Um dia para cair no esquecimento [conto]

Acordei com dores de todas as formas físicas e psicológicas conhecidas. Ninguém me ama, nem eu. Estou pronto para morrer. Estou pronto há décadas. Por favor Senhor, perdoe minha covardia e acabe com isso. Se as dores no peito não são um sinal claro do fim, o que vai ser? Não sei porque corpo e mente insistem nessa tortura. Parece que centenas de micro aranhas estão arranhando minha garganta e um bando de duendes do inferno estão martelando a minha cabeça. O que mais eu botei para dentro além de bebida? A culpa é dassa porra!

Liguei o rádio e um cronista tosco estava falando alguma coisa sobre viciados em drogas. “Estas pessoas precisam entender que elas não estão aptas a viver em sociedade porque elas não produzem…”. Sempre que escuto coisas assim culpo a comunicação pelos caos social. É muita voz para pouca ideia. Coloquei um K7 velho do Led Zeppelin para tocar e fui para cozinha empurrado pela queimação no estômago.

♫“In my time of dying, want nobody to mourn;

All I want for you to do is take my body home;

Well, well, well, so I can die easy;

Well, well, well, so I can die easy….”♫

Era disso que eu precisava!

Abri a geladeira e me deparei com um queijo velho, leite e um pouco de margarina. Pus o leite no fogo junto com a margarina. O queijo ganhou mais um tempo para juntar mofo. Acendi um baseado e fiquei olhando a margarina derreter e se espalhar pelo leite, depois formar uma deliciosa espuma de gordura com a nata pronta para transbordar felicidade para Gregors por todo fogão. Quando começou a subir na panela desliguei e coloquei numa xícara que tava meio limpa em cima da pia. Me sentia como um americano sentado na cozinha tomando leite com margarina, fumando um cigarro e lendo o jornal.

Trim, trim, trim…..parei de ler e fiquei esperando a secretária eletrônica atender. Sempre me assusto quando o telefone toca. Ninguém nunca me ligou para conversar ou dar boas notícias. “Piiiii………Oi…bom dia…..nós não nos conhecemos……meu nome é Miguel…….sou coordenador do curso de letras na faculdade………….queríamos te convidar para recitar seus poemas……..no nosso próximo Congresso……..meu número é 2 4 5 3 0 4 2……..bem……obrigado.”

É sempre bom saber que se tem para onde correr, mas estou querendo ficar parado no momento. Não lendo o jornal. Passando o olho numa notícia sobre os caminhos para se acabar com a pobreza ficou claro que eu e o resto da humanidade não estávamos vivendo no mesmo planeta.

Virei o K7 e sentei na companhia de um livro de contos do Bukowski. Nós sim estávamos vivendo no mesmo planeta. Entre “Atirei num cara lá em Reno” e “Kid foguete no matadouro” cai no sono dos campeões.

Foram pouco mais de uma hora sem sentir nenhuma das dores da vida. Levantei pensando que precisava de alguma coisa para acompanhar o queijo que tinha sobrado na geladeira, além de cigarro e bebida. Não ia ter como fugir de pisar na rua.

Tomei um banho e fiz tudo que podia para não se parecer com o que eu era. Ser eu sempre torna tudo mais difícil. Ninguém gosta de pessoas como eu. Não consigo disfarçar muito bem que acho que tudo é ruim, que os outros são chatos e os lugares que não são minha casa também não são legais.

Bolei mais um baseado para conseguir suportar a pressão dos olhares na rua e sai rumo ao mercado. As vezes é estranho ver as um exército de carne humana fazendo coisas cotidianas como robôs pré-programados. Levantar cedo, ir na escola/trabalho, almoçar assistindo TV, jantar assistindo TV, dormir assistindo TV. Na maioria do tempo isso não faz o menor sentido. A ideia de viver num mundo onde isso não é o padrão me agrada mais que o atual cenário. Tenho visões em que me vejo tendo impulsos repentinos de gritando desesperadamente que todos parem tudo. Depois caio no chão me retorcendo como plástico pegando fogo. Nem sempre é fácil manter o controle. Não é que não gosto das pessoas, mas prefiro elas longe de mim.

No caminho ainda tive a oportunidade de testemunhar um acidente de trânsito. O carro do direita parou para o que vinha no sentido oposto, na esquerda, atravessar a pista e entrar na rua transversal. O carro que vinha atrás não quis ser tão gentil, e na tentativa de desviar do outro que parou encheu a lateral do que vinha da esquerda. Pensei que a brutalidade do outro transformou a gentileza do um em estupidez, e ainda bem que eu não estava em nenhum carro.

Cheguei no mercado preparado para ser direto e letal. Entrar, comprar o que tinha que ser comprado e sair em cinco minutos, sem precisar falar com ninguém de preferência. Peguei leite, margarina, banana, mais queijo, pão e umas garrafinhas de suco de cevada. Respondi cinco “nãos” para a mocinha do caixa e pedi dois maços de cigarro. Voltei para casa sem precisar usar muito mais que monossílabos para me comunicar. Considerei uma saída de grande sucesso. Me sentia tão feliz e pronto para encarar a vida que o fardo de estar vivo parecia quase como um presente divino.

Ajeitei tudo na cozinha e fui me preparar. Era terça-feira, um bom dia para ir ao bar. Vazio e silencioso. Sem jogo de futebol, sem hormônios desesperados por uma metida, sem papo, sem calor humano. O verdadeiro paraíso. Não há dor que o álcool não possa curar nem tempo que ela não possa preencher. Só precisava de mais um baseado e de escutar o outro lado do K7 do Led que dormi no meio. Não se tinha alguma coisa haver com o alinhamento de Plutão com a Lua, mas o dia estava favorável e nada seria capaz de me deter, mas a campainha tocou seguida do gruindo: carteeeeeeeeiro”. Olhei e vi um envelope sendo arremessado por debaixo da porta. Era o Ministério da Guerra que estava cobrando minhas contribuições atrasadas, e elas não querem receber em poemas contemporâneos realistas marginais, tem que ser em dinheiro. Isso ou uma bala no peito atirada por um extremista qualquer num ponto remoto do mapa. Que merda! Peguei o telefone e liguei para o cretino do recital.

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