All Star #35 [conto]

As vezes acho que acredito que todo mundo nasce com um destino traçado. Tipo, independente do que você faça as coisas vão acontecer, de um jeito ou de outro. Aposto minha vida com a Júlia nisso, mas esta começando a ficar difícil de acreditar. Fiquei sabendo que ela esta ficando com um cara que já esta na faculdade. Não conheço o bastardo, e nem estou afim de conhecer. Agora todas as garotas que eu vejo tenho vontade de beijar, só para ela saber como eu me sinto vendo ela com outro cara. Mas acho que ela não vai sentir a mesma coisa. Queria que ela soubesse de tudo isso. Também queria que esta porra de aula de física nunca tivesse começado. A Paula fez um bilhetinho passar de mão em mão da primeira a última carteira até chegar em mim. “Eu e as meninas queríamos ir na sua casa mafu nhacoma hoje a tarde.” “Nem tudo acontece do jeito que a gente quer”; era o que eu devia ter respondido. Mas como um ser humano pacífico e otário confirmei o rolê. Tinha comprado o CD novo do Eagles of Death Metal e queria cantar Now I’m a Fool para a Júlia, mesmo que ela não entendesse nem o porque nem a letra.

Aleguei uma dor de cabeça indecente e fui para casa antes de ter que encarar a aula de biologia. Passei as aulas quase que dormindo, meio longe, sair mais cedo adicionava algum mistério sobre a vida para as meninas. No caminho parei na Curva de Rio Discos para comentar com o Dé sobre o livro do Mutarelli que tinha acabado de pegar. “Será que o cara não tem medo de escrever uma história como essa?” “Medo do que?” “Sei lá. Um policial assassino apaixonado por uma travesti. Eu pensaria que todos os policias do mundo estariam querendo me matar por causa disso.” “Tem muito mais que isso no livro. Esse é só o enredo.” As vezes acho que acredito que todo mundo tem um plano de vingança secreto contra alguma coisa que odeia. Se eu fosse um policial talvez eu odiasse o Mutarelli por ter escreto Miguel e os Demônios. Tenho medo de estar andando com ele na rua e um policial me parar, pegar o livro e dizer: “Porque você esta lendo esta porcaria? Você acha que policial é viado? É isso?” Enfim, como diz o meu avô “até provar que focinho de porco não é tomada o coitado morreu com o choque”.

Quando sai da Curva de Rio vi a Júlia subindo a pé sozinha. Ela também devia ter dado o migué na aula de biologia. Fiquei com cara de expectativa zero esperando ela chegar até mim. Ela também não parecia a garota mais feliz de todos os tempos. “Acho que não vou a tarde na sua casa com as meninas hoje?” Queria ter dito: “Se eu soubesse que você não ia não tinha topado.” Mas saiu só um “Por quê?” murcho. “Não sei, não estou me sentindo bem.” “Fumar um pode te ajudar.” “Não sei. Talvez o problema seja esse. Estou fumando demais.” “Duvido que o problema seja esse.” Falei dando uma risadinha de leve, que ela retribui. As vezes acho que acredito que a vida da uns sinais sobre o destino. Aquilo era um sinal. “Também não ando muito bem, mas acho que não é por estar fumando muita maconha.” “Porque então?” “Sei lá, tudo que eu faço dá errado, não vou passar no vestibular nem para ser lixeiro. Não estou feliz.” “Porque não? Tudo que você faz é legal, todo mundo queria ter uma vida como a sua.” “A grama do vizinho é sempre mais verde, até você perceber que é artificial.” “É. Vou virar aqui. Até mais.” “Beijos! Aparece lá mais tarde….não me abandone.” Falei colocando a mão no peito e fazendo uma cara de cão sem dono. Ela rio e se foi me deixando cheio de esperança.

Cheguei em casa e tirei uma soneca depois do almoço para ver se recuperava o ânimo. Quando voltei a vida pensei que a única coisa que poderia salvar o dia seria a Júlia aparecer com as meninas. Sem ela preferia passar a tarde sozinho escutando um som e viajando na maionese. Coloquei uns clips do Aerosmith na televisão e comecei a bolar baseados em linha de produção. No terceiro a Alina chegou com a Paula. “Meus Deus. Essas meninas dos clips do Aerosmith são demais. Nunca vou ter um corpo assim.” As vezes acho que acredito que todo mundo só pensa em sexo. Tem gente que parece que vai na padaria não para tomar café, mas para ver se acha alguém para transar. Queria perguntar se elas sabiam se a Júlia vinha, mas não queria que elas percebessem que meu único interesse na tarde era esse. “Estamos esperando mais alguém ou podemos acender esse baseado?” “Se mais alguém chegar a gente não pode acender outro?” Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas fazia bastante sentido.

Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza que a Júlia não ia vir. No fim a gente queria a mesma coisa, passar a tarde sozinhos. Ela deve ter conseguido, ou não, o cretino que ela esta ficando poderia estar lá com ela tentando fazer ela melhorar. As vezes acho que acredito que nós dois ficarmos juntos é inevitável, só preciso ter um pouco de paciência. Estava todo mundo em transe com o clip de Crazy. “Como pode a Liv Tyler ser filha desse monstrinho?” “Ele não é tão monstrinho.” Não era a filha dele que a Paula queria ser. “Acho que ela é um tesão.” A Alina não segurou seu lado lésbica e deu uma risada sexy quase interminável. Será que a Liv Tyler tinha uma turma como a nossa? Que passava a tarde fumando maconha e falando de Rock’n Roll? Será que a Júlia esta sozinha? Acendi mais um baseado e me ajeitei na cama como quem vai dormir. As duas entenderam a mensagem e foram embora depois do cigarro pós-baseado.

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