Como mandar dois quarteirões para o espaço [conto]

Imagem | Antimidia

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O cara achava que era o Rambo, com faixinha na cabeça, uma metralhadora e um monte de músculos. Ele parecia não entender que o Rambo era o Stallone interpretando um soldado revoltado, e ele era só um traficante cretino, cercado por nóias imbecis, e tudo que ele sabia sobre coragem era apertar o gatilho. Depois de um tempo comecei a acreditar que estes caras imitam os filmes, que criam esteriótipos que facilitam o trabalho da polícia. E no clima de uma cena de Snatch, o pinto murcho e as bolas furadas saíram de um carro pequeno e batido sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Três velhos gordos, com ternos coloridos, saídos dos fundos da casa do Scorsese, saíram de um sedã que estava alguns metros a frente. Outros dois estavam numa mini van branca parada numa viela um pouco atrás do Cadillac FIAT. Ninguém ali parecia entender muito de negociações escusas em becos esquecidos a meia luz. “Quem é o motorista?” Perguntou um dos italianos, com uma mão penteando o bigode e um trinta e oito tipo Charles Bronson esmagado entre sua barriga e a calça sem botão. O Rambo levantou a mão como um aluno de sétima série respondendo a chamada. “O freio não esta muito bom, precisa de umas duas bombadas antes da Van começar a parar.” O furgãozinho fodido se aproximou e parou do lado deles. “O que vocês tem que fazer é entregar a Van, pega as maletas, e volta, certo?” Todo mundo balançou a cabeça para frente e para trás.

Uma bola furada e o pinto murcho subiram na Van, enquanto o outro voltou para a lata velha e foi seguindo eles. Nossos super-heróis do crime organizado andaram alguns quarteirões no sentido do ponto de encontro dois quando o líder da companhia presepada parou. A bola furada do banco do passageiro desceu e veio na direção da outra, que não entendia nada do que estava acontecendo e não tirava a mão de sua arma. “A gente estava pensando, e é melhor você ir na Van. Eu dirijo melhor que você para a fuga.” “Que? Você esta com medo e quer ficar no carro…..já esta tudo acertado, eu venci o par ou ímpar.” “Você também já atirou. A gente precisa de alguém experiente na linha de frente.” “Atirei porra nenhuma. Já disse que não fui em que acertou aquele policial no assalto do motel. Eu sai correndo pelo mato.” Os dois ficaram ali debatendo enquanto o mundo girava, e uma moto virou a esquina a toda velocidade. Os atiradores frustrados apertam suas armas entre os dedos enquanto o motoqueiro passou sem ter ideia do quão esteve tão próximo de duas amebas. “Puta que parei! Isso não vai ficar assim! Vou querer um pouco da sua parte!” O motorista sai esbravejando para virar passageiro.

Ainda assim os três patetas tinham algum tempo, e antes de chegar ao destino da mercadoria houve uma parada para ir ao banheiro num posto de gasolina. “Ei, é droga mesmo que a gente esta carregando? As caixas são grandes, e não parecem pesadas.” “Eles falaram que era. Agora que você quer conferir?” “Não vou mexer em nada, não. Vamos acabar logo com isso. Quero a grana.” O carro parou na esquina da entrada do beco, enquanto a Van entrou, e precisou de doze manobras para conseguir fazer a volta e estacionar de frente para saída. “Vai ficar mais fácil para eles saírem depois.” Alegou o pinto murcho, enquanto a bola furada reclamava do barulho que o motor daquela joça fazia. Enquanto o pinto murcho apertava sua faixinha na cabeça, e incorporava toda a inteligência de castor do Rambo, um carro preto brilhando entrou no beco. As mulas olharam uma para a outra e desceram da Van. Quatro engravatados vestidos como o Will Smith em MIB saíram das quatro portas que se abriram sincronizadamente. Os dois do banco detrás carregavam as maletas. Os outros dois começaram a avançar na direção dos dois ladrões de motéis. “Calma aí parceiro. Quero falar com os dois das maletas, fica paradinho aí.” “Precisamos conferir a mercadoria.” “Tudo bem. Um de vocês dois vai lá com meu amigo ver. O outro continua longe.” Um dos MIB começou a andar na direção do pinto murcho, que olhou para o Rambo como quem berrava: “não quero abrir aquelas caixas!” O Rambo fez cara de bom senso, e um sinal com a arma, para que ele fosse.

Quando a porta do forgão se abriu o pinto murcho liberou a passagem para o MIB entrar como se dissesse: “não quero saber o que tem aí.” O MIB entrou, abriu a tampa das caixas sem nenhum esforço, checou tudo, e saiu. Depois indicou com a cabeça para os outros que estava tudo como o planejado. Os MIBs das maletas se adiantaram e as entregaram para a dupla dinâmica, e elas sim estavam pesadas. A bola furada não estava preparado para aquilo e deixou a sua cair no chão. O barulho seco e duro chamou a atenção de todos, que prontamente mostraram suas caras de “meu Deus fodeu!”. Com as duas mãos para cima, e se preparando para ser fuzilado, ele se desculpou e com as mesmas duas mãos, e muito esforço, pegou a maleta. “Cuidado com o freio desta Van, precisa dar umas bombadas antes de parar”, ele ainda falou. Van e carrão preto saíram como se não tivesse trânsito. Rambo e o fracote entraram na lata velha desconfiados do peso da maletas. “Devíamos ter conferido o que tinha dentro delas como os caras. Você é muito burro! Não é dinheiro que tem aqui!” “Porque você não falou isso na hora, gênio?” “Porque não era você que estava no comando, chefe?” “Ei! Vocês dois! Vejam o que tem nas maletas.” A bola furada que tinha ficado no carro resolveu que queria provar o seu valor. O trinco era simples, e eles deitaram as duas maletas no banco de trás e abriram elas simultaneamente. Tinha alguns fios, ligados a outros fios e uns blocos que pareciam massinha. Os três se olharam e o pinto murcho sentenciou. “Vamos nos livrar disso e pegar nosso dinheiro.”

No ponto de encontro um, os carcamanos do Scorsese já estavam esperando eles quando a lata velha apontou na viela. Os quatro rechonchudos italianos, e seus trinta e oitos de Charles Bronson, desceram do Cadillac FIAT rindo. “Ma que….não falei que eles eram bons. Dá o dinheiro deles que eles merecem Vini”. Do outro lado o pinto murcho, inflamado pela faixinha do Rambo, se postou a frente das bolas furadas, que seguravam cada uma uma mala. “Eu achei que estávamos aqui tratando de negócios, drogas, e não bombas. Para carregar bombas eu cobro mais.” Os bigodudos italianos não estavam mais rindo. “Te contratei para entregar uma Van e me trazer duas maletas. O resto não é problema seu. Vamos acabar com isso e comemorar o sucesso do nosso negócio com fettuccine e vinho.” Então o Rambo soltou um peido que inchou sua calça de couro. Os carcamanos dos Scorsese se assustaram e começaram a atirar a esmo. O Rambo foi o primeiro a cair cagado e cheio de bala. Se o Stallone visse teria vergonha de si mesmo. O pinto murcho que, supostamente, sabia atirar, se jogou no chão e começou a chorar. Algum dos carcamanos gritou “cessar fogo, porra!” Mas ninguém escutou. O pinto murcho cagão ergueu a maleta na altura do peito para se proteger. Uma bala perdida acertou a maleta e dois quarteirões inteiros foram varridos do mapa.

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