Nem a lua nem a Ásia existem [conto]

Imagem | Antimidia

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Camilo acordou na Guiána-Francesa. Estava calor, não havia nada para comer e a água sempre tinha um gosto amargo de remédio. O sol já invadia seus pensamentos e saia em forma de suor. Ele precisava cair fora dali de qualquer jeito, então foi para Noruega, que ficava no quarto ao lado e tinha um clima bem mais ameno. Trabalhou duro por seis meses como pescador de bacalhau, o que lhe conferiu grande autoridade para dizer aos quatro cantos que já tinha visto cabeça de bacalhau. Isso incomodou os Ministério da Cultura local que o mandou embora do país num voo para o Afeganistão. Lá ele se arranjou numa fazenda de plantações de papoula. As flores transportavam Camilo para uma realidade onde não existia tristeza ou dor. Ele aprendeu tão rápido como manipular aquela maravilha da natureza que rapidamente foi elevado ao posto de leão de chácara, se tornando braço direito do Xeique que era dono de tudo. Cavalgava pelo campo estalando o seu chicote toda vez que uma pétala caia sem que o motivo fosse o propósito natural de uma flor, isso é, murchar. Sempre manteve uma postura dura com quem não tratava as flores com o carinho que elas merecem. Até que um motim foi organizado por um refugiado Sírio e ele fugiu por um buraco para a Holanda junto com o Xeique. Chegando lá ampliou seus conhecimentos agrícolas para plantações de maconha. Os dois conseguiram comprar um grande área no sul de Amsterdã e começaram a cultivar a erva em grande escala.

Seu interesse pela canabis o levou ao consumo. Pensando melhor sobre como conduzia seus negócios decidiu pagar um salário justo aos trabalhadores e não mais usar o chicote enquanto caminhava calmamente pela plantação. Mesmo com o aumento exponencial da produção, suas novas práticas não agradavam seu sócio. Quando Camilo tentou estabelecer um gerenciamento horizontal do negócio o Xeique passou a conspirar contra ele, boicotando a própria plantação com uma praga de spidermites. Depois do fracasso na colheita ele virou hippie e decidiu viver nas ruas do distrito de Haight-Ashbury em São Francisco. Lá começou a tocar violão na rua e conheceu um gaitista chamado Bill. Os dois tocavam na calçada por algumas moedas até que a pós-modernidade os atingiu como uma bala de canhão destroça uma barquinha. De repente Camilo estava tocando nos maiores palcos da América ao lado de lendas como Bob Dylan, Hendrix e cia. Ele fritava no palco. E foi justamente entre Purple Haze e Blow in the wind que ele se perdeu numa pequena cidade do norte, e de lá pegou um ônibus para Chicago, onde serviu de cobaia remunerada para uma companhia farmacêutica testar uma nova droga. Os efeitos colaterais apagaram a segunda metade de sua memória, o que fez ele automaticamente retroceder para a primeira. Camilo se sentia um jovem preso num corpo velho e cambaleante.

Depois de, pela segunda vez, submeter seu corpo a todas as experiências existenciais possíveis a alguém com vinte e poucos anos, Camilo decidiu que precisava recuperar seu passado. Para isso passou por um ritual xamânico para entrar na toca do coelho e voltar no tempo para descobrir o que tinha esquecido. Ciente de passado, presente e futuro, percebeu que o melhor era não saber de nada. Fugindo de si mesmo ele se isolou num antigo templo religioso no Senegal. Através de Fa Kébeté, um ancestral muito renomado, aprendeu técnicas tântricas de meditação que o levaram a se sentir o próprio Holden Caulfield procurando por seu lugar no universo. Depois de dois longos meses explorando sua caverna interior ele foi apresentado a Ndooy, um sipikat de um vilarejo próximo que tinha o contato dos maiores produtores de yamba do país. Camilo se abasteceu com dois quilos de erva e centenas de sementes e se mandou dali para rumo ao paraíso da Austrália. Arrumou um lugar no deserto onde pudesse plantar suas sementes. Os aborígenes o receberam muito bem, assim como um colono, Stewart, que começou a levar a djamba de Camilo para a Europa as toneladas. O negócia ia tão bem que ele e o inglês abriram uma empresa de transporte de cargas marítimas para poder controlar melhor a distribuição. Mas quando os dois foram surpreendidos por piratas do governo em uma de suas rotas os dois tiveram que pular do navio. Então os dois mergulharam no Atlântico para emergirem no canal do Panamá. Lá receberam o apoio de Noriega para continuarem operando com sua mercadoria através do canal. Estabeleceram a plantação no sul do país e aproveitaram o clima favorável para expandir seus negócios por toda América.

Numa noite, tendo uma conversa com Stewart, revelou que estava cansado de tudo e que queria ir embora para casa, apesar de não se lembrar de onde ela fica exatamente. O colono argumentou que ele ia perder muito dinheiro, e que poderia ser preso, seja lá para onde quer que fosse. Mas Camilo não queria mais ter que esconder de ninguém o que fazia e porque fazia, e abriu uma igreja para Jah no centro da cidade, onde recebia vagabundos, drogados, doentes e pais de família. Durante os cultos todos fumavam maconha, repetiam o mantra da liberdade e oravam para que uma força sobrenatural interviesse nas suas vidas. Mas a relação de Noriega com o poder azedou, e a guerra e o povo invadiram as ruas. Com medo dos revolucionários que pregavam ordem e progresso Camilo se escondeu no banheiro e, descendo pela privada, chegou até o Brasil e, em plena hora do rush, surgiu de um cano de esgoto no Rio Tietê. Assustado, e sem amigos, se escondeu no mundo debaixo de uma ponte da Marginal Pinheiros, onde foi preso e levado para o Hospital Vera Cruz para tratar seus vícios. Numa manhã de domingo percebeu que nunca havia acordado na Guiána-Francesa.

*Conto escrito para a terceira edição da Cannabica.

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