It’s only rock’n roll [conto]

Imagem | Antimidia

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[Sentado na escrivaninha.]

É a porra de um trabalho criativo. Todo mundo diz que sou criativo. Então eu devo ser criativo porra! Você faz em cinco minutos e um baseadinho! Ele devia ter falado: “Não quero pagar ninguém para desenhar esta merdinha que qualquer idiota pseudo-artista de bosta pode fazer, e você é um idiota pseudo-artista de bosta.” A tela do computador em branco, a conta no banco em vermelho e minha mente puta da vida. Tô desde as sete da manhã enterrado nesta cadeira esperando uma ideia. Baseadinho, tirinho, golinho e nada de nada. Continuo tendo que ir trabalhar de garçom sempre que tem trabalho, e preciso que tenha trabalho todo dia se quiser continuar reclamando dessa vidinha cretina com o aluguel em dia. Nem tão cretina, a noite de ontem valeu tanto a pena que ainda não acabou. A Alessandra podia brigar com o namorado mais vezes. Abre aqui, estica lá, pula, e o Kama Sutra é literatura juvenil para ela. Dane-se este role, mais uma vez. Vou dormir.

[Dormindo.]

Zzzzzzzzzzzzzz.

[Telefone tocando.]

“Hã?”

“Ei mano, beleza? É o Glauco.”

“Hã?”

“Você ta dormindo?”

“Hã?”

“Já são três da tarde! Levanta aí!”

“Hã?”

“Cara, preciso da ilustração para mandar imprimir o flyer. Você não consegue me mandar até o fim da tarde?”

“Acho que não cara. Desculpa aí.”

“Ajuda aí velho……é um projeto cultural legal, tem gente boa envolvida, uma galera vai ver seu trampo, vai ter os créditos certinho……vou espalhar pela cidade inteira.”

“Cultural?…….Não tem nada de cultural para o dono do bar que vai rolar o bagaço, nem para quem vai estar lá enchendo a lata, nem para a gráfica que vai imprimir o flyer, nem para a banda que vai ficar com a portaria, nem para você que esta juntando dinheiro para ir trabalhar em Dublin, tá todo mundo ganhando algum.”

“Se não esta bom para você tudo bem. Desculpa te acordar.”

“Fica sussa. Desculpa aí.”

“Falô.”

“Falou.”

[Dormindo.]

Zzzzzzzzzzzzzzz.

[Telefone tocando.]

“Hã?”

“Bom dia querido. Também acordei só agora.”

“Ainda não acordei, baby.”

“(risadinhas) Você vai trabalhar no bar hoje?”

“Não, hoje vou servir alguma coisa estranha num restaurante indiano.”

“Posso ir lá?”

“Se você gostar de curry.”

“Bobo.”

“Que horas são?”

“Cinco e meia.”

“Preciso estar lá as sete. Saio um pouco depois da meia noite.”

“Eu passo lá depois da aula.”

“Beijos.”

“Beijos na sua orelha.”

[Tomando banho.]

Is it my imagination

Or have I finally found something worth living for?

I was looking for some action

But all I found was cigarettes and alcohol…”

[Metrô.]

Próxima estação, Vila Madalena.”

[Trabalhando.]

É a porra de um trabalho escravo. Arrumar mesas, carregar estas bandejas fedorentas, escutar o papo escroto destes cretinos que vêm aqui, limpar banheiro sujo. Tudo pela fortuna de setenta pilas. É a porra de um trabalho escravo. Não gosto de foder só com os imbecis que comem aqui, adoro foder os donos desta pocilga fedorenta. Hoje a Alessandra não vai pagar a conta e vamos ter bebida boa para noite. Já aquele engomadinho com cara de idiota e a sua namoradinha nariz empinado vão achar que comeram curry demais. Laxante neles. Valium para o chefe pai chato ficar calminho e fechar cedo. Foi junto com o primeiro chope que aquele monte de estrume pediu. Esta tudo armado para sair daqui e ir correndo para casa com a Alessandra e ver o que ela tem à ensinar esta noite. Separei um docinho para colorir a vida. E vamô que vamô. Ela já esta me esperando no estacionamento com um baseado.

[Dentro do carro esfumaçado.]

“O que são estas garrafas batendo na sua mochila?”

“Temos uma legítimo Bhang e um Black para hoje. Vamos para casa, tem mais uma surpresinha lá.”

“Surpresinha?”

“Tenho um doce que sobrou de uma role da semana passada e colchão d’água.”

“(risadinhas) Você vive de ficar louco?”

“De transar também…”

“(risadinhas sacanas) Gostoso este restaurante. Não conhecia.”

“É, a comida é boa. O que você sabe sobre a Índia?”

“Que lá tudo é meio sujo.”

“Cuidado, tem gente que pode dizer que isso é cultura e que você é preconceituosa.”

“Meu Deus, como as pessoas são hipócritas!”

“É baby, na China eles comem cachorros.”

“Ainda bem que não estamos na China.”

“É, mas aqui também esta cheio de chinês.”

“Vamos parar em algum lugar ou vamos direto para sua casa?”

“Vamos pegar cigarros em algum posto, os meus estão acabando. Você quer bright?”

“Pode ser também.”

“Então vamos dar uma paradinha rápida lá na República.”

[Curtindo a noite adoidado pelados.]

Traficante filho duma puta, os dois pinos tavam pela metade. A Alessandra não aguentou nada esta noite. Nem uma fodinha. Não aguento mais ficar aqui olhando ela acabada e pelada. Estou fissurado com só meia garrafa de Black e ela tá estatelada no colchão d’água. Acho que foi o Bhang que fodeu com tudo. É fraquinho, ela tomou como se fosse chá de camomila. Porra! Não sobrou nem um tirinho e o sol já tá nascendo. Acabou o cigarro. Será que tem um baseado em algum lugar por aqui? Porra! Não acredito que vou ter que sobreviver a esta merda de noite fumando umas pontas. Vida maldita! Parece que este computador fica olhando para mim e gritando: PRODUZIR! PRODUZIR! PRODUZIR! Vai se fodê! A única coisa que vou produzir é remela de nariz.

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