Isolado e culpado – Uma análise do conto “Os músculos”, de Ignácio de Loyola Brandão [resenha]

Flickr CC | Luiz Gustavo Leme

Sobre o autor

Nascido no interior de São Paulo, Araraquara, Ignácio de Loyola Brandão, 80 anos, é crítico e escritor. Sua primeira publicação foi o livro de contos Depois dos Sol em 1965, no inicio da ditadura militar. O livro Zero chegou a ser censurado e publicado primeiramente em italiano antes que pudesse ser publicado no Brasil, em 1975. Sua bibliografia é vasta, com dezenas de publicações. Com o romance O menino que vendia palavras, de 2008, venceu os prêmios Jabuti de melhor ficção e Fundação Biblioteca Nacional, como melhor livro infanto-juvenil. Em 2006 recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da sua obra.

Fonte | Wikipédia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Ign%C3%A1cio_de_Loyola_Brand%C3%A3o

O conto

Os músculos foi lançado em 1976 (não consegui identificar precisamente aonde, mas a data aparece em trabalhos acadêmicos e críticas sobre o conto, mas aonde isso aconteceu carece de mais investigações). Num período onde a liberdade de expressão não era um direito conquistado, e o Estado imperativo na vida do cidadão, o conto é um exemplo de como opressão e isolamento desembocam em, no mínimo, violência psicológica.

Leia o conto | http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/7258/os-musculos

Análise

Isolado e culpado

“Os músculos” busca esclarecer logo no começo o problema central da história: arames que nascem como praga num quintal. Mas o título se estende, como se fosse parte de um todo desconhecido. O sinal de aspas abertas com reticencias entre parenteses sugere que o conto é parte de uma história maior, e, ainda, antes de iniciar a narrativa propriamente dita, esta parte é nomeada através do subtítulo “O fato” (o link postado aqui para o conto não começa assim, mas infelizmente não localizei nenhuma versão transcrita para a internet como o original). O conto apresenta uma narrativa sólida, no que diz respeito a possur começo, meio e fim demarcados. Depois de uma breve introdução que apresenta o personagem surge a problemática (arames crescendo no mato), o desenvolvimento (distribuir arames), a reviravolta (distribuir arames se torna um crime) e o desfecho (viver entre os arames). Tudo isso ordenado num tempo não cronológico, no sentido em que as semanas e meses avançam em pequenas orações, e que pode ser parte de qualquer época. A preocupação do narrador em localizar o tempo não vai além de mapear o crescimento na pequena horta e situar o leitor em que momentos acontecem algumas situações (“No dia seguinte, levantou-se bem cedo, para observar. O arame tinha crescido.”). O espaço, que no inicio era de quatro metros quadrado, transborda e atravessa todas as fronteiras para contaminar o mundo. Brotos de arames que surgem do dia para a noite num pequeno jardim conseguem, de alguma forma, se tornar um problema que se espalha da sociedade local para a economia global.

Quem conta “o fato” é um narrador onisciente, que conhece os acontecimentos e os dramatiza. É ele quem constrói um personagem plano (acho que este conceito é velho e ultrapassado, mas cabe aqui), que vai ter seu anonimato quebrado por um nome apenas no fim da história. Danilo é apresentado como um homem sufocado e reservado. Reservado porque enquanto outros homens vão para o bar ou o futebol no domingo de manhã, ele cuida do jardim. Sufocado em vários níveis. Em aspectos gerais pela vida, morando numa “casa pequena”, com 50 metros quadrados, casado com uma mulher que vive numa realidade diferente da sua, que não se importa com seu problema, ao contrário, reclama e ameaça. Sufocado por uma floresta de arames que nasce em sua horta. Depois, quando tenta distribuir o arame que o sufoca, é sufocado pelo abaixo-assinado dos vizinhos, pelas empresas do ramo de arame, pelo Estado através do Ministério da Fazenda, que responsabiliza um simples indivíduo com um problema pelo “baixo preço mundial”. Uma plantação de quatro metros quadrados de arame se torna incômoda o suficiente para mobilizar todos os setores da sociedade. O desenvolvimento do personagem dentro do conto chega ao auge quando sua intenção de isolamento dentro da floresta de arames é revelada, só depois de ele estar dentro dela.

Loyola Brandão cria um espaço que ao mesmo tempo que é urbano também é campo. Os termos “administração do conjunto residencial” e “quintal de 4 metros quadrados” colocam o leitor em contato direto com a vida suburbana, assim como “manhãs de domingo” como momento para cuidar da família e de afazeres domésticos é parte do mundo de trabalhadores operários de uma realidade urbana. Pensar em “rastelo” e “revirar a terra para adubar” remetem a uma vida no campo. Assim, se ligarmos todos estes interstícios, logo no primeiro parágrafo podemos pressupor que o personagem busca, de alguma forma, esta fuga da cidade que é revelada somente no final.

Estes interstícios também apontam para um entrelaçamento entre campo e urbano. Os arames invadindo os espaços que representam o campo podem ser vistos como a invasão do espaço urbano sobre o campo. Este movimento é semelhante ao que Antonio Candido se refere como dicotomia entre “localismo” (nacionalismo literário) e cosmopolitismo (transplantando de forma consciente modelos europeus). Ele afirma que o local se apresenta como substância de expressão enquanto o cosmopolitismo como forma dela. O localismo de Danilo, o personagem que busca resgatar a vida do campo cuidando de seu jardim, se contrapõe na desconstrução da realidade urbana, onde arames nascem em pequenos quintais do subúrbio.

Esta realidade que emerge junto com arames é colocada com alguma estranheza nos primeiros parágrafos. O personagem cava, cava, e cava mais, na busca da origem do arame, mas em nenhum momento questiona a possibilidade de arame brotar da terra. Um técnico é chamado para não questionar o elemento fantástico, mas sim para validá-lo, orientando que a produção seja colhida e relativizando uma possível estranheza do leitor com o fato. No final estes elementos fantásticos são ratificados com “pequenos insetos prateados”, ou num arame grosso com bulbos que armazenam água. Explorando mais afundo este recurso o conto deixa no ar que aquela floresta de arames que nasceu num espaço de quatro metro quadrados é como o buraco do coelho de Lowis Carrol em Alice no País da Maravilhas, um mundo fantástico.

Numa análise que busca a reflexão da sociedade dentro do conto, encontramos um mundo que ignora as dificuldades individuais e marginaliza os que não se enquadram em suas regras, o que pode ser visto como uma analogia ao momento político de seu tempo (ditadura militar). Ao longo de toda narrativa o indivíduo é forçado a aceitar uma realidade que lhe é imposta, tanto pelo Estado como pela espaço urbano. A ideia de cercar cidades, estados e até o país remetem a esta marginalização na forma de um isolamento do indivíduo e controle das fronteiras da vida (e da mente) pelo Estado. As representações são colocadas em cheque, como em uma horta que brota arame. As culturas do sujeito do campo e do sujeito urbano se sobrepõe de tal forma que não se encaixam, então precisam ser re-moldadas. Para isso o escritor se apega na verossimilhança interna da obra para relativizar os elementos fantásticos. Não é mais possível cultivar “alface, beterraba e couve”, o que esta dando como chuchu é arame.

Anúncios