Hanz Robert Jauss – O prazer estético e as experiências fundamentais da poiesis, aisthesis e katharsis [fichamento]

JAUSS, Hans Robert. O prazer estético e as experiências fundamentais da poiesis, aisthesis e katharsis. In: LIMA, Luiz Costa (trad. e org.). A literatura e o leitor – Textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

Ao pensar na relação entre literatura e leitor estamos falando de uma relação íntima do indivíduo (intérprete) com sua interpretação de mundo, refletida a partir da literatura que ele tem em mãos. É nesta valorização do processo comunicativo da arte, a partir da relação entre obra e público, que a Estética da Recepção, teoria exposta pela Escola de Konstanz nas décadas de 1960 e 1970, vai se debruçar. A parte de Hanz Robert Jauss neste estudo diz respeito ao prazer estético envolvido nesse processo.

Queimem as bruxas! (ou sobre o prazer estético)

O prazer estético foi por muitos condenado. Em um aspecto condenado a um ser especial e dotado de capacidade intelectual ímpar para chegar a tal efeito, a dita “burguesia culta”. Condenado também moralmente, no que diz respeito a sua conduta. Isso significa dizer que, em algum período da arte clássica alemã, o prazer estético poderia ser como uma maldição se não fosse justificável perante a religião e a filosofia. Neste caso, a censura moralista afeta diretamente a estética da obra de arte. O prazer agostiniano, por exemplo, se refere a sensações que unem os cinco sentidos, e pode ser direcionado para o bem (Deus) ou o mal (mundo). É como o efeito da comédia grega para o místico e assassino Jorge de Burgos, em O nome da rosa, onde o prazer estético (realizado pelo riso) pode ser o primeiro passo para questionamentos com potencial para abalar os pilares da sustentação da igreja. Já a poética aristotélica chega a uma fórmula que resume o prazer estético em um êxtase, sendo ele resultado de uma emoção somada ao conhecimento (reconhecimento de si na obra).

“Um ponto-chave na poética aristotélica, que viria a desempenhar um papel significativo na história de sua recepção, aparece no Cap. IV, com a passagem sobre a razão do prazer, ante a representação de objetos feios (1448b). Aristóteles atribui esse prazer à dupla origem do prazer da imitação, mas também do regozijo ante o reconhecimento da imagem original no imitado. De acordo com esta explicação de caráter estético-recepcional, reúnem-se, no prazer estético, um efeito perfeitamente sensível e um de ordem intelectual. Mas a experiência estética não se esgota em um ver cognitivo (aisthesis) e em um reconhecimento perceptivo (anamnesis): o espectador pode ser afetado pelo que se representa, identificar-se com as pessoas em ação, dar assim livre curso às próprias paixões despertadas e sentir-se aliviado por sua descarga prazerosa, como se participasse de uma cura (katharsis).” (p.86/87)

Voltando as atenções para a estética, e partindo de um pressuposto sofista, podemos dizer que ela comunica algo. Comunicação é algo que carrega, pela sua finalidade em si, retórica. Quando um poema é declamado ao público, ou uma argumentação é feita num debate, se provoca no ouvinte um efeito catártico, caracterizado aqui por prazer estético. Ganha assim importância o conteúdo ideológico do discurso e da arte. Numa eterna disputa entre filosofia e teologia a moral religiosa condena esta ambivalência da retórica. Isso porque se ela não levar consigo a chancela da verdade, da moral, estará propagando a mentira e a perversão. Aí temos espaço aberto para interpretações que não extrapolem o racional, a retenção de sentimentos e sensações, correndo o risco da criação de uma estética doutrinária e voltada ao controle e manipulação. Neste contexto o sentido do termo prazer se perde diante de uma arte esteticamente alienante, onde o intérprete é condicionado por sua moral no ato da interpretação.

Já foi, ou será (ou da onde vem, e o que é, o prazer?)

Sendo o prazer algo inatingível pelo estético pode-se chegar a ele pelo trabalho. Na estética marxista a auto-realização é determinante para o prazer, e esta só será alcançada pelo trabalho. É o resultado deste que no futuro resultará em prazer. Do lado oposto desta briga temporal esta a estética psicanalista, que coloca o prazer como resultado de uma ação passada que impacta no presente.

“No seu uso atual, o prazer perdeu muito de seu sentido elevado. Outrora, o prazer justificava, como um modo de domínio do mundo e de auto-conhecimento e, a seguir, como conceito de filosofia da história e da psicanálise, as relações com a arte. Hoje, para muitos a experiência estética só é vista como genuína quando se priva de todo prazer e se eleva ao nível da reflexão estética. A crítica mais aguda a toda a experiência de prazer da arte encontra-se, outra vez, em Adorno. Quem procura e encontra prazer ante as obras de arte não passa de idiota. (Banause): “Expressões como ‘delicioso de ouvir’ falam por si”. Quem é incapaz de eliminar o prazer da relação com a arte, a coloca junto aos produtos culinários ou pornográficos.” (p.92)

Cabe aqui colocar como fator influenciante nas palavras do teórico de Frankfurt a presença do kitsch como fonte de prazer estético da sociedade burguesa. Ainda pensando de acordo com a escola Alemã, e evocando o conceito de “aura”, e o resultado de sua falta, exposto por Benjamin, um produto arte fruto da indústria cultural não seria capaz de realizar um prazer estético, que vem através da reflexão crítica que somente a genuína arte com “aura” poderia prover. Leva-se em conta, ainda, que o pós-guerra gerou uma arte que visava chocar (estética da negatividade), servindo a crítica / reflexão de Adorno em detrimento do prazer.

“Enquanto a concepção marxista da literatura se restringiu, desde Plekhanov até Lukács, à teoria do reflexo e, daí, ao ideal de mimises do realismo burguês, esperou ela que o receptor reconhecesse de imediato uma realidade objetiva; só a partir de Brecht pode-se falar de uma consideração do efeito da literatura, embora apenas com a intenção de educar o receptor no sentido de uma postura racional e crítica, contra a tendência deste em favor de uma empatia (Einfühlung) prazerosa e da identificação estética.” (p.94)

A partir desta ideia pode-se afirmar que a estética está para o prazer assim como o racional está para crítica. Mas o prazer não pode ser pedagógico, correndo o risco de ser alienante e manipulador. Neste sentido a ciência da arte sobrepõe a experiência estética, que como katharsis não se realiza perante uma crítica racionalizada. Por esse prisma a arte vai sempre estar ligada a uma dicotomia que vaga entre o moral ou imoral, utilidade ou deleite.

O prazer da leitura (ou o receptor)

Para uma obra de arte se concretizar é necessário que um leitor a leia. Quem dá sentido ao texto é o leitor, a partir das intertextualidades que ele enxerga, ou seu conhecimento sobre o assunto tratado, por exemplo. Por isso o prazer estético exige do leitor muito mais que contemplação, ele clama por interação. Não é exatamente o que Barthes diz quando argumenta que o prazer do texto vem dele em si, sua natureza e propósito, a palavra. Ela que tem significado e profetiza o prazer. Seria possível, aqui, inferir Ludwig Giez, como citado por Jauss, para quem o prazer estético sempre vai estar orientado para o objeto fonte do prazer. Continuando na direção da Escola de Konstanz, Jean-Paul Sartre complementa a teoria de participação do leitor lembrando da sua participação, fundamental, na obra literária imaginando ela na sua cabeça, transformando as palavras em uma realidade paralela, dando veracidade a elas. Temos aí então uma relação unilateral entre obra literária e leitor.

“A determinação do prazer estético como prazer de si no outro pressupõe, por conseguinte, a unidade primária do prazer cognoscente e da compreensão prazerosa, restituindo o significado, originalmente próprio ao uso alemão, de participação e apropriação. Na conduta estética, o sujeito sempre goza mais de si mesmo: experimenta-se na apropriação de uma experiência do sentido do mundo, ao qual explora tanto por sua própria atividade produtora, quanto pela integração da experiência alheia e que, ademais, é possível ser confirmada pela anuência de terceiros.” (p.98)

Poiesis, Aisthesis e Katharsis (ou conclusão)

Por fim voltamos aos conceitos aristotélicos, ou as três condições para o prazer estético. A primeira, poiesis, diz sobre a leitura, ou a realização da literatura, que acomoda o leitor em seu mundo. Em seguida a aisthesis, que produz o conhecimento através da experiência (se utilizando de sua função comunicativa), experiência de leitura, reflexão, portão de entrada para um novo, velho, mundo onde é possível se achar, e alcançar a katharsis, transformando as convicções e libertando sua mente.

“Quando o leitor contemporâneo ou as gerações posteriores receberem o texto, revelar-se-á o hiato quanto à poiesis, pois o autor não pode subordinar a recepção ao propósito com que compusera a obra: a obra realizada desdobra, na aisthesis e na interpretação sucessiva, uma multiplicidade de significados que, de muito, ultrapassa o horizonte de sua origem. A relação entre poiesis e katharsis tanto pode se dirigir ao destinatário, que deve ser persuadido ou ensinado pela retórica do texto, quanto remeter ao próprio produtor: o autor pode tematizar expressamente o “poetar do poetar (…)” (p.102)

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