All Star #39 [conto]

Imagem | Antimidia

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Nunca fui para escola estudar. Quando se esta no terceiro colegial é preciso de mais do que isso para acordar com o sol nascendo e encarar um professor chato falando de fórmula de Bhaskara, ou outra coisa estranha assim. Meu motivo para ouvir os pássaros cantando logo pela manhã era ver a Julia. O dela era estudar. Conseguia imaginar ela sendo uma grande advogada, defendendo todos os oprimidos e injustiçados. Ganhando todos os casos. Morando numa casa grande, com jardim e flores. Feliz. Com a música tocando e ela dançando. E eu queria estar lá, com ela. E isso parecia tão distante quanto o Alasca. E eu não tinha a menor ideia de como chegar no Alasca. Porque nunca vou ter dinheiro para ir até o Alasca. Porque eu não sou exatamente o tipo de cara que uma garota escolhe para ir para o Alasca. Porque a minha realidade não ia muito além de alguns baseados e aventuras idiotas que um dia vou ter vergonha de contar.

Esperei uns dez minutos, vivendo do conto de fadas que minha imaginação fértil desenhava no coração, para ver se ela ia me dar um pouco de atenção. Mas ela parecia decidida a aprender matemática. Eu precisava descontar uma madrugada inteira perdida na internet, então abracei a carteira, montei um travesseiro de cadernos, e dormi. Acordei para o primeiro intervalo e fui para a garagem dos ônibus fumar escondido. “Vamos hoje a tarde na sua casa escutar The Verve e assistir Quase Famosos?” Ouvi a voz da Julia vindo por entre o corredor de ônibus, e ela apareceu com um salgado e um copo de coca na mão. “Vamos sim. Vou pegar uma parada na favelinha quando sair daqui para gente fumar. Que tal umas 3h?” “Pode ser, mas se a gente vai fumar precisa ter alguma coisa para comer.” “Tudo bem, vou preparar uns petiscos.” Agora até sentia que estava feliz. Poderia passar cem anos assistindo filme, fumando e comendo com ela. “Vou chamar a Paula também.” Claro que vai. Meu quarto era fora da casa, dava para fazer muito mais que comer, fumar e assistir filme. Dava para fingir que a gente morava sozinhos e podia fazer tudo que queria. Escutar música alta, maconha, passar a noite acordados. Era quase como ser livres. “Tudo bem. Acho que a Alina e o Enrolado vão passar lá também.”

Quando as meninas chegaram estava acabando de preparar os comes e bebes. Queijo com orégano, batata chips e coca gelada. Barra de chocolate de sobremesa. “Porque você coloca tanto poster na parede? Parece que tem um milhão de pessoas olhando para a gente aqui as vezes”, comentou a Julia se ajeitando no canto da cama. “Se você quiser posso jogar todos eles fora.” Não falei isso, mas gostaria. Coloquei o Urban Hymns direto em Velvet Morning. “Essa música é melhor do que a primeira.” Sabia que a Paula gostava mais desta do que de Bitter Sweet Symphony, e assim não parecia que estava fazendo tudo para a Julia. “Acho que o CD inteiro é foda.” Foi isso o que eu disse. Sentei na escrivaninha e comecei a bolar baseados. “A gente vai fumar tudo isso?”, perguntou a Paula. “Não sei, mas não vai precisar parar o filme para fazer isso.” Os outros membros da equipe tarde feliz chegaram. A Alina estava com cara de quem tinha um problema. “Minha mãe disse que se eu não passar no vestibular vou ter que trabalhar com ela na loja no ano que vem.” “Se eu estivesse no seu lugar parava tudo e estudava muito”, respondi pensando no quão chata era a mãe dela. “Ou ia dormir no trabalho também, não é verdade?” O Enrolado tirou onda da minha cara e a Julia caiu na risada. Do jeito que ela ria tinha certeza que ela achava que eu era um idiota.

Acendi dois baseado e coloquei na roda. “Esta é a G-13”, brinquei. “Então vou fumar e me enterrar nesta cama”, disse a Julia. “Você pode viver aí se quiser.” Não falei isso, mas gostaria. “Acho que se não existisse maconha eu inventava”, disse a Alina e todo mundo gargalhava. “Do jeito que você é só se fosse por acidente…”, e a Julia levou a histeria a níveis ainda desconhecidos para pessoas como a mãe da Alina. “Muitas coisas foram inventadas por acidente, o microondas, o plástico, esta batatinha…”…fui interrompido pelo Enrolado…“até você…”…e a gente ria tanto, e olhava um para o outro e ria mais. Tinha certeza que eu era um completo idiota.

A Alina e o Enrolado saíram pouco depois que a sessão tudo é muito engraçado acabou, tinham aula de inglês. Coloquei o filme e deitei no chão. Aproveitei que a Paula foi no banheiro para subir um degrau e sentar aonde ela estava com a Julia na cama. Não fiz isso, mas gostaria. Olhava para a televisão e me via no lugar do William Miller, e a Julia era a Panny Lane. Na verdade ela é muito mais bonita Kate Hudson. Dormi antes de descobrir que os dois nunca iam ficar juntos. Acordei com o televisão na novela das sete. Já era noite, e a Paula não estava mais lá. Carinhosamente coloquei a mão nos ombros da Julia e com uma voz suave acordei ela também. Ela deu um gemido leve, se espreguiçou e bocejou com tanta vontade que poderia engolir o mundo. “Se você quiser pode dormir aqui hoje.” Não falei isso, mas gostaria. Acompanhei ela até o portão. Quando fomos nos despedir estávamos meio sonolentos, e por um instante eterno o canto dos nossos lábios se tocaram. Senti como um frio na barriga como se estivesse no Alasca. Ela sorriu e foi embora.

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