O suicídio do covarde Manuel [conto]

Ana trabalhava na lotérica Boa Sorte! há 25 anos. Começou um pouco antes de entrar para a faculdade de Letras e nunca mais saiu. A estabilidade tinha alavancado seus sonhos. Além do diploma, seu emprego a levou para quinze fantásticos dias de férias em Portugal em 2006, pagou muitos churrascos com os amigos e pizzas com a família, deu para ela um carro velho bem cuidado, o FGTS rendeu uma casa de vila num bairro afastado novo e tudo que tinha lá dentro, incluindo marido e duas filhas. Armando era um jogador inveterado, e sempre achou que o guichê de Ana dava algum tipo de sorte. De lá para a cama, depois à igreja, foi pá pum. Juntos fizeram planos, viveram algumas alegrias e incontáveis decepções. Ela não achou que ele ia engordar tanto, e ele pensou que ela seria mais atenciosa. Era sábado a noite, durante algum tempo o dia da tradicional trepada semanal.

– Vamos para a cama, amor……..

– Calma Armando, as meninas ainda não estão dormindo….

– Enquanto isso a gente pode ficar brincando com as mãos, a boca……..faz tanto tempo que a gente não se diverte……olha só como eu estou……..

– Tira essa coisa daqui!……..para com isso…….me espera no quarto…….vou terminar de limpar esta pia, colocar as meninas para dormir e vou para lá……….acho que a gente precisa conversar.

– Eu também acho…..acho muito……a semana passada foi a feijoada que estava pesando……….na outra você arrumou de dormir com as meninas na sala……e dor de cabeça e menopausa e “não quero hoje” e “vamos ser rápidos”. Porque você não quer mais transar comigo? Você tem outro?

– Tenho……mas eu te a…

– Que?……calma aí…….que?…..como assim?…….quando?…….quem?!

– A Maria…..nós somos amigas desde criança…….e…..e a gente começou a fazer o curso de custura juntas…….e……..você sabia que a gente já tinha transado antes……enfim……..a gente tem se encontrado e……

– Pelo amor de Deus!……você tem 43 anos……filhas!…..

– Eu amo elas!…..eu amo a nossa família!…..você!…..tudo que a gente construiu…..

– Você ama uma xereca! O Manuel já sabe disso?……..vou ligar para ele e contar que nossas esposas são duas sapatonas!……..

– Calma!…….a Maria também vai contar para ele hoje…….a gente precisa conversar……

– A gente!? Quem é a gente?

Pow!

Armando era contador e trabalhava no escritório do seu tio, tendo como inicio o ofício de office boy. Depois de tanto tempo lá sabia mais que o filho do dono, que agora era o dono. Para ser dono de alguma coisa o único caminho que parecia viável era o da loteria. Ia na lotérica todos os dias, e de tanto ver Maria, se apaixonou. O emprego pagou sua faculdade de Administração, a viagem de férias, casa, carro, impostos e tudo mais. Tinha sido um expoente do futebol no colegial e costumeiro frequentador das baladas até se casar. Depois de umas escapadas aqui, e de cretinices lá, entrou na linha com o nascimento da primeira filha. Agora tinha encerrado a conversa com a esposa a chutes e pontapés enquanto ela fugia para o quarto, onde se trancou. Armando dormiu no sofá. As crianças ouviram tudo e viram boa parte da cena, e choramingavam baixinho no quarto esperando alguém explicar para elas o que estava acontecendo.

– Oi….acho que a gente precisa conversar……..

– Eu quero que você saia de casa ainda hoje…….

– Me desculpe por ontem…..eu perdi a cabeça…….não vai acontecer de novo…..

– Vou levar as meninas para escola e quando voltar para o trabalho espero que você já tenha ido para onde tiver que ir……

– O que esta acontecendo?……….eu te amo……

– ……….

– Vamos conversar……uma vida inteira não pode acabar assim…….e as crianças……

– Vou conversar com elas depois da escola……..quanto a conversar com você eu não sei quando vai ser…..

– Como assim?…….o que você vai dizer para elas?……..que agora a Maria João vai ser o pai delas?……não…..não….se eu for elas vão comigo……

– Você não vai tirar minhas filhas de mim!……..olha só…….calma………passa uns dias na casa da sua mãe, ou no sítio………vamos pensar em tudo……se acalmar………depois a gente conversa……

– Você não vai transformar elas em duas putinhas lésbicas!……..qualquer juiz vai concordar comigo……….minhas filhas não vão ser criadas por uma degenerada!……se eu for elas vão também!…….

– Você é um escroto!…….sai daqui agora se não eu chamo a polícia!……

– E vai dizer o que?……que…….que seu marido não quer deixar você viver como uma vagabunda?…..que….que….tomou um tapinha?………nem ficou marca…….você não sabe o que esta falando……..

– Eu não queria que fosse assim……….mas……você não me dá alternativa……

– Dá esse telefone aqui sua vagabunda……..

Pow! Paw! Pow! Pow!

A polícia apareceu porque o vizinho escutou tudo e ligou. A agitação tomou conta do quarteirão. Manuel, que morava com Maria na mesma calçada, escutou os barulhos e saiu para ver o que estava acontecendo. Viu Armando sendo colocado na viatura violentamente, se debatendo nos policiais, e nervoso, vociferando que Ana jamais teria paz. Ela não apareceu, mas todos ouviam o choro dela dentro da casa. As crianças não saíram do quarto, mas escutavam tudo e eram consoladas por um casal de policiais que aguardava o Conselho Tutelar. As viaturas se aglomeravam na rua quase que fechando o trânsito. Manuel entrou em casa e segundos depois o barulho de um tiro seco ecoou pelo tumulto como um sinal que o inferno não era tão longe. Ana sentiu como se o tiro tivesse entrado eu seu peito e perdeu o fôlego. Os policiais logo identificaram a casa de Manuel como origem do disparo. Entraram quebrando tudo e aos gritos. Quando chegaram na cozinha encontraram Maria estrangulada e morta e ele com um tiro na cabeça.

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