Sobre escolhas [conto]

Imagem | Antimidia

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Maria poderia ter saído de casa com 18 anos para fazer faculdade de direito no interior. Lá conheceria José, João e Gabriela. Juntos passariam por emoções e decepções que iriam marcar suas vidas. Descobririam tudo que se poderia saber sobre sexo, drogas e Rock’n Roll. Graças a uma empatia explicável apenas pelos fatos de estarem na mesma classe, no mesmo ano e com a mesma idade, montariam uma República, onde todos aprenderiam como conviver com as diferenças alheias, além de aprimorarem suas habilidades em lavar louça, cozinhar, limpar banheiro. Ela se apaixonaria por João, com quem namoraria por algum tempo antes de descobrir que, na verdade, João vinha de uma família tradicional que o havia convencido que lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. Depois de muito chorar pela descoberta de um cretino João se aventuraria com Gabriela na busca de novos sabores.

Ainda no primeiro ano Maria entraria para o grupo de estudos aristotélicos e o Coletivo de Advogados Culturais. Descobriria anos mais tarde que o professor que orientava as discussões no grupo poderia ser seu orientador no mestrado. Também entenderia que as leis não são feitas para proteger as pessoas, e sim para proteger o sistema delas. Através do Coletivo teve contato com Mateus, um escritor de contos que estaria processando uma emissora de televisão que tinha usado um texto seu como argumento para uma novela. Mais uma vez se veria enterrada no poço sem fundo do amor. Seu novo namorado faria Maria conhecer os prazeres de Ovídio, passaria horas ouvindo o Bolero de Ravel com ele e finalmente entenderia que o sentido da arte abstrata é uma emoção que esta além dos signos. Frequentaria restaurantes e conheceria artistas que jamais imaginou ter algum contato. Se sentiria tão vislumbrada pela arte, e o estilo de vida que ela proporciona, que até pensaria em largar a faculdade de direito. Primeiro para ser artista plástica, depois apostaria na carreira de atriz, e no fim optaria pela independência que havia conquistado através da bolsa na faculdade às incertezas da vida de artista. Foi mais ou menos na mesma época que percebeu que o mundo em que Mateus vivia jamais seria o dela, e novamente se sentiria sozinha na busca de um sentido para a vida.

No fim do terceiro ano decidiria que iria ser juíza no Superior Tribunal de Justiça. Deixaria de morar em Repúblicas para ter seu próprio espaço, onde organizaria melhor as coisas e poderia aproveitar mais o tempo para estudar. Por obrigatoriedade acadêmica começaria a fazer estágio numa delegacia de polícia. Lá lutaria, bravo e inutilmente, contra um sistema que marginaliza cidadãos segundo sua origem, profissão, entre outros absurdos. Maria defenderia vagabundos, traficantes e pais de família contra as injustiças promovidas pela justiça. Seria quando se veria pela segunda vez em crise com a profissão de advogada. Cancelaria o projeto de ser juíza e o mestrado para, após o fim da faculdade, ter um ano sabático mochilando pela América do Sul. Faria o caminho da morte pelas estradas e trens da Bolívia até Machu Picchu, procuraria as tartarugas gigantes de Galápagos, veria a Cordilheira dos Andes como uma paisagem que jamais imaginou fora do cinema, chegaria a Patagônia com um fascinante brilho no olhar e cheia de confiança para recomeçar tudo como psicóloga. Ia querer entender as pessoas e realmente fazer a diferença em suas vidas. Continuaria a viver de bolsa e faria outra faculdade. Tomaria mais cuidados com as amizades e iria morar sozinha. Teria um caso com Ederson, do mestrado de letras, e sofreria de paixão por Valéria, uma garota mais nova de sua classe que ainda acreditava no poliamor.

Focada como nunca em atuar como psicóloga em zonas de guerra aprenderia inglês e francês para poder fazer parte da Cruz Vermelha. Mudaria de ideia antes do fim do segundo ano ao embarcar para um longínquo e quase perdido vilarejo no meio da Amazônia com o Projeto Rondom. Pensaria que primeiro era preciso mudar ela mesma para depois mudar o mundo. Para isso Maria precisaria se conhecer melhor. Entraria num grupo de estudos foucaultiano e começaria a fazer Yoga. O resultado natural seria uma aproximação com Ederson, que era praticante de técnicas de meditação, e o controle do sofrimento com Valéria. Cansada de viver de bolsa se lembraria do seu diploma, tiraria a carteirinha da Ordem dos Advogados do Brasil e começaria a advogar. No começo seriam apenas os casos designados pela Ordem como defensora pública, mas seu amplo conhecimento das leis, e seu profundo saber aristotélico da retórica, fariam ela se destacar entre seus pares facilmente. Antes do fim da segunda faculdade já estaria envolta em diversas propostas para se juntar aos mais prestigiados escritórios da cidade.

Por fim, o curso de psicologia lhe daria o equilíbrio necessário para lidar com as piores situações possíveis. Ficaria famosa por defender um pai e uma mãe do assassinato dos filhos por afogamento. Conseguiria uma pena branda num hospital psiquiátrico para os dois, alegando que a crescente pressão exercida pela sociedade para que eles fossem uma família de comercial de margarina havia os levados a um estado de surto incontrolável. Quando Ederson terminasse o doutorado os dois decidiriam morar juntos. No começo ele iria morar na casa dela, que teria muito mais estrutura. Mas isso seria por pouco tempo. Os dois se dariam tão bem que rapidamente comprariam um apartamento no centro da cidade, para ela ficar mais perto do escritório e do fórum. Planejariam o primeiro filho, que se chamaria Arnaldo, mas a segunda, Camila, viria por um descuido do amor. Se mudariam para uma casa com mais espaço e um pouco de grama para as crianças. Viveriam bem até a primeira crise financeira da família, que seria quando o escritório onde ela era sócia perderia uma série de causas trabalhistas e quase iria a falência, ao mesmo tempo que ele seria demitido da faculdade onde dava aulas por discordar abertamente do governo. Ele arrumaria aulas em outro lugar, e ela passaria num concurso público de promotora, e depois de uns dois anos patinando a vida seguiria no rumo do e eles foram felizes para sempre…….ou não. Mas Maria se casou com Manuel, para não sair da casa dos pais brigada, e foi trabalhar como caixa de supermercado.

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