Bebida, diversão e balé [conto]

Imagem | Antimidia

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A pressão baixa + o calor + o álcool me fizeram desidratar na cama. Deve ser por esse tipo de coisa que estou fadado a acordar o resto da vida sozinho. Ainda assim me parece mais negócio continuar nadando no meu próprio suor à levantar e encarar a vida com tudo que ela tem para me dar. Não tenho certeza se sou gente de verdade. Me falta vontade. Sobra fobia. Talvez eu seja uma mistura de filho da puta com escroto. O telefone começa a tocar e espero a secretária eletrônica atender. Poderia ter uma versão eletrônica de mim para sair por aí fazendo tudo que eu tinha que fazer. “Você me ligou para encher o saco, não espere que eu retorne….piiiiii……” “Ei! Neb! É o Tony. Me liga quando puder…..precisamos falar sobre o recital na escola das freiras, já é depois de amanhã. Abraços!” Precisamos nascer de novo. Desta vez como o Tom Cruise ou o Brad Pitt. É disso que precisamos. Acabei de decidir que hoje é feriado.

Meu cheiro berrava que eu devia tomar banho, meu corpo pedia um banho, mas eu preferia um café com cigarro e um pouco de rádio. Não tinha uma penela limpa, então esquentei a água numa caneca de alumínio. “(Narrador 1) Em São Paulo a Câmera dos Vereadores vota hoje o projeto que pretende criar um pedágio para pedestres no Viaduto do Chá. (Narrador 2) Além de aumentar a arrecadação da cidade, a polícia acredita que o pedágio pode diminuir a violência na região.” Claro que vai! Quem vai querer andar por lá pagando pedágio? Queimei a mão na hora de pegar a caneca e derrubei água no fogão para terminar de foder com tudo. Salvei o suficiente para uma xícara. “(Narrador 1) Voltou a chover dinheiro no Vietnã. (Narrador 2) Um empresário de Saigon, revoltado, preferiu jogar sua fortuna pela janela à pagar os impostos e tachas bancárias.” No único dia da história que valia a pena estar no antigo campo de guerra americano/soviético, eu não estava lá. Mas é bom fazer umas caminhadas pela Berrini, só para correr o risco. As notícias não estão ajudando. Shhiii…..Shoennn…..innn….“♫ go straight to hell boys; go straight to hell boys….♫” O velho Clash era tudo que queria para embalar minha sesta pós cigarro com café.

Quando pensei que ninguém nunca mais ia lembrar da minha pesarosa existência, a campainha tocou. Fiquei sem me mexer no sofá uns segundos na expectativa de que fosse só um vendedor de bíblia sem persistência. Mas não. A campainha continuou. Depois da terceira vez comecei a acreditar que a alma penada não ia desistir. “E ai? Você é o Neb escritor?” Eram dois estudantes. Ao menos era o que pareciam. “A gente lê seus poemas desde sempre, você é foda!” Estavam carregando um fardinho de cerveja cada um, mereciam alguma consideração. “A gente também escreve, e trouxe algumas coisas para você ver.” “Estão ruim.” “Mas você ainda nem viu.” “Se estiver ruim sou sincero o suficiente para dizer que esta ruim, se estiver bom vou ficar puto porque não fui eu que escrevi e vou dizer que esta ruim. Ainda querem entrar ou só vieram entregar a cerveja?” Os dois passaram pela porta procurando qualquer coisa que pudesse ser descrita como “oh, que legal isso!”, mas eu não tinha nada. Mesmo assim eles pareciam estar descobrindo um mundo novo. “Tem coisa escrita por toda a parede!” “Também escuto esta rádio!”

Peguei três latas e coloquei o resto no congelador. Voltei para sala e um deles tinha acendido um baseado. “Você mora aqui sozinho?” “Tenho alguns Aliens na cozinha, mas é como se eu estivesse sozinho.” “Sua casa é muito louca, dá para ver todos os seus poemas aqui.” Não me senti elogiado, e a linha bate papo fã/ídolo não estava fazendo a cerveja valer a pena. “Não me enche o saco. Se você der sorte daqui a pouco vai estar lendo Kits e Baudelaire, e achando que eu sou só um idiota. Ou você pode começar a ler Augusto dos Anjos e ser um próprio idiota.” Um olhou para o outro sem saber o que fazer. Demoraram uns três segundos para esboçar uma risada. “Você não gosta de nada que é brasileiro, né?!” “Vocês ainda aprendem que o start da literatura brasileira foi a carta de Pero Vaz de Caminha? Por isso que a faculdade de Letras está abandonada.” “Do que você gosta?” “Isso de novo? De nada!”

Depois de me escutarem dizer que a Tropicália foi um movimento de burgueses hipócritas, e rock’n roll é uma atitude que o Elton John nunca teve, os moleques foram embora meio bêbados e achando que eu era quase um herói escondido na jungle. Até queria me sentir bem como tudo aquilo, mas para onde olhava a minha volta havia um sinal claro da minha imbecilidade. Poucos segundos depois que eles saíram a campainha tocou de novo. Pensei que meus fãs iam querer as latinhas que sobraram. Decidi que não abriria a porta. Já tinha pagado o preço do sucesso por hoje. Então escutei uma voz que parecia da Mary me chamando. “Neeeeeb!” Uma boa trepada era algo que não esperava neste dia cheio de indas e vindas, mas……let’s go! Por um segundo acreditei que Deus estava olhando por mim. Abri a porta e me deparei com uma mulher grávida. “Oi Neb.” Ela parecia feliz. Virei as costas, peguei o telefone, e liguei para o Tony.

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