Uma imensidão de nada no meio do deserto de lugar nenhum [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

Devo ser uma daquelas almas rejeitadas no céu e no inferno que foram mandadas para um lugar pior: a minha vida. Meu corpo doía em partes que achei que não existissem mais. Num reflexo debilitado chutei alguma coisa. A filha do Jaime ainda estava deitada do meu lado. “Por que você é assim?” “Porque não sei outra forma melhor de ser.” Não tinha oi amor ou bom dia. Nossa relação se dava por uma necessidade biológica desencadeada por um instinto de procriação da espécie.

No momento estou desempregado, o que para mim parece mais solução do que problema. Sendo imediatista, tenho mais tempo para pensar em como me livrar mais rápido da filha do Jaime. O vontade de não fazer nada percorre todos os meus músculos até chegar no cérebro e se transformar num desejo desesperado de beber alguma coisa, impulsionando meu corpo até a cozinha na busca de uma dupla solução para o estômago revirado e a tremedeira: café com conhaque. Sem tchau ou até logo escuto a porta da frente abrir e fechar. Faço o sinal da cruz e sinto como se uma onda de liberdade me atingisse em cheio, gritando para ser ecoada em palavras na tela do computador.

Antes que eu pudesse concluir o drama de uma jovem que, na louca procura por um motivo para viver, se envolve numa orgia dentro de um escritório de um renomado advogado e é crucificada pela sociedade porque ele era casado, a campainha toca. Vejo pelo olho mágico dois policiais vestidos de camisa branca e calça jeans, ostentando distintivos no peito. Tudo que passa pela minha cabeça é: “fudeu”. Tentei me concentrar por uns três segundos para adivinhar o que tinha fudido, mas tudo estava fudido e sob controle. A minha vida era certamente uma ameaça para a sociedade, mas ninguém jamais conseguiria provar. Com mais uns dez segundos, e uma boa talagada na garrafa de conhaque, consegui controlar a respiração e abri a porta estampando uma cara de paisagem.

“O Senhor é o responsável pelo blog Contos Cretinos?” “Sim, Senhor.” “Onde o Senhor estava na noite do dia 22?” “Não sei, por quê?” “Nós podemos entrar?” “Não sei, o que esta acontecendo?” “Um homem foi morto da mesma forma que o personagem do conto Primavera de outono, publicado no blog do Senhor.” “Minha nossa, mas eu não matei ninguém.” “O Senhor esteve na Paraíba neste mês corrente?” “Não, disso eu tenho certeza. Lá é muito quente, não gosto do calor.” “Manterei contato, de qualquer forma, não saia da cidade sem me avisar.” “Que? Como assim?” “Aqui esta meu cartão, tenha uma boa tarde.”

Depois de uma visita destas qualquer vestígio de inspiração tinha descido pelo triturador junto com a cabeça do pobre coitado da Paraíba. Fiquei imaginando como alguém consegue ralar a cabeça de outro alguém inteira num ralador de alumínio. Quando escrevi aquilo achei que seria impossível ralar a cara de alguém num ralador de alumínio. Fui pro bar do Jaime para tentar pensar menos naquelas fotos que o policial mostrou. Peguei uma cerveja e sentei numa mesa perto da porta para poder fugir rápido se ele ou a filha dele tentassem me matar por algum motivo. Mas foi a Marta que sentou do meu lado. “Então você acha que esse policial vai investigar você porque um conto seu influenciou um assassinato na Paraíba?” “No mínimo, né?! O cara foi lá em casa me contar isso e perguntar onde eu estava no dia do crime…ele acha que eu estou envolvido e esta na minha cola.” “Tenho uma coisa aqui que vai sumir com a sua paranóia.” “Não vem com aquela história de folha de coca com cinza de batata doce…” “Não, não….aquela fonte secou….tenho aqui uma mistura de pó de mico com gengibre.”

Entramos no banheiro feminino e ela esticou duas carreiras daquele pó estranho. “Demora uns minutos para fazer efeito e talvez você espirre um pouco, mas depois…” “Minha nossa, só sinto o gengibre grudando em cada mucosa do meu nariz…….essa porra meio que arde e refresca ao mesmo tempo.” “Com uma dose de vodca tudo vai parecer alegria.” Quando voltamos para o salão o Jaime e a filha dele me olhavam como se eu fosse um criminoso. Se aquele policial que apareceu em casa estivesse aqui com certeza iria preso.

Depois da vodca o mundo começou a ficar num tom felicidade azul anil. Um sorriso se engessou na minha boca. Era como se Deus tivesse tocado meu coração e eu era todo amor. A Marta se transformou num anjo da paz e me abraçou com um beijo longo e demorado com gosto de amora. Queria distribuir toda aquela felicidade pelo mundo. Queria poder jogar pétalas de rosa para o alto cantando qualquer música dos Mutantes. Comecei a pular como uma gazela pelo bar espalhando vibrações de gratidão para todos os lados. A filha do Jaime tentava demonstrar todo seu desprezo por mim fingindo que eu não existia. Não resisti a tanto amor reprimido e agarrei ela quando ela passou por perto. O Jaime não gostou da minha atitude e começou a me dar vassouradas me empurrando para fora do bar. A Marta se jogou nas costas dele dizendo que ele ia matar a borboleta que nascia de dentro de mim. Conclui que como uma borboleta eu poderia voar. Comecei a correr em círculos para pegar embalo e quando senti que estava na velocidade certa tomei impulso numa cadeira, saltei na horizontal agitando meus braços asas e cai apagado de cara no chão.

Anúncios