Cab Calloway: O recluso e o showman – Tessa Melvin (1992) [tradução]

Por Tessa Melvin

Publicado em 14 de junho de 1992 no jornal The New York Times

Tradução | Eder Capobianco Antimidia

GREENBURGH – Quase todas as manhãs ele senta em seu jardim para ler o diário matutino The Daily Racing Form. O sol reflete em seu medalhão de ouro, sempre lá, pendurado em seu pescoço, com inscrições dos versos da canção “St. James Infirmary”: “Put a $20 gold piece on my watch chain, so the boys’ll know that I died standing pat.”* (Coloque uma peça de ouro de $20 na corrente do meu relógio, assim os garotos vão saber que morri de pé.)

Como se aproxima de seu 85º aniversário, Cab Calloway usa o medalhão perto do coração, mas como a maioria dos assuntos pessoais da vida, intensamente privada, deste renomado músico de jazz, o medalhão não está aberto à discussão. O maestro da banda oferece um olhar interrogativo quando perguntado sobre isso, mas não diz nada, e volta ao estudo dos cavalos.

A maioria das tardes ele pega seus binóculos, monta no antigo Pontiac sedã e segue para o Yonkers Raceway. Uma figura solitária que vai passar as próximas horas sentado em um banquinho de bar na pista do Empire Terrace, absorvendo toda a ação.

Uma pessoa diferente no palco

Ah, mas à noite, no palco mais uma vez – torna tudo diferente. O lendário animador se metamorfoseia no homem “Hi-De-Ho” que ele tem sido há 60 anos, exibindo seu sorriso deslumbrante e balançando surpreendentemente rápido com seus movimentos típicos. O balanço pode ser um pouco mais lento, mas a voz é surpreendentemente forte e ressonante, soando como nas gravações feitas 50 anos atrás.

Amanhã à noite os fãs do ritmo terão a rara oportunidade de ouvir o performático Mr. Calloway em Westchester, em uma abertura beneficente para celebração do aniversário de dez anos da Nova Orquestra de Westchester. “Cafe Society on the Town”, da Universidade Estadual de Nova York, em Purchase, contará com a performance de Mr. Calloway assinando canções como “Minnie the Moocher” e “It Ain’t Necessarily So.”

O evento começa às 18:30 com um jantar, seguido da apresentação as 20h. Os ingressos podem ser obtidos pelo telefone da Nova Orquestra de Westchester: 682-3707

“Ele é duas pessoas”, diz Nuffie Calloway, sua esposa, de 37 anos. “Em casa ele é um recluso que vive em seu próprio espaço. Mas andando num palco é outra pessoa.” Quando ele sai do seu camarim, diz ela, “é inevitável: ele coloca o pé para fora e recebe os aplausos de todo antes de abrir a boca.”

Em casa, suas cinco filhas apelidaram o pai, que raramente da um sorriso, de Chuckles. As crianças são todas dedicadas ao pai tímido e sensível, conta a Sra. Calloway, mas ele descreve seu marido como um homem que todos respeitam, mas nem sempre endentem.

O medalhão, diz ela, foi um presente para seu marido da filha Lael, enquanto ele se recuperava de uma cirurgia de emergência de peritonite.

A volta ao lar é sempre uma volta para os páreos. “Eu odeio cavalos,” conta Mrs. Calloway, “mas isso é o que o mantêm a sanidade dele. Se alguma coisa incomoda ele, ele pode trancar-se nisso.”

O que incomodaria este homem, que criou sua reputação como cantor e líder da Big Band no Cotton Club, e tocou com músico como Milt Hinton e Dizze Gillespie? “Nada me incomoda,” diz ele enfaticamente. “Nunca tive medo de alguém ou alguma coisa em toda a minha vida.”

Mr. Calloway caminha lentamente, e nem a idade, nem cantar um tom menor, nem suas memórias, o abandonaram. “Eternamente. Eu vou cantar para sempre”, diz ele em uma rara explosão de entusiasmo. “Você nasce. Você vive. Por que não viver para sempre?”

Depois que os gostos musicais do país seguiram outra direção, Mr. Calloway, cujo filme favorito tinha Lena Horne, “Stormy Weather”, descobriu uma nova carreira como ator. Ele se imortalizou no papel de um esportista em “Porgy and Bess” – um personagem que Calloway, em sua autobiografia de 1976, “Of Minnie the Moocher & Me” (Crowell), disse que foi baseado em sua própria vida extravagante – e contracenou com Pearl Bailey na primeira versão negra de “Hello, Dolly!”

“Eu estou cantando respeitavelmente por 63 ou 64 anos”, declarou. “Eu treinei! Um cantor treinado nunca perde sua voz.” Quanto de prática isso envolve? “Eu não tenho que praticar; eu sou perfeito,” diz Mr. Calloway. “Eu poderia treinar agora”, aponta o dedo no ar para dar ênfase. “Eu faço isso a tanto tempo, e se não posso sair e fazer isso agora, então estou acabado.”

Sendo uma lenda viva, que pode ser opressiva, Mr. Calloway concede um raro momento de reflexão durante uma relutante entrevista em sua casa. Ele segue uma rotina que aparentemente pode esgotar um homem com metade da sua idade – na próxima semana ele sai para uma turnê de um mês por festivais europeus de jazz – mas Mr. Calloway diz, “Tenho que me limitar.” Mexendo numa pilha de correspondências que esta quase caindo no chão do escritório, ele balança sua cabeça cheia de cabelos brancos ondulados e comenta: “Por todo o país há pessoa me pedindo a doação de alguma coisa, pedindo uma mecha do meu cabelo.”

Mas “seu eu gostar eu faço”, diz Mr. Calloway, e ele gosta de Paul Lustig Dunkel, o maestro fundador da Nova Orquesta que também é, talvez mais importante, seu companheiro de páreos, um que se atreveu a se apresentar para ele quando se cruzaram nas pistas tempos atrás.

“Estou fazendo isso pelo Paul”, diz ele sobre a apresentação de amanhã no SUNY Purchase. Girando sua cadeira em na direção do maestro, que esta lá para um visita, ele sussurra do palco: “Fique atendo ao quarto páreo.”

Quebrando a barreira da cor

O que poderia incomodar este nativo de Baltimore, que se tornou um dos maiores showmens do país, que decidiu quebrar a barreira da cor em 1931 quando se atreveu a não ter a postura de um negro no extremo sul? Relegado a ônibus velhos, barrado em certos restaurantes e banheiros, enfrentando platéias brancas hostis, a banda tocou. Sob o comando de Calloway, voltaram um ano depois de saírem de cidades especialmente inospitaleiras.

Os tempos mudaram, e a forma como Mr. Calloway vê a isso também. “Raça é a última coisa que passa pela minha cabeça”, ele diz. “O preconceito foi mais proeminente no meu tempo do que jamais será”.

A Sra. Calloway conta alguns dos detalhes. “Este homem pode mudar qualquer coisa”, ela diz, “mas ele não pode esquecer suas memórias.” Há um buraco na cabeça do meu marido do tamanho de um quarteirão, ela conta, resultado de uma agressão de uma policial na cidade de Kansas.

“Lionel Hampton estava tocando”, ela relembra. “Cab comprou um ingresso, mas tudo que ele queria fazer ela ir nos bastidores ver seu amigo.” O policial parou ele.

Concentre-se no positivo”

Depois disso, a National Association for the Advancement of Colored People quis instaurar um processo. “Cab dizia que não queria ir afundo nisso”, conta Mrs. Calloway. “Porque? Eu não sei. Existem muitas coisas sobre este homem que eu não sei.”

Seu marido oferece um ponto de vista. “As realizações dos negros desde que houve a abolição são enormes,” comenta Mr. Calloway. “Olhe para seus negócios. Leia Jet. Você pode ver empresas de Negros em toda parte do país. As pessoas devem se concentrar no positivo.”

Hoje, os negros tem muitas oportunidades para realizar o American Dream como qualquer outra pessoas, ele diz, adicionando: “Vão para o colégio. Terminem os estudos.”

Um dos nove netos do Mr. Calloway trabalha no Kidder Peabody, um banco de investimentos. “Ele trabalha em Wall Street, e ele está lá há cinco anos,” conta Mr. Calloway. “Qualquer um pode fazer isso. Milhões conseguem isso.”

Ele esta sempre observando alguém próximo a ele que não segue suas regras. Quando Chris Calloway veio para casa, depois de três semestre na Bostan University, e disse a seu pai que estava desistindo da faculdade para seguir uma carreira artística, relembra a Sra. Calloway, “Ele atirou a televisão nela.”

Ele não acertou, e sua filha seguiu em frente, se torando uma respeitada cantora e dançarina. Ela vai se juntar com seu pai amanhã a noite, cantando famosas baladas de Billie Holiday.

O time pai-e-filha vai se apresentar à apenas alguns quilômetros da confortável casa estilo colonial que os Colloways são proprietários há 36 anos. Ele compraram a casa em uma esquina arborizada, contra a vontade dos vizinhos, que queriam eles longe.

“Sinto que nós erguemos um lugar para os Cab em Westchester”, diz a Sra. Calloway, uma socióloga que trabalhou no United States Department of Labor depois de casar com Mr. Calloway. “Eu tinha que apresentar ele não como um cantor de Hi-De-Ho da noite, e eles tinham que me ver não como alguém que masca chicletes e balança pérolas.”

Assim que chegaram, ela entrou para o conselho da Associação de Bairro, que tinha circulado algumas petições. “Eu pedi para ver as minutas”, disse ela, “mas eles tinham arrancado as partes relacionadas a gente.”

Décadas depois disse, os Calloways tem vivido harmoniosamente com os vizinhos, que a Sra. Calloway chama de “maravilhosos”.

“Eu prefiro”, diz ela, “ver o copo meio cheio.”

Em um dos capítulos da autobiografia de seu marido, em que alguns dos membros da família contribuíram com algumas palavras, a Sra. Calloway escreveu: “Um dos erros que acho que as pessoas cometem quando pensam sobre Cab Calloway é ignorar a possibilidade de que dentro deste energético, vibrante, deste homem vital, projetado a partir da batida do coração de um homem comum, que este homem pode sentir profundas decepções, que esta no seu próprio caminho, tímido, e passou por mudanças que um homem fraco não suportaria.”

Link para versão original | http://www.nytimes.com/1992/06/14/nyregion/cab-calloway-the-loner-and-the-showman.html?pagewanted=1

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