De cara para o mar [conto]

Imagem | Antimidia

Imagem | Antimidia

A torneira da cozinha…ping…ping…ping…a cada religiosos três segundos. Eram 10:15 P.M. Ele estava sentado numa cadeira de madeira olhando o telefone. A cada estalar de plástico com ferro ele esperava o trim. Era sábado a noite. Todo mundo que é legal tem alguma coisa para fazer e um lugar para ir. Os meninos estavam se divertindo com as meninas numa sala pequena com luz estroboscopia e música ruim. E se ele não estava lá era porque ninguém gostava dele. Porque ele chorou quando ela disse que ele estava confundindo as coisas. E garotos não choram. A pressão parecia vir de todos os lados e só um trim poderia aliviar todo o peso do fracasso nas costas já caídas. Entregues ao acaso do destino. Podia ser qualquer um para fazer qualquer coisa. Naquele momento era mais importante entrar no trem do que o caminho que ele percorreria. Ele poderia cruzar florestas de natureza morta cobertas por nevoeiros densos, costurando a esperança entre árvores secas e o uivo de cães famintos. Ou podia só se desintegrar no infinito.

Tudo parece estar acontecendo ao mesmo tempo. Uns estão com a galera bebendo no bar, os outros comendo pizza com o pessoal, tem a festa no clube. E ele continua lá, com uma luz de 60 watts iluminando uma sala vazia e melancólica. De sonhos esquecidos num quarto de veludo azul e vermelho. Sempre a mesma coisa e do mesmo jeito. E do fundo vazio da consciência uma voz rancorosa começa a murmurar você sempre esta errado. Quando não quis passar o Natal na casa do Tio Cláudio. Quando fumou maconha com os marginais na rua de baixo. Quando achou que já podia cuidar de tudo. Você esta sempre errado. O mundo parecia uma boate fechada cheio de pessoas dançando numa festa muito louca em que ele não podia entrar. Porque estava esperando o telefone tocar. Esperando alguma coisa acontecer. Uma luz brilhar no horizonte e iluminar o caminho que ele sabia que estava lá. Mas ninguém lembrava daquela alma esquecida apodrecendo com os mesmos sonhos de uma criança que assiste o desfile de carnaval pela televisão. Coberta com uma massa de indiferença sobre uma pele triste e enrugada pelo tempo. Como um jardim de inverno numa ilha tropical paradisíaca.

Foram anos de empurra empurra estúpido. Não ligo se você não liga. Não quero se você não quer. Não vou dizer se você não disser primeiro. E todos os segredos de todas as vontades que nunca se realizaram não querem mais ficar trancados numa sala escura e esquecida. Elas querem sair e ganhar o mundo para trazer tudo de volta. Uma segunda chance para todas a chances perdidas. Para poder cantar como dois gatos perdidos numa noite de sexta-feira santa. Revirar latas e chutar botas por todos os becos mal iluminados da cidade. Ver o tempo passar pelos fins de semana jogados entre a sarjeta e os bancos de praça. Sentir a explosão de vermelho de um pôr do sol de outono preencher todo o espaço em branco da cabeça. Ser tão inocente quanto um sorvete de chocolate numa tarde quente de domingo. Mas o barulho, as vozes, o telefone desfocado e quieto gritavam que ele não era um vencedor. Que ele tinha sido o último a ser escolhido na educação física e ia ser o goleiro. Achincalhado, zuado e humilhado porque ele era ruim.

E todos os sucessos possíveis passaram pela sua cabeça. Astro do rock, pintor abstrato, escritor marginal, teatro do oprimido, malabarista de circo. Sempre foi uma questão de tempo, um tempo que nunca chegou. Você isso, você aquilo, você nada. Nadou, nadou, nadou e morreu muito distante da praia. Passou por tudo que passou, viveu tudo que viveu, viu tudo que viu, para acabar com os braços apoiados na mesinha do telefone esperando uma ligação com dez anos de atraso. Sem casa bonita, sem carro novo na garagem. Longe de ser o que seu pai sonhou para ele quando ele era só um menino gordinho que não dava trabalho. Imergido em um silêncio trêmulo e doloroso. Com uma arma carregada apontada para sua cabeça a todo momento. Seguindo ele para onde fosse. Empurrando tudo para o abismo mais e mais rápido. Afastando qualquer coisa que pudesse significar a mais remota possibilidade de mudança. Andando por estradas de terra batida com pegadas só de ida. Afunilando todos os sentimentos num buraco negro de arrependimento e solidão que não tinha fim.

Esperando o telefone tocar, ele se sentia tão velho. Como se não houvesse mais tempo e o jogo tivesse acabado. E ele tivesse perdido. De goleada. E ele queria nunca ter chorado, nem estar errado, nem ter dito que não tentaria de novo. E ele tentava enxergar caminhos, desenhar qualquer coisa bonita. Mas tudo era sombrio e triste. E ele queria que tudo fosse como antes. Em noites como estas cada movimento, cada pensamento, pode ser o último. O amanhã é algo tão longinquo que pode nunca chegar. Tudo e nada se misturam como um amontoado de vida que não valeu a pena. E o telefone tocar ou não já não faz mais diferença. Não era compaixão que ele queria. Não era respeito nem mudar tudo. Porque, mais uma vez, ele ia provar a todos que jamais seria esquecido. Que as atitudes não tinham sido em vão. Então ele saiu e foi para um canto deserto da praia, perto das pedras. Ficou olhando o horizonte escuro em busca de uma sinal. Um casalzinho de árabes saiu do meio das pedras feliz e contente depois de um momento sob o luar. Ele matou os dois.

Anúncios