Apocalípticos e integrados – Umberto Eco [fichamento]

ECO, Umberto. Cultura de massa e “níveis” de cultura. In ___________. Apocalípticos e integrados. 6ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. p.33-67

Sobre o autor e a obra

Umberto Eco (1932-2016) é um filósofo e escritor italiano. Ministrou aulas de Semiótica, e foi diretor, da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, além de já ter passado por Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto. Também escreve romances, como O nome da rosa. O texto em questão foi publicado em 1967, e faz uma análise dos fenômenos dos mass midia a partir da dicotomia de apocalípticos (teóricos, e apoiadores, da Escola de Frankfurt) e integrados (aqueles que se inseriram na Indústria Cultural). Num texto bastante didático, Eco enumera questões de pró e contra a indústria e conclui que os estudos e análises do seu tempo estão numa direção equivocada.

Cultura de massa e “níveis” de cultura

A Indústria Cultural, como já havia dito Adorno, é consequência, além de outras coisas, de uma crise anterior na arte, a crise iluminista, que não conseguiu cumprir o que prometia, que a arte seria capaz de mudar o mundo. Isso não significa o contrário, e num argumento direcionado a Benjamin, Eco lembra que da naturalização da escrita, uma revolução de reprodutibilidade técnica de seu tempo, surge a literatura. Em suma, a Indústria Cultural é uma consequência inevitável do surgimento de uma sociedade indústrial. A crítica feroz ao novo sistema das artes é uma reação nostálgica ao novo, e ao acesso aberto (ou banalizado) a arte, além de seu uso como instrumento de controle de massas.

A cultura de massa no banco dos réus

“Na verdade, a primeira tomada de posição sobre o problema foi a de Nietzsche, com a sua individualização da “enfermidade histórica” e de uma de suas formas mais aparatosas, o jornalismo. Ou melhor, no filósofo alemão já existia em germe a tentação presente a toda polêmica do gênero: a desconfiança ante o igualitarismo, a ascensão democrática das multidões, o discurso feito pelos fracos, para os fracos, o universo construído não segundo as medidas do super-homem, mas do homem comum. (…) porque, no fundo, há sempre a nostalgia de uma época em que os valores da cultura eram um apanágio de classe e não estavam postos, indiscriminadamente, à disposição de todos.” (p.36)

A leitura de Macdonald feita por Eco mostra que a cultura de massa se apropria da cultura local para modificá-la; já a midcult busca reproduzir a alta cultura para se aproximar da nobreza. A crítica exacerbada sobre a cultura de massa revela-se uma crítica a massa, ao acesso dela a algo que não lhe pertencia: a cultura. Neste sentido a cultura de massa anula a midcult e a highcult. Seu papel é de moldar o público para absorver os outros níveis de cultura. Na cultura de massa o chamado leitor formado não pode ser representado pelo “fidalgo renascentista”, ele é o “vendedor de tâmaras”.

A crítica de alguns frankfurtianos é apenas rancor de uma derrota política, e cultura e política se misturam. Uma mudança cultural só é possível a partir de uma mudança política.

Cahier de doléances

Neste ponto Eco faz uma lista, com 15 tópicos, que busca enumerar argumentos que são usados para crítica da mass midia. A descrição dos argumentos é curta e objetiva, e pode ser resumida assim: a massificação do igual torna a arte homogênea e previsível; a Indústria Cultural age como um rolo compressor na Cultura Local; relativiza os conceitos de arte e cultura; nivela por baixo o conhecimento; subverte a finalidade da arte; serve ao controle e manipulação; mantêm o público acéfalo e o trata como rebanho.

Defesa da cultura de massa

“Cumpre, dizer, antes de mais nada, que, dentre os que demonstram a validade da cultura de massa, muitos são os que desenvolvem um discurso simplista, de dentro do sistema, sem nenhuma perspectiva crítica e não raro ligados aos interesses dos produtores. (…) Em outros casos, temos, ao contrário, estudiosos dos costumes, sociólogos e críticos, aos quais não devemos, certamente, imputar um otimismo que lhes permita ver mais longe que seus adversários “apocalíptico”. (p.43)

Aqui podemos ver a ideia de Morin de que para se criticar a indústria cultural é preciso estar dentro dela.

A lista de argumentos em defesa da cultura de massa contém menos tópicos, nove, mas estes são mais desenvolvidos: a Indústria Cultural só existe porque existe uma sociedade industrial; a cultura de massa também floresce no comunismo; o público da cultura de massa não tem, nem nunca teve, interesse ou acesso à alta cultura; quem tinha (tem) acesso a alta cultura não tinha (tem) capacidade de absorvê-la, assim como o camponês; a arte como entretenimento não é uma invenção do mass midia; existe, por parte dos frankfurtianos, um excesso no conceito de arte no que toca o tempo; a indústria cultural elimina barreiras sociais; a cultura de massa não é necessariamente conservadora.

Uma problemática mal formulada

“O erro dos apologistas é afirmar que a multiplicação dos produtos da indústria seja boa em si, segundo um ideal homeostase do livre mercado, e não deva submeter-se a uma crítica e novas orientações.

O erro dos apocalípticos-aristocráticos é pensar que a cultura de massa seja radicalmente má, justamente por ser um fato industrial, e que hoje se possa ministrar uma cultura subtraída ao condicionamento industrial.” (p.49)

O livre comércio \ troca de bens culturais, é fomentada pela indústria, onde o interesse é o lucro, não cultura. Por isso a cultura de massa universal é imposta verticalmente à cultura local, na busca de uma singularidade que possa atingir o maior número de pessoas possível. A existência da indústria cultural é inevitável, e gera um novo questionamento: como fazer ela trabalhar em prol de valores culturais legítimos?

“O problema da cultura de massa é exatamente o seguinte: ela é hoje manobrada por “grupos econômicos” que miram fins lucrativos, e realizada por “executores especializados” em fornecer ao cliente o que julgam mais vendável, sem que se verifique uma intervenção maciça dos homens de cultura na produção. A atitude dos homens de cultura é exatamente a do protesto e da reserva. E não venham dizer que a intervenção de um homem de cultura na produção da cultura de massa se resolveria num gesto tão nobre quanto infeliz, logo sufocado pelas leis inexoráveis do mercado. Dizer: “o sistema em que nos movemos representa um exemplo de Ordem de tal forma perfeito e persuasivo, que todo ato isolado, praticado no sentido de modificar fenômenos isolados, redunda em puro testemunho” (e sugerir: “portanto, melhor o silêncio, a rebelião passiva”) – é posição aceitável no plano místico, mas singular quando sustentada, como ocorre de hábito, com base em categorias pseudomarxistas.” (p.50-51)

A Indústria Cultural desencadeia um processo de conhecimento que ela não pode controlar ou deter. A relação paternalista dela com o público tende a se reverter em algum momento, assim como a do pai com um filho. Eco diz que é possível mudar o sistema a partir de pequenas atitudes individuais, que somadas provocam profundas alterações de demanda de produtos culturais, que terão que serão melhorados para manter as vendas \ lucros.

Crítica dos três níveis

Para se formular uma ideia de “cultura democrática” Eco revê o conceito dos três níveis de cultura: high, middle e low. Primeiro, a Alta Cultura não é, necessariamente a cultura da classe dominante, que também é consumidora dos outros níveis. Depois, a complexidade da arte não está ligada a sua classificação. Não é também a qualidade estética que valoriza o produto como high, middle ou low.

“A transmigração de estilemas de um nível superior para o inferior não significa, necessariamente, que os citados estilemas tenham encontrado foros de cidadania no nível inferior só porque se “consumiram” ou se “compromissaram”. Em certos casos, é o que realmente acontece, em outros, assistimos a uma evolução do gosto coletivo que obteve e desfruta, a nível mais amplo descobertas já antecipadas por via puramente experimental, a nível mais restrito.” (p.56)

Uma possível conclusão, mais algumas propostas de pesquisa

A Indústria Cultural teorizou a cultura, sendo essa mais explorada em todos os seus níveis. Houve a valorização, e desenvolvimento, do elemento estético. É ela quem dá legitimidade às vanguardas, ao mesmo tempo que “copia e cola” elas nos seus sistemas universais. Na democracia da Indústria Cultural o sujeito pode transitar pelos três níveis. “Portanto, só aceitando a visão de vários níveis como complementares e todos eles fruíveis pela mesma comunidade de fruidores, é que se pode abrir caminho para uma melhoria cultural dos mass midia (…)” (p.59)

Eco percebe que existe uma questão política que afeta o deslocamento do indivíduo pelos três níveis. Existem garantias ao apreciador do high de consumir o mid e o low em iguais condições, mas o apreciador do mid e do low não tem as mesmas possibilidades. Um ponto social que também é destacado é se a educação garante ao sujeito o conhecimento necessário para um fruidor de Alta Cultura.

Por fim, Eco propõe uma série de temas para pesquisas que poderiam mapear o estado da questão e propor soluções para os problemas. Primeira os estudos devem verificar a evolução dos meios, depois a influência que exercem na sociedade e a criação de novos paradigmas. A interação dos níveis de cultura e a incorporação das técnicas high em produtos mid e low também devem ser verificadas. Por fim, “uma análise crítico-sociológica” de como a Cultura de Massa é usada para a criação \ legitimação de valores morais, favorecendo um totalitarismo.

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