Perdendo tempo e ganhando a vida [conto]

Imagem | Antimidia

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Me acordaram as sete e meia da manhã. Era sábado. Quando se mora de favor muitas vezes dormir é um luxo. Fui deitar umas três horas. Fiquei jogando conversa fora e fumando um com a galera da rua. Não estava com a menor vontade de levantar e ir hablar español. Falei para minha tia que estava com dor de cabeça e não ia. Ela queria mostrar atenção, eu não sabia porque.

– Toma um remédio.

– Não, obrigado tia, não tomo remédio. – Ela estava bem intencionada, só não compreendia a situação.

– Mais precisa tomar, vai ficar com dor de cabeça?

– Me deixa dormir um pouco que passa.

Ela saiu do quarto, virei e fiquei meio vivo meio morto. Viver em apartamento é uma merda, é pequeno e tem sempre alguém que fala alto. Eles estavam falando alguma coisa de mim, talvez sobre minha atitude. Não estava muito preocupado, só queria dormir até umas dez horas. Minha tia voltou para o quarto.

– Fiz um leite para você, toma que passa. – Tinha certeza que ela colocara remédio no leite, porque diabos queriam me enfiar aquilo pela goela?

– Deixa ai em cima que eu vou tomando.

– Como está a cabeça?

– Do mesmo jeito que estava há cinco minutos atrás, martelando.

– Se não tomar remédio não vai passar.

– Vai sim. Fica tranqüila.

Escutei todo mundo saindo para algum lugar. Dormi aliviado até as dez e meia. Acordei pensando em ir à aula de espanhol à tarde, mais desisti rapidamente. Me troquei, peguei minha mochila e sai, com vinte mangos no bolso. Fui pegar o ônibus para ir à Rua Augusta, tinha que fazer uma reportagem lá. Estava com a cara amaçada, afinal, estava com sono. Minha tia passou no ponto justamente enquanto eu estava lá. Ela parou na farmácia que tinha do lado e veio até mim.

– Nossa, você esta vermelho! Esta tudo bem? E a cabeça? – Foi logo colocando a mão na minha testa.

– Já esta passando, vou para Augusta fazer um trabalho, tenho certeza que lá vai passar.

– Acho que você esta com febre, quer que eu compre um remédio? – Putz! Tudo porque eu inventei uma dor de cabeça, ela já começava a virar real.

– Não tia, pode ficar tranqüila, eu estou bem.

Ela foi embora, meu ônibus apontou na reta onze horas. Entrei e fiquei olhando a manhã de São Paulo. Não me lembrava de ter feito isso, saído para ver o sol da manhã. Contando onze horas como ainda de manhã. A cidade estava vazia, ainda bem, se não o trânsito ia estar um inferno. No ônibus tinha duas velhas gordas, com cara de mal comidas, o cobrador estava cochilando, e aparentava ter uns dezesseis anos, acho que isso é ilegal. O motorista era um velho com cara de pinguço, no banco atrás do meu tinha uma mina escutando walkman. Ela tinha aquele jeito rock’n roll meio nonsense. Pensei em chamar ela para ir à Augusta caminhar comigo, mais não sei porque não chamei. Ou sei. Tinha um trabalhador dormindo no último banco, não cheguei perto. Por experiência sabia que ele estava fedendo.

As pessoas andavam sorrindo na rua, gesticulavam para todo lado. Não sei porque alguém poderia estar feliz com alguma coisa. Ou sei. O sol tem um brilho diferente de manhã, mais intenso. Agredia meus olhos. O transito fluía bem, mas fluiria melhor se não tivesse tanto semáforo da Rebouças.

Desci na Augusta onze e meia. Lembrei que não tinha comido nada. Olhei e vi um buteco meio limpo na frente do ponto. Tinha uns pedreiros almoçando lá. Achei que não devia ser muito caro e entrei. Sentei no balcão e o cara veio.

– O que vai ser?

– Um refrigerante pequeno e uma coxa de frango empanada. Traz catchup e mostarda também.

Tirei da mochila um bloco de anotações e o gravador. O cara trouxe o que pedi, como não tinha mostarda ele trouxe pimenta. Não entendi a relação que ele fez, se ele só tinha pimenta ou se achava que mostarda e pimenta tinham alguma coisa a ver. Ia tomando o refrigerante enquanto verificava se estava tudo certo com minhas ferramentas. Comi a coxa de frango vendo um programa de esportes que passava na televisão, não arrisquei a pimenta. Enquanto tomava o resto do refrigerante anotava algumas perguntas, para eu ter um roteiro. Pedi a conta.

– Quanto fica o meu ai amigo?

– Três reais.

– Putz! Quanto que é a coxa de frango? E o refri?

– Um e setenta a coxa, e um e trinta o refri.

– Puta merda! Toma esta porra, nunca mais volto aqui.

Sai de lá com três reais a menos, pensei que ia dar uns dois conto tudo, me senti roubado. Fui subindo a Augusta, estava na parte mais nobre. Onde tem as lojas grandes. Tinha um monte de velhas emperiquitadas com bijuterias e com quilos de pó de arroz na cara, tudo vendo vitrine. Não tinham um centavo no bolso e ficavam bancando as milionárias. Iria tentar falar com uma ou duas mais tarde. Entrei na Galeria Ouro Fino para dar uma olhada, estava vazia. Tinha umas lojas legais, uns estúdios de tatuagem e uma loja só para maconheiros. Passei em frente uma joalheria e vi um velho. Ele devia ter a loja ali a anos, poderia falar alguma história legal para a reportagem. Fui conversar com ele.

– Ola, eu escrevo para a revista Paulistana, estou fazendo uma reportagem sobre a Augusta, poderia conversar com o Senhor um estante.

– Não, estou lendo o meu jornal. – Ele pegou abriu o jornal e se escondeu atrás dele. Turco sacana, se tivesse comprado um relógio ele tinha falado. Virei as costas e fui embora.

Comecei a desanimar, já não sabia muito bem como começar, e ninguém queria falar. Tudo bem que não abordei muita gente, mas dava para ver no jeito que eles olhavam para alguém com um gravador e um bloco de notas. Fui subindo a rua, observando o marasmo do sábado de manhã, que já era tarde.

Vi uma velhinha com uma cara feliz. Ela com certeza não ia se negar a falar. Estava olhando uma vitrine quando eu me aproximei.

– Com licença Senhora. Escrevo para a revista Paulistana, estou fazendo uma reportagem sobre a Rua Augusta, poderia conversar com a Senhora?

– Sabe meu filho, meu tempo de Augusta já passou. – Ela falou isso meio rindo, e já saiu andando. Me deixou com a revista na mão, sem reação.

Isto me desestimulou completamente. Dois não em menos de dois quarteirões, foi foda. Decidi abortar a reportagem, tinha mais três semanas para entregar a matéria. Subi a rua fazendo algumas anotações, não falei com mais ninguém. Parei em um barzinho que tinha no caminho. Era em uma viela. Bonitinho o lugar. Ia ser melhor se fosse um típico coffe shop em Amsterdã. Ficaria ali fumando o dia inteiro, curtindo o ambiente, a leveza do ar. Tomei um cappuccino e comi uns pãezinhos de queijo. Era quase uma hora já. Enquanto fumava um cigarro uma garota sentou no banco do lado do meu, ficou me olhando. Pensei: “Me sinto um lixo, devo estar com uma aparência detestável, mais ela esta olhando para mim. Que bom!”

– Oi, você não quer dar uma entrevista para revista Paulistana? – Usei este argumento escroto para começar a falar com ela.

– Não, só quero tomar um café. – Merda, ela devia estar me olhando e pensando “como alguém chega a esta situação?”

– Sozinha? – Já que tinha começado, compensava tentar alguma coisa.

– É. Você não toma cappuccino sozinho? Eu tomo café. – Queria mandar ela a merda, mais me contive.

– Você é sempre tão gentil assim ou hoje tem alguma razão especial? – Pedi para a mocinha que me atendeu ver quanto tinha dado a minha conta. A garota ficou me olhando no olho. Ela estava indignada com alguma coisa. Achei que ela ia começar a me falar merda e não pararia mais. A mocinha da lanchonete voltou.

– Quatro reais senhor. – Na hora pensei: “Puta merda! Comi quatro mini pães de queijo e um cappuccino. Não é possível que tenha ficado quatro mangos!” Dei uma nota de cinco para ela. Virei para olhar a mina de novo e ela não estava mais lá. Subi a rua fazendo mais anotações para ilustrar a reportagem.

Chegando na Paulista comprei cinco maços de cigarros paraguaios. Era metade do preço dos nacionais e eu fumava menos, porque eram horríveis. Olhei no bolso, tinha menos de dez mangos e não tinha feito nada que prestasse com o que tinha gasto. Por ali também comprei mais um passe de ônibus de outro camelô. Economizei vinte centavos. Tinha menos de sete mangos e umas moedas.

Continuei descendo a rua da luxuria até o fliperama. Cinco fichas. Joguei algumas na maquina de futebol. Eu era viciado, mais sempre tinha outro mais viciado para me fuder. Joguei quinze jogos. Ganhei dez e perdi cinco. Três foram do mesmo cara, mais ganhei duas dele. O melhor foi um alemão que perdeu cinco de mim. Seguidas! O cara até que jogava bem, mais ele pegava a Jamaica, a defesa era uma merda.

Fui para a Paulista pegar ônibus três e meia, tinha cinco reais no bolso. Não tinha feito porra nenhuma e tinha gastado toda minha grana do fim de semana em poucas horas andando na Augusta. Merda!

Cheguei na praça perto do prédio quase cinco horas. O trânsito estava movimentado na Rebouças. Tinha uma vontade controlável de destruir todos os semáforos daquela porra. Sentei num banco e fiquei parado lá, fumando cigarros e lendo um livro. Tinha um monte de mulher com filhos brincando em volta. No fim do dia estava sem grana, sem material para reportagem e sem uma bela tarde de sábado.

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