Os abutres e a carne fresca [conto]

Imagem | Antimidia

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Porque ele não tinha a menor idéia do que fazia em mais da metade do tempo, e achava que não tinha nada à perder, ele só foi lá e fez, mas a Márcia, o Renato e a Paula não guardaram segredo, e agora o Cenora tinha muito a perder. Porque na educação física ninguém nunca queria ele no time. Porque quando te escolhem primeiro significa que você é o vencedor, e o último é o último, e ninguém escolheu ele, e a diretora queria falar com ele depois da aula, e a professora estava tratando ele diferente, disse que ele não precisava jogar e podia ficar olhando do banco. Como se ele fosse o próprio Renton, destinado a um fim triste e esquecido. Como em Kids, quando os esqueitistas ficam com as garotas bonitas e felizes. Quando ele falou para a Márcia, o Renato e a Paula que tinha conseguido a maconha todos acharam legal, mas ninguém sabia o que fazer com aquele montinho de mato prensado. Porque tudo que eles sabiam sobre maconha tinham visto nos programas da History e da Discovery. Porque era só enrolar, fumar, esperar o mundo começar a mudar de cor e a polícia chegar, atrás da quadra, na hora da saída, enquanto tiver todo mundo lá no portão. Como a Márcia tinha asma e o Renato e a Paula estavam com medo, só o Cenora fumou. E agora ele era o garoto estranho drogado da oitava série, pronto para pegar uma arma e sair atirando para todos os lados porque ninguém gostava dele e um monte de gente chamava ele de lorpa. E a velocidade da informação + o facebook + a falta do que fazer de quem não faz nada tinham colocado ele no topo do trending topics da escola. Porque para ele tinha sido legal, e ele era o maior de todos, e não falava nem que sim nem que não, só dava uma risadinha enigmática. Porque o Cenora não tinha a menor idéia do que tudo aquilo significava ele se sentia um astro. Como em Hollywood quando os artistas entram no tapete vermelho e todo mundo quer tirar fotos e fazer perguntas e estar ali com eles. Mas agora ninguém queria saber como tinha sido, nem se ele tinha mais, nem se ele ia atrás da quadra todo dia. Por causa do que a Márcia, o Renato e a Paula disseram, que ele tinha dado um trago e tossido tanto que caiu rindo, e os três foram embora assustados e não fumaram. E o Cenora jogou o que sobrou fora porque pensou que já estava muito louco, e o jardineiro achou aquela coisa e levou para a conselheira que descobriu tudo. E agora ele não jogava bola, ficava sentando num canto esperando alguém dizer qual era o próximo passo. Porque ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, e estava gostando de ver todo mundo cochichando e olhando para ele, ele não dizia nada, apenas sorria. Quando ele entrou na sala da diretora a professora também estava lá, e a conselheira, e o seu pai e a sua mãe, sentados com cara de que o fim do mundo era só questão de mais uns tragos, e o Cenora pensava em como foi difícil quebrar aquele mato, e que a folha de caderno não queria grudar uma na outra, e que a folha começou a pegar fogo, e ele sentiu a mão queimando, e engoliu aquela fumaça, e tossiu tanto que perdeu o ar e ficou tonto e caiu. Porque tudo era uma questão de ver o mundo com a mente aberta. Como o Russell Hammond em Quase Famosos ou as músicas do Planet Hemp. Porque a diretora disse que a maconha é só o começo, e que se eles perdessem o controle agora perderiam para sempre, e a mãe dele começou a chorar, e o pai balançava a cabeça, e a conselheira queria saber se ele tinha conseguido aquilo dentro da escola. E o Cenora não estava mais no tapete vermelho, e ele não sabia o que dizer e começou a chorar e correu para abraçar a mãe dele, que chorava também, e agora o pai dele chorava, e a conselheira e a diretora colocavam a mão no rosto e olhavam com compreensão. Porque Cristiane F. não é só um filme barato de trinta anos atrás, é a verdade, é o que acontece, e a mãe dele via acontecer todo dia no programa da Márcia Goldsmith, e o pai dele tinha um primo que estava preso que tinha começado igualzinho. Como todos aqueles rockeiros drogados que morreram com 27 anos porque fumaram um baseado na escola. E tudo porque ninguém fez nada no começo, e eles iam fazer. Porque o Cenora precisava entender o quanto aquilo era horrível e o quão perto ele estava do abismo. Porque a Márcia, o Renato e a Paula tinham sido amigos dele contando tudo para a diretora. Porque todo mundo só queria o bem dele. Porque ele tinha uma vida inteira pela frente. Porque ele era inteligente, legal e bonito. E por causa disso ele ia só tomar uma suspensão, e tinha que ir na psicóloga, e não ia poder mais jogar video-game, nem sair do eixo escola-casa / casa-escola, nem ia para a Disney nas férias, nem ir no clube no final de semana, e ia ter que dar a senha do facebook para o seu pai, dormir cedo, levar o cachorro para passear e limpar o quarto o resto do ano.

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