Uma entrevista com Ian Curtis – BBC Radio Blackburn – (1980) [tradução]

Closer é o segundo, e último, álbum do Joy Division, e foi gravado na época desta entrevista e lançado posteriormente.

Closer é o segundo, e último, álbum do Joy Division, e foi gravado na época desta entrevista e lançado posteriormente.

Tradução – Eder Capobianco Antimidia

Cerca de três meses antes de se suicidar, o vocalista freak do Joy Division, Ian Curtis, concedeu uma entrevista para o programa Spinoff, da BBC Radio Blackburn. Esta foi sua última entrevista registrada. Parte dela se perdeu no tempo. As primeiras perguntas foram ao ar ainda em 1980, mas a segunda parte só foi descoberta e revelada em 1988.

* Primeiro trecho que foi ao ar em 1980.

Desconhecido – faltando uma única gravação atualmente disponível (algo na linha de “você pode nos contar um pouco sobre como o Joy Division se juntou?”, ou “Como é que a banda se desenvolveu?”

(A primeira parte da resposta de Ian também se perdeu.)

Ian Curtis – ….melhoraram como músicos, obviamente, desde quando começamos, nós não podíamos tocar, realmente. Bernard, o guitarrista, estava tocando há alguns meses, Peter, o baixista, tinha acabado de começar do zero, eu nunca tinha estado numa banda antes. Eu acho que no começo era apenas algo que queríamos fazer…você sabe…só chegar lá e tocar. Mas depois de uns seis meses começamos a olhar para a música e o que queríamos dizer mais seriamente.

Vocês tem sido comparados aos The Banshees e, mais frequentemente, com os The Doors. O que você acha de comparações como estas?

Ian Curtis – Eu realmente não concordo com isso. Quer dizer, é inútil ficar fazendo comparações porque você tende a amarrar tudo em um determinado tipo de som. Eu acho que é muito fácil para os músicos de papel fazer algo assim, porque eles gostam de enquadrar tudo, então eles podem dizer: “Ok, este grupo pertence a essa categoria e essa banda pertence aquela categoria”. Mas eu gostaria de pensar que nós não pertencemos a qualquer categoria….você sabe…a música atravessa coisas diferentes. Eu acho….você sabe….nós nunca tivemos nenhuma intenção de dizer que queremos um som como isso, ou queremos um som como aquilo. É só o que sai na hora.

Que tipo de influência você admitiria então?

Ian Curtis – Oh….(pausa)….coisas que me influenciaram eu acho que são principalmente as pessoas. Eu posso me lembrar de bons amigos de quando eu tinha uns 16 anos, tipo, estava crescendo naquele tempo, suas perspectivas naquele momento, tipo, a nossa perspectiva juntos moldaram as minhas perspectivas para os próximos anos. Se eu estou escutando música, tende a ser a atitude das pessoas para com a música que estão fazendo que me influência mais que a música que esta sendo tocada. E posso me lembrar de certos singles ímpares que lembro de ter escutado uns anos atrás, que me faz lembrar de um certo ponto no tempo, quando alguma coisa aconteceu…você sabe…e eu tendo a olhar as coisas como se elas tivessem muito mais a dizer do que certos artistas dizem…oh…eu vou comprar todos os LP’s dele, essa é uma pessoa ou é da música que eu gosto? Então pequenas coisas ímpares, ou LP’s únicos que….er….me lembram de certas coisas que, tipo, me fez pensar…você sabe…é isso.

Suas letras parecem se concentrar no industrial ou na decadência urbana. Você sente que a banda tem alguma resposta para isso? Ou vocês estão apenas nos informando sobre isso?

Ian Curtis – Pessoalmente, eu não diria que nós lidamos muito com isso. Da forma que olho para isso, e da maneira que escrevo, é mais ver as relações das pessoas e como as pessoas podem lidar com certas coisas. Dentro disso, eu tendo a ser mais interessado nas pessoas e em como elas lidam com as coisas de diferentes modos, e diferentes pessoa podem lidar com certos problemas, e como nós podemos nos adaptar, e coisas assim. Eu não gosto de juntar coisas demais, eu prefiro pensar em cada um como uma coisa individual, realmente. Eu posso ver diferentes coisas surgindo, na vida de diferentes pessoas, ou o que quer que seja, que é totalmente diferente de outra pessoa. Eu não gostaria de, tipo, fazer um discurso do tipo vasto e subjetivo.

* Segundo trecho revelado em 1988.

Qual o tipo de relação que você tem com outras bandas de Manchester?

Ian Curtis – Nós tendemos a estar um pouco isolados agora….além das bandas da Factory. Nós temos muito trabalho para fazer com as outras bandas da Factory. Nós tendemos a tocar em muitos shows com eles e…..há outras coisas como o LP do Durutti Column – o da capa de lixa – nós estamos enfiados nisso. Então todo mundo lá……uns com os outros….e bandas que eles têm lá, grupos como o Buzzcocks, que nós conhecemos quando nós realmente começamos. Você sabe….quando nós meio que vemos eles…..nós falamos com eles, mas não muito frequentemente. Nós gostaríamos que fosse…..você sabe, ver muito mais das outras bandas de Manchester. Qualquer outra banda no geral.

O que você pensa sobre a situação do New Wave?

Ian Curtis – Não sei. Eu acho que…..um monte delas tendem a realmente perder os limites. Há pouquíssimos  grupos que eu ouvi…..registros ímpares. Músicas ou coisas que talvez tenha visto como….eh….eu gosto, eu acho que dos grupos antigos da Factory realmente, eu gosto das bandas da Factory; A Certain Ratio e Section 25. Eu tendo a não escutar, quando estou escutando música….eu não escuto muito coisas new wave, eu tendo a escutar as coisas que costumava ouvir uns anos atrás, mas uns tipos de singles estranhos. Eu conheço algumas pessoas que trabalham numa loja de discos onde eu moro, e eu vou lá e eles me perguntam “você já ouviu este single?”. Singles como uma banda chamada The Tights, uma coisa obscura…..e uma banda chamada, eu acho, Bauhaus, uma banda de Londres, é só um single. Não há nenhuma que eu goste completamente e possa dizer “bem, eu tenho todos os discos daquela pessoa, eu acho que é demais” ou “as músicas dessa banda”, é só, novamente, coisas estranhas.

Vocês tem algum plano de tocar fora do país?

Ian Curtis – Nós já temos tocado pela Europa, na Holanda e Alemanha, e nós estamos indo para América. Nós apenas estamos indo por…..eu acho que eles queriam que nós fossemos por cerca de três meses ou então (risos)….mas nós vamos apenas por cerca de duas, três semanas, e a Rough Trade provavelmente vai organizar isso. Eu acho que nós vamos com o Cabaret Voltaire. Eu gosto deles, eles são uma boa banda (risos), eu esqueci deles. Sim, mas, nós tendemos a fazer o que realmente queremos. Nós tocamos as músicas que queremos tocar, e tocamos nos lugares que queremos tocar. Eu odiaria estar em uma gravadora comum onde você lança um álbum e faz uma turnê……e você toca em todos os Odeons e isso e aquilo e todos os outros. Eu apenas não poderia fazer isso. Nós tivemos a experiência de abrir a turnê do Buzzcocks. Foi de realmente destruir a alma…..você sabe……no fim de tudo. Nós dissemos que nunca saíriamos em turnê…..e nós nunca vamos fazer uma turnê…..eu não sei – ou se nós fizermos não vai ser mais longa que cerca de duas semanas.

Qual é o seu tipo de relação com a Factory Records?

Ian Curtis – É muito boa. Tipo de amigos. Todo mundo se conhece. É tudo 50% a 50%. Tudo é dividido.

Não te parece um pouco limitada esta forma da Factory fazer as coisas?

Ian Curtis – Não sei. Suponho que para alguém olhando de fora………eu suponho que realmente é. Quero dizer que você não é pressionado para ter que assinar……como você sabe que é numa gravadora normal – eles sempre estão buscando pela próxima banda para a próxima coisa grande…..você sabe……para ter o recorde de vendas e então promover tudo…mas a Factory só assina com quem eles querem, gravam disco de quem eles querem, fazem as capas que eles querem…..você sabe……como eles gostam de fazer. É só fazer assim. Você pode talvez ter uma espécie de surto e fazer três singles – você talvez não veja mais nada pelos próximos seis meses……você sabe….eu gosto da relação.

Vocês tem duas músicas no terceiro Fast Earcom, não foi isso? Ou foi no segundo Fast Earcom?

Ian Curtis – Sim. Foi no segundo. Sim.

Como vocês se envolveram com a Fast? Uma gravadora de Edimburgo?

Ian Curtis – Sim, isso foi quando começamos a tocar, nós tocamos em algumas datas com o The Rezillos. Bob Last era o empresário deles na época, e ele falou sobre assinar com uma gravadora…..e ele queria que a gente fizesse um single para eles. Mas devido a Factory ter aparecido e umas outras coisas – ele tinha umas coisas com o Gang of 4 e o The Human League primeiro, e tinha algum tipo de acordo para empresariar o The Human League de alguma forma – eu acho que ele empresariou outros – isso nunca aconteceu. Quando nós fizemos o álbum nós deixamos uma boa quantidade de faixas de fora; nós gravamos 16 ao todo, só usamos dez, e nosso empresário, Rob Gretton, tinha falado para ele alguma coisa. Nós sempre mantivemos algum tipo de contato. Ele mencionou a ideia para a Earcom e nós oferecemos duas músicas para ele colocar lá. Nós gostamos de colocar para fora tudo que nós gravamos, de uma forma ou de outra, como nós fizemos com o Earcom. Nós estamos fazendo uma coisa com a Sordide Sentimental, que é uma coisa de uma revista francesa de edição limitada com disco. Há duas faixas que vão ser lançadas lá que não estão em outros álbuns ou singles. É só que gostamos de fazer assim……você sabe……colocar as coisas para fora como nós podemos. De uma forma ou de outra……você sabe….frequentemente isso é difícil com a Factory porque, obviamente, eles são limitados financeiramente. Quero dizer que você não pode simplesmente lançar um música quando se tem outras coisas planejadas. Sendo assim, sem espaço no LP, nós tendemos a olhar para outras formas de vendas. Vê o que nós podemos fazer?

Onde você se vê, ou onde você sente querer estar, quando o Joy Division acabar?  

Ian Curtis – Eu só quero continuar da maneira que somos, eu acho. Basicamente nós queremos tocar e curtir o que nós estamos tocando. Eu acho que quando pararmos de fazer isso….eu acho….bem…..que vai ser a hora de fechar tudo. Isso seria o fim.

Originais

Áudio da segunda parte da entrevista | https://www.youtube.com/watch?v=lbLEh0R9OyM

Texto em Inglês | http://www.joydiv.org/rlinterview.htm

Wikipédia

Ian Curtis | https://pt.wikipedia.org/wiki/Ian_Curtis

Joy Division | https://pt.wikipedia.org/wiki/Joy_Division

Factory Records | https://pt.wikipedia.org/wiki/Factory_Records

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