Fim dos meus dias [conto]

Imagem | Antimidia

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Love In Vain. Rolling Stones na veia. O momento é: um pufe, um baseado, uma dose de whiskey barato e um dia com o qual poderia viver o resto da vida sem ter vivido. Neste momento Love In Vain é mais que uma música, quase faz valer a pena. Em seis minutos começa Wild Horses, com a brasa queimando lentamente e o liquido escorregando pela garganta.

O pufe. Por qual motivo me levantaria do almofadado pufe? Para pegar cigarros. E você descobre que o mundo realmente gira. E a esperança se acende no monitor do computador em branco. Trabalhar, tenho que trabalhar. As vezes penso demais. Deveria me divertir. Fazer alguma coisa legal. Tipo andar de buggy na praia com um monte de garotas bonitas e felizes e depois fazer uma suruba.

Um chuveiro. Um bom banho resolveria alguns problemas. Bom banho. Que falta sinto deles. Um chuveiro jorrando água quente. Um sabonete macio deslizando no meu corpo molhado. O cheiro do xampu. A água batendo na nuca. Tenho uma goteira morna. Olhando por um certo ponto de vista, poderia ser pior.

O sofá. Deitado nele rezando para que os minutos não passem e o amanhã não chegue. Mas o relógio é religioso. A música acelera o tempo. Uma palavra define o que pensei nas últimas duas horas: nada. A única coisa compreensível que passou pela minha cabeça neste tempo foi: “Poderia estar fazendo algo de útil.” Seguido por: “Que bom que não estou.”

Esta frio. Me enrolo nos cobertores e desabo no colchão que esta na sala. Ando dormindo na sala nos últimos dias. Fica mais perto da porta para sair de manhã. E mais perto dela quando chego a noite. Ligo a TV. Imediatamente vejo uma loira, de parar o trânsito, com um microfone na mão. Penso: “Ufa, ainda bem que está no mudo”. Tem uma morena num outro canal. Agradeço mais uma vez o mudo. Santa invenção. Um controle remoto com um botão que faz com que a televisão se cale. A televisão fica muito mais interessante quando só se vê, e se escuta Angie.

Banho fatal. Prezo pela minha higiene mesmo que não pareça. Não aguento mais sentir meu cheiro. Vou encarar o regador entupido. Fecho tudo, o menor vestígio de vento gelado pode ser sentido do banheiro. Meu banho demora cerca de dez minutos. O alto tempo se deve a dificuldade em molhar todo o corpo.

Comer. Isto implica em fabricar sujeira, e trabalho doméstico. Mas a barriga grita que tenho que me alimentar. Não sei o que corrói meu estomago: a fome ou o álcool. Quero algo simples e não tenho nada mais complexo. Pão velho na chapa com manteiga e um copo de leite. Rápido e prático. Nada mal. Quase nada sujo. Tem muito nada acontecendo ultimamente.

O computador. O maravilhoso e supremo computador. Ele consegue te fuder em duas frentes com um só golpe. Na conta telefônica e de energia. Já é meia noite. Nem vi o tempo passar. Estou uns cinco reais mais fodido. Oito se for contar a geladeira. Não ganhei nada desde que pisei em casa. Amanhã arrumo alguma coisa e na soma total tiro uns trocados.

Notícias! Começou o jornal. As manchetes me confirmam: odeio o governo. Este, o passado e muito provavelmente o próximo. Os gols, quero ver gols. Agora tem jogos de segunda. A semana do cara já começa uma bomba. As notícias pioram tudo. Mas no final se o time dele ganhou esta tudo superado. Já reparou que o jornal sempre termina com notícias relativamente boas?

Fim da linha. Volto ao colchão. Chego a conclusão que não deveria ter deitado nele com a roupa que passei o dia. Talvez não devesse ter levantado de manhã. O cheiro impregnou. Eu realmente estava fedendo. Dou uma cochilada e faço mais um buraco no lençol. Jogo o cigarro no cinzeiro e apago. Com a boca aberta. Como uma criança.

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