Fatos Cotidianos 15 – Zé Ninguém [conto]

[cena do crime]

– Dois tiros no peito e um na cabeça. Não foi de longe. Espirrou sangue para todo lado.

– Foi a queima roupa. Dois no peito para cair e um no meio da testa para ter certeza. Foi execução.

– A execução de um viciado. Tem cachimbo usado para todo lado aqui. Talvez um acerto de contas.

– Alguma testemunha?

– Nem a gente estaria aqui se não estivesse fedendo. Foi um guarda fazendo ronda que sentiu o cheiro, remexeu aqui e achou o corpo.

– Quem é o vapor dessa área?

– O Néquinho. Vamos atrás dele.

[beco do centro]

– O cara era um nóia. Vivia perambulando por aí enchendo o saco dos outros. Tinha mais gente querendo matar ele do que gente querendo salvar o mundo.

– Qual era o nome dele e a quanto tempo ele estava nessa merda?

– Quem chamava ele de alguma coisa que não fosse nóia chamava de Cheiroso. Tava se matando aqui a mais de ano. Não tenho ideia de onde ele veio.

– E quanto ele te devia? Que servicinhos ele fazia para te pagar?

– Eu tenho cara de BNDS, meu chapa? Acha que eu dou crédito para qualquer nóia? Para mim ele não devia nada. Nem sabia que tinham deletado ele.

– Você tem cara de vagabundo, e não me confunda com os seus “chapas”. Precisamos de mais do que isso para você não precisar de um advogado.

– Calma aí. Sei lá, o cara vivia de pedir, roubar e pedra. Morava na rua. Fedia. As Tias tinham medo. Não ia ser a primeira vez que os donos das lojas se unem para resolver um problema. Quer saber, é mais fácil ter sido um de vocês do que um dos nossos.

– Fica esperto que qualquer hora dessas o problema pode ser você.

[bar do centro]

– O que temos da cena do crime?

– Se mandarmos as balas para a balística podemos ter um resultado daqui uns dois meses dizendo que era um três oitão sem registro. O ferimento de entrada diz com letras luminosas: 38 sem origem, registro ou estrias. As únicas provas de que ele existe estão cravadas no corpo. A bala no meio da testa grita: execução. Quer voltar lá e procurar cabelos nas roupas dele ou verificar as gotas gravitacionais? Vamos colher DNA de debaixo das unhas também?

– Podemos enviar para Abby junto com o molde da sola de sapato na poça de sangue do lado dele. E as digitais?

– A gente processa no super laboratório da Abby. Ou talvez seja melhor mandar pro Grissom. A Srta. Sutton está sobrecarregada com DNA, cabelo, sangue, foto e tudo mais.

– E a autópsia?

– É onde ele vai ficar antes de ser enterrado como indigente. São uns 20 dias, certo?

– Putz, que merda. Porque no meu turno? Na sexta. Eu não vou fazer a papelada disso.

– Tudo bem, mas o próximo é seu.

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