perdia por 2×0. Os visitantes se defendiam bem e levavam perigo nos contra-ataques. Pareciam ter tudo sob controle. Josias estava afoito no banco para fazer sua estréia. O técnico fez um sinal para que ele se  levantasse. “Você percebeu como eles estão marcando em linha? Eu vou tirar um volante e colocar você para infernizar eles. Quero movimentação e toque de bola. Vai lá e faz como treinamos.” Josias entrou tímido, apontando aos companheiros onde ia se posicionar. A bola saiu de sua área e veio sendo tocada até o meio campo. Então o meia lançou o lateral da esquerda e Josias acompanhou a jogada pelo meio. O lateral cruzou da linha de fundo e lá estava ele para completar de cabeça e fazer seu primeiro gol logo no primeiro toque na bola de sua estreia. Por dentro ele quase explodia, mas o time ainda estava perdendo faltando pouco mais de cinco minutos para terminar o jogo. Não havia muito a comemorar. Soltaram a bola e o volante apertou a saída e a bola sobrou para o ala, que viu Josias se projetando na área e lançou. Ele cortou o zagueiro, tirou o goleiro e colocou para dentro empatando o jogo.

Agora o estádio inteiro gritava seu nome. Duas jogadas e dois gols. A partida estava nos últimos minutos e se fizesse mais um Josias viraria a partida num hat-trick histórico. Os donos da casa pressionavam motivados pelo novo ritmo que Josias imprimiu. O zagueirão deu um balão para área do meio campo e no bate rebate a bola sobrou para o novo atacante goleador que só empurrou para dentro. Virada consumada e fim de jogo. O estádio explodiu em felicidade. Josias era saudado como o novo herói. “Impressionante”, “nasce um fenômeno”, eram algumas das manchetes que ilustravam os jornais. Apesar disso o treinador não estava convencido de que Josias devia ser titular, e ele começou o próximo jogo na reserva. A primeira etapa foi melancólica e terminou 0x0 com a torcida clamando por Josias. Pouco depois dos 75min ele entrou, para delírio da massa, e foi batata, primeiro toque na bola e um canhão de fora da área tirou o 0 do placar. Josias foi pra galera e não parou por aí. Aos 82min ele escorou um cruzamento na segunda trave e marcou o segundo. Cinco minutos depois, sem forçar muito, fechou a conta de mais um triplete recebendo um passe primoroso e finalizando de primeira um contra-ataque.

A esta altura Josias já era uma unanimidade entre torcedores e a crítica. Até alguns de seus companheiros faziam parte do coro dos que pediam ele desde o começo. Mas o treinador era do tipo durão, que parece que nunca dá ouvidos para nada. Dizia apenas que a hora dele ia chegar. E não tinha chegado até aquele momento, em que ele mais uma vez, agora sob protesto da torcida e da crítica, começava junto com aqueles que aguardavam ansiosamente sua chance. No final da primeira etapa saiu o gol deles, e na saída para os vestiários todos clamavam por Josias. O time voltou sem alterações, e logo no começo do segundo tempo veio também o segundo golpe. 2×0. Foi a gota d’água. Josias levantou do banco e escutou do técnico: “Vai lá e faz seu truque.”

O jogo estava truncado, e a pelota não chegava nos pés certeiros do matador. Quando chegou, já perto dos 80min, Josias não perdoou. Numa bola espirrada pela defesa ele arrancou do meio campo, passou pela linha de zagueiros como um raio e com um leve toque tirou por cima do goleiro que veio como um boi brabo rolando pelo chão. Sem comemorar ele buscou a bola do fundo das redes, colocou no meio campo e se posicionou para o jogo recomeçar. Os caras estavam preparados, não se abatiam. Todo lançamento ou toque na direção de Josias era interceptado. Haviam sempre dois ou três marcadores a sua volta. Mas o lateral escapou pela esquerda depois de fazer um dois com o meia e viu Josias se projetando no primeiro poste. O cruzamento veio rasteiro e na dividida com o zagueiro deu Josias e seu toque mágico, que empatou o jogo já quase aos 90min. Ao apagar das luzes o volante deles fez uma falta boba no meio campo para parar a jogada. Josias só tinha feito dois gols e era o último lance da partida. A torcida gritava seu nome como uma ordem para lançarem um chuveirinho em sua direção. Todos do time adversário o cercavam. Para não se comprometer o lateral bateu a falta com um balão para área. Os zagueiros correram para trombar com Josias que subiu imprensado por quatro deles. A bola resvalou em sua cabeça e entrou. Todos foram a loucura. Josias correu para torcida que pulava e gritava em êxtase. O treinador e toda comissão técnica corriam como baratas tontas. Mais uma vez Josias entrava e em menos de dez minutos, fazia três gols e resolvia o jogo.

A enxurrada de elogio e louvações que veio em seguida diziam que nem Pelé tinha tido um início tão estrondoso. Assim, atendendo a voz do povo, Josias foi escalado como titular para o próximo certame. “Será que Josias fará 20 gols?” estampava a manchete de uma jornal esportivo. A linha fina exaltava a chance que ele teria de marcar mais de três gols numa partida. Logo no começo do jogo veio o susto: Josias chutou uma bola para fora pela primeira vez. O estádio silenciou. Foram mais duas tentativas frustradas no primeiro tempo. A segunda etapa seguia dura, com Josias perdendo chances. Aos 82min veio o castigo: gol deles. O da vitória. Depois de mais dois jogos sem marcar Josias voltou para o banco de reservas, além de ter sido substituído em todos. Entrou nos três jogos subsequentes, mas nada de balançar as redes. Ainda surgiram mais algumas oportunidades ao longo do campeonato, mas em nenhuma delas a bola entrou. No final da temporada foi emprestado a um time menor, para adquirir experiência. Não emplacou. Foi dispensado na volta, perambulou por aqui e por ali e dois anos depois conseguiu um emprego de porteiro.

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