Lemmy: “Aparentemente ainda sou indestrutível”. – Michael Hann (2015) [tradução]

Imagem | Wikipédia

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Por Michael Hann

Publicada no site do The Guardian em 13 de agosto de 2015.

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

O líder do Motörhead mudou seu estilo de vida – ele trocou o whiskey pela vodka – em uma batalha pela saúde. Enquanto a banda lança seu 22º álbum, Bad Magic, ele explica como os 50 anos de Rock’n Roll pesado cobraram seu preço.

Lemmy é muito como uma coleção de mitos e lendas, assim como um homem. No imaginário popular ele é feito de partes iguais de Jack Daniel’s, sulfato de anfetamina, memorabilia nazista e barulho em alta velocidade. Os mitos e lendas se ocultam, como não poderia deixar de ser, numa camiseta preta, jeans preto, botas customizadas, o chapéu de cowboy com as insignias “Morte ou Glória” e a Cruz de Ferro no pescoço.

Algumas das lendas tem cansado – ele esta farto de ser perguntado sobre ter sido roadie do Jimi Hendrix, ter sido demitido da Hawkwind – sendo que, no fundo, aparentemente ele só escolheu o tipo errado de droga (speed, preferida mais que os alucinógenos do resto da banda) – e sobre sua coleção de memorabilia nazista (qualquer um que já viu o documentário sobre ele sabe o quão extensa é, sendo possível que a maior parte esteja no apartamento de West Hollywood).

Então aqui estão os mitos: as histórias que circulavam os parquinhos da escola no começo dos anos 80 – que ele tinha feito uma orgia com todas as irmãs Nolan nos bastidores do Top of the Pops; ou que ele não podia parar de tomar speed porque seu corpo poderia entrar em colapso sem isso (“Eu nunca falei sobre drogas”, ele diz, mal humoradamente, quando pergunto sobre).

E há as histórias de quem o encontrou por aí: o integrante de uma banda de rock britânica com um entusiasmo sem igual para químicos, que passou uma tarde inteira com o nariz enfiado no pó com ele no Rainbow Bar & Grill em Los Angeles, jogando Tetris – “Adoro quando jogo por horas…que é quando começam a aparecer as suásticas”, Lemmy é acusado de ter dito.

O Lemmy que sentou comigo esta tarde para promover o 22º álbum oficial de estúdio do Motörhead, Bad Magic, parece desprovido dos mitos, todavia. Em 2013 ele foi submetido a uma operação para implantar um desfibrilador cardiovascular em seu peito, um procedimento que previne que batimentos irregulares se tornem nulos. Então, pouco tempo depois, ele sofreu com um hematoma. No início do ano (2015) o Motörhead foi forçado a cancelar alguns shows depois de ele contrair uma doença gástrica. Quatro dias antes do nosso encontro, quando o Motörhead tocava em Glastonbury, eles tocaram Ace of Spades e depois Overkill, mas Lemmy continuou a cantar Ace of Spades. “Foi um bloqueio mental”, disse ele. “Eu tenho cantado estas músicas por tanto tempo. Foi a primeira vez que cantei Ace of Spades assim, acho. Tocamos na noite anterior e foi do caralho, e eu prometi que não faria isso de novo. Mas nós fizemos. Obviamente.”

Enquanto o uniforme preto esta presente e irretocável esta tarde, Lemmy perdeu muito peso, e parece pálido e cansado. Suas mão não conseguem ficar quietas, e ele diz que esta usando uma bengala estes dias porque “minhas pernas estão fodidas”. Ainda assim ele insiste: “Aparentemente sou indestrutível”.

Ele mudou seu estilo de vida – diminuiu o cigarro à um maço por semana, e trocou o Jack com Coca pela vodka com suco de laranja, o que aparentemente ajuda com a sua diabetes, – contanto que sua maravilhosa assistente troque uma garrafa com 40% de puro açúcar por outra garrafa com 40% de puro açúcar, e que isso realmente ajuda em alguma coisa. “Gosto de suco de laranja de verdade”, fala ele. “E Coca-Cola pode foder com tudo”. Uma garrafa cheia de Absolut é colocada na frente dele para à entrevista, e uma cheia de Jack Daniels é dada à mim – o que parece bem otimista, visto que Lemmy deu um limite de 25 minutos para entrevista, que ele pode estender por cinco minutos se gostar das perguntas (tivemos 33 minutos).

Lemmy se relacionou com a música – através de seus 40 anos liderando o Motörhead, e os 10 anos gastos anteriormente com o Hawkwind, Sam Gopal e Rockin’ Vickers – de forma simples: entrelaçou suas raízes voltando à Little Richard e à primeira onda do Rock’n Roll. Foi essa música que acendeu nele o desejo de transcender sua vida no norte de Gales. “Rock’n Roll soou como música de outro planeta”, ele diz. “No começo dos tempos tínhamos caras como Elvis, Little Richard, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis – todos esses caras. E eles foram embora em dois anos. Chuck Berry foi para cadeia (por atravessar fronteiras estaduais com uma menor de idade e intenções imorais). A carreira de Jerry Lee foi destruída pela imprensa britânica (por se casar com uma prima de 13 anos). Elvis estava na porra do exército”. Ele enumera o começo dos anos 60 e continua somando. “E então tivemos Bobby Rydell e todas aquelas bocetas. Levou uma par de anos para nos livrarmos deles, aí os Beatles surgiram. Então estava tudo certo”.

Lemmy esta no ápice do seu entusiasmo falando sobre as gravações e as bandas que o animaram há muito, muito tempo atrás. Os Birds, as batidas estranhas de Roonie Wood no meio dos anos 60, cujo os arranjos de Motown e o padrão de Leaving Here foram a base dos sons do Motörhead por anos; ou Peter Green’s Fleetwood Mac, com quem ele viajou para conhecer todo país. Ele está detonando as grandes bandas que ele acredita terem traído seus talentos. “O The Who foi foda. Não sei porque eles ainda se dão ao trabalho de tocar sem John e Keith, você sabe? Ele deviam ter parado em 1978”. Ou o Free, “que infelizmente se tornaram Bad Religion. Era Bad Religion? Não, Bad Company. Era uma coisa horrível.” Um dos singles do Bad Company abre com a fala: “Here come the jesters, one, two, three / It’s all part of my fantasy*”, e você pode imaginar o Lemmy escutando isso e perguntando: “Palhaços? Que porra de tipo de fantasia é essa?”

* Trecho da música Rock N’ Roll Fantasy, que abre o álbum Desolation Angels, de 1979: “Aí vem os palhaços, 1, 2, 3 / Isso é tudo parte da minha fantasia.”

Embora o Motörhead seja rotineiramente saudado como inventores do trash metal, não menos pelas bandas de trash metal, Lemmy sempre insistiu que eles são uma banda de Rock’n Roll, não mais do que metal – eles só começaram a se alinhar com o metal no momento dos anos 70 em que se tornaram um sucesso comercial, e eles remaram longe assim. Mas, nos primeiros anos, eles eram mais uma monstruosa versão overdrive das bandas dos anos 60 que Lemmy adorava, fazendo covers de John Mayall’s, I’m Your Witchdoctor; Johnny Burnette’s, Train Kept a Rollin’; e do Velvet Underground, I’m Waiting for My Man, bem como Louie Louie e Leaving Here. Com a banda de metal Girlschool eles tinham um hit que era uma versão de Johnny Kidd’s, do antigo sucesso de Rock britânico Please Don’t Touch. Além disso, eles não emergiram do mundo do hard-rock, mas da cena underground do leste de Londres, que mostrou para o mundo Howkwind, Deviants e Pink Fairies (cujo Lerry Wallis era da primeira formação do Motörhead).

“Eu estava dividido”, Lemmy conta sobre ser uma parte underground e outra parte hard rock, “e então me tornei este monstro. Eu realmente estava em casa naquela cena subterrânea, porque nunca tinha que pagar aluguel. Nós estávamos morando nuns quartos em Battersea quando começamos com o Motörhead. E vivíamos com o Hell’s Angels no mesmo apartamento. Eles sempre estavam por perto.”

O Motörhead foi formado – ele queria estabelecer um equivalente britânico dos MC5 – depois de Lemmy ser expulso do Howkwind, em 1975. Ele foi preso no Canadá por posse de cocaína, que foi considerada como speed, o que livrou ele de uma sentença de prisão. De qualquer forma, a banda se mandou, depois de cinco anos dele cantando seu único hit, Silver Machine. Ele ficou furioso e amargurado naquele momento, mas sua decisão foi o que permitiu que ele se tornasse o Lemmy que o mundo conhece e ama. E ele ainda teve sua vingança. “Voltei para casa nos Estados Unidos e fodi com todas as velhas senhoras. Exceto com o (líder do Hawkwind Dave) Brock. Não poderia fazer isso com ele. Tive bons momentos com todas aquelas gatinhas – elas estavam realmente sedentas”.

As “gatinhas” são um dos grandes bônus de ser um rock star. “Você pega essas andorinhas tão rápido quanto elas vem até você. Aí você ganha um monte de drinks e um monte de presentes. E como isso é bom. Você tem tudo isso de graça – tenho dinheiro agora e nunca vou precisar gastar.” E, para Lemmy, isso tudo nunca foi sobre música, mas nunca foi sobre o resto das coisas também. “Eu realmente não queria ter este estilo de vida sem a música. E eu nunca quis estar na música sem esse estilo de vida”, ele conta.

O Rock’n Roll mudou agora, ele fala. Não é tão divertido quanto era nos dias em que tudo parecia meio caseiro, e as bandas iam há qualquer lugar por 15 minutos de infâmia. Os dias que ele podia passar as tardes indo do Dingwall para o Music Machine, em Camden Town, vendo bandas, conversando com amigos – e bebendo, tomando speed e jogando nas máquinas de frutas – foram tempos gloriosos. Agora, em Los Angeles, ele vai só para suas visitas ao Rainbow – ele vai duas vezes por semana, e não sente falta quando não esta lá.

E, por tudo isso, o Motörhead ressoou distante, uma lembrança dos gritos primais do Rock’n Roll, do barulho estrondoso que uma guitarra, um baixo e uma bateria podem fazer quando todos os seus donos querem fazer “Awop-bopaloobop-alopbamboom”. Morte, diz ele, é a única coisa que pode detê-los. “Contanto que eu possa andar uns metros do fundo para a frente do palco sem uma bengala”, ele fala, e depois ri ofegante. “Ou mesmo que eu tenha que usar uma bengala”.

Texto original | http://www.theguardian.com/music/2015/aug/13/lemmy-apparently-i-am-still-indestructible-motorhead-album-bad-magic

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