Os donos da voz – Marcia Tosta Dias [resenha]

Capa "Os donos da voz"

Capa “Os donos da voz”

Quem é Marcia Tosta Dias?

Atualmente Marcia Tosta Dias é Professor Adjunto III no Departamento de Ciências Sociais da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus Guarulhos. Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (1997), doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2005) e Pós-Doutorado, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, junto ao King’s College London – Inglaterra (2015-2016). É pesquisadora do Grupo de Pesquisa História e Música (UNESP) e do Pimentalab – Laboratório de Pesquisa Social, Tecnologia, Conhecimento e Comunicação e do Grupo de Pesquisa História e Música.

Fonte | Lattes

Sobre a obra

Os donos da voz é o resultado da pesquisa apresentada pela autora na sua dissertação de mestrado (Sobre mundialização da indústria fonográfica. Brasil – anos 70 – 90), no IFCH/UNICAMP, em 1997. Para tanto Marcia Toste faz uma análise de como opera a indústria fonográfica brasileira, começando por mostrar como a Escola de Frankfurt explica a indústria cultural e como o conceito se aplica na indústria fonográfica, tendendo a uma mundialização da cultura. Em seguida a obra mostra a como a indústria fonográfica é administrada, expondo seus critérios de escolha e produção (além de como sua estrutura vai se alterando a partir da fusão de gravadoras), se utilizando de depoimentos de produtores e artistas e dados sobre vendas e consumo. Dentro deste cenário também aparece uma profunda análise da produção independente.

A indústria fonográfica, a indústria cultural e o indie

Desde que a música é música ela transita livremente por todas as esferas sociais, é utilizada para expressar todo tipo de cultura em diversas situações (rituais, festas, entre outros usos). Isso se amplia na “era da reprodutibilidade técnica”, e chegando-se a um padrão de música ocidental contemporânea. A capacidade de interação da música-mercadoria com os demais meios de mídia (rádio, televisão, cinema, teatro, entre outros), faz dela um produto altamente comercializável. Assim como os meios técnicos de produção (instrumentos, gravadores, microfones, etc) estão cada vez mais acessíveis aos candidatos a pop stars.

“A concentração da produção no âmbito de poucas empresas e a centralização das normas e decisões têm sido apontadas, por alguns analistas, como características próprias à indústria fonográfica mundial. Peter e Berger referem-se à ocorrência de ciclos de concentração e distensão, para explicar o movimento. Por outro lado, Lopes mostra que não é a concentração que varia, e sim “o sistema de desenvolvimento e produção usado pela grande companhia” que, em determinados momentos, incorpora a diversidade excedente, como estratégia de controle de mercado, por meio do “sistema aberto” (p.43)

Surge assim o conceito de indie, que alheia a produção independente com a divulgação e distribuição das grandes gravadoras. Isso não diminui o poder das gravadoras, que continuam a selecionar o conteúdo indie que vai ganhar destaque. O cenário independente que gera o conceito de indie só é possível graças aos avanços tecnológicos dos meios de produção, e sua crescente popularização. A técnica se torna fundamental para o artista, no sentido que ela vai além da arte, atingindo também o registro e manipulação da sua música.

Os anos 70 e 80

Depois do golpe militar de 1964 os meios de comunicação de massa se desenvolvem rapidamente e se constituiram num setor economicamente significativo, que está ideologicamente ligado às filosofias dos militares de integração nacional. Na esteira desse crescimento emerge a publicidade. O setor ganha força e, a partir da década de 1970, se insere em todos os meios de comunicação e passa a exercer um papel fundamental, no sentido financeiro, dentro deles. Cria-se uma interdependência entre publicidade, meios de comunicação e Estado. Num primeiro momento, muito do conteúdo, com ênfase na televisão e as músicas do rádio, é de produção estrangeira.

A indústria fonográfica faz uma distinção entre seus lançamentos: artistas de marketing e artistas de catálogo. O primeiro tem custo de produção baixo, e engloba uma série de outros produtos além dos discos, que vendem por pouco tempo, mas geram grandes rendas em pouco tempo. Já os artistas de catálogo podem não ter um grande impacto no momento de seu lançamento, mas tem um tempo de venda mais duradouro (MPB nos anos de 1970, por exemplo).

O rock

O rock como elemento aglutinador da juventude mundial chegou de forma avassaladora no Brasil. Seja através da Jovem Guarda, do Tropicalismo, do rock nacional nos anos de 1890, ou com grandes bandas incluindo o país em suas turnês. Pena Schmidt (produtor que passou pelas grandes gravadoras) confirma que suas escolhas, consequentemente a dos majors, se davam a partir de características adaptáveis a indústria cultural. A teoria de Morin, de que tudo, no fim, é absorvido pela indústria cultural, se mostra na prática. As gravadoras se apoiam na segmentação do mercado, trabalhando com diversos estilos.

“Portanto, apesar do rock ter uma importância cultural diferenciada dos media e da grande indústria, o que é veiculado e consumido em larga escala, é resultado de um planejamento exato, com estratégias muito bem definidas. Se o rock é culturalmente distinto de uma simples moda, sob sua égide existiram e continuam a existir bandas de um só sucesso, de um só verão.” (p.87)

A terceirização (os anos 90)

O cenário para a década de 1990 não se mostrava animador. Prova disso são os números de vendagens: em 1989 foram 76.686 LPs vendidos, contra 45.225 em 1990, chegando a 30.958 em 1992, números comparáveis a vendas de 20 anos antes. As coisas só começam a melhor em 1993, com a chegada do CD, que aumenta o faturamento das gravadoras em mais de 70%. A crise provocou grandes mudanças no organograma da indústria fonográfica, que se enxugou e manteve apenas postos administrativos de gerência, terceirizando a gravação e o artista.

A reestruturação da indústria fonográfica é consequência de um movimento de globalização que projeta mudanças em todos os processos produtivos. A fragmentação da produção, e segmentação do mercado, são resultados desse processo. Em termos de produção, o fim das fronteiras permitiu a indústria produzir em várias partes do mundo simultaneamente.

Conclusão

Nos anos de 1970 a velocidade de propagação da informação, através dos meios de comunicação, favoreceu o surgimento de uma cultura musical cada vez mais mundializada. Isso gerou um conflito entre a criação artística com os limites impostos por um produto.

Atualmente as pessoas tem uma relação de intimidade com a indústria cultural. Ela se tornou “natural”, tendo grande influência em escolhas e decisões da vida como um todo. O processo de produção da indústria cultural coloca ela numa posição de autoritarismo em relação ao seu consumidor, que escolhe o que ela quer, quando ela quer.

DIAS, Marcia Tosta. Os donos da voz – Indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

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