The dream is over again [conto]

Imagem | Antimidia

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Não sei como nem porque chegaram até mim, mas vi pelo olho mágico que tem um homem fardado com uma pasta preta na mão na minha porta, que deve estar querendo saber um monte de coisas que fiz e não lembro. Ou pior. Ele sabe o que fiz, e eu não. Enquanto isso estou no banheiro dando descarga em todo meu kit sobrevivência. Porque? Porque estou desesperado? Salvei do meu delírio parte da maconha e os comprimidos amarelos e azuis. Adeus morfina, comprimidos brancos e cápsulas, mescalina e cocaína. Tim-Don. Campainha de novo. Faz quanto tempo que este cara esta lá esperando? Tomei um comprimido amarelo e abri a porta até o limite do pega-ladrão. “Então, o Senhor está bem?”, ele pergunta. “Sim, não. Há algo errado comigo?”, respondo tentando tirar alguma coisa errada da cara. “Não, foi só uma saudação amistosa.” “Claro, sim. Estou bem, e o Senhor?” Percebi que ele estava me tratando estranho, como se talvez um culpado. “Sou policial inspetor do serviço social e comportamento moral e cívico. Posso entrar por um minuto?” “Não!……sim…..claro, só um minuto.” Fechei a porta e corri para dentro duas vezes mais desesperado. Peguei um cobertor e joguei em cima da mesa, varri toda a mesinha de centro num saco de lixo, acendi um cigarro, um incenso e coloquei um sabonete para ferver. Tim-Don; Tim-Dom. Passei água na cara, perfume, penteei o cabelo, coloquei uma camiseta limpa, pinguei um colírio e joguei água em todo mármore do banheiro. Tomei mais um comprimido de não tenho certeza o que. Tim-Don; Tim-Dom; Tim-Don; Tim-Dom. Abri a porta como se nada tivesse acontecido deixei ele entrar.

Para onde olhava via um crime em andamento. No cinzeiro, na estante, dentro do copo, no prato, a minha casa inteira era uma prova incontestável de total desprezo as leis e ao contrato social estabelecido por Hobbes, com apoio incondicional do seguro desemprego e de Bukowski. Estava num período de transição de alcoólatra para drogado meio bêbado. Os psicólogos diziam que isso era bom. Não sei bem qual vai ser a opinião do policial inspetor. Parecia uma boa hora para ter uma arma. De algum jeito ela ia ajudar a resolver tudo de uma forma rápida e indolor. Liguei a cafeteira e disse para ele sentar na cozinha. “Então, recebemos uma queixa da agência de empregos comunitária de que o Senhor não tem comparecido as entrevistas de emprego nem aos cursos de capacitação profissional. Também não tem preenchido os relatórios on-line de atividades diárias. O que o Senhor tem feito ultimamente?” “Estou me empanhando em escrever um livro. Um best-seller inevitavelmente. Paralelamente a isso sou vocalista de uma banda, os Ratos Limpos, estamos pensando em gravar nosso primeiro EP.” “Sim, é muito bom desenvolver os dons artísticos, mas o Senhor entende que precisa fazer mais?” Se ainda tivesse minha dose pessoal de láudano para emergências diria que esta é uma emergência.

Enquanto esperava a boa vontade da cafeteira o inspetor policial levantava a ponta do cobertor para ver o que tinha embaixo da mesa. Tirei duas xícaras de lá e olhei para ele com uma cara de “para de cheretar!” “Porque a mesa esta coberta com o cobertor?” “Podemos tirar ele, mas quem sabe o que vai sair daí? É melhor deixar quieto o que esta quieto, não?” O oficial ficou me olhando com cara de reprovação, e para desviar a atenção acendi um cigarro e levei ele para a sala. “A janela é maior, e a fumaça incomoda menos.” “Na ficha do Senhor também consta que o Senhor tem um problema com drogas e bebidas alcoólicas. Como o Senhor esta lidando com isso? Tem comparecido as reuniões de Recuperação Motivacional?” “Sim. A psicologa me tirou do grupo e estamos fazendo grandes avanços. Ela acha que estou alguns passos a frente dos outros. Tenho diminuído drasticamente o consumo de drogas e álcool. Tenho feito tanto esforço que as vezes dói, por isso talvez tenha perdido um ou duas entrevistas de emprego.” “Estas pontas de baseado no chão, estas revistas pornográficas no sofá, estes filmes velhos, as garrafas vazias, isso tudo não teria nada a ver com estas faltas?” “Talvez………não…….tenho me esforçado muito, diminui bastante, mas não disse que parei.”

O inspetor soldadinho começou e me olhar estranho de novo. Já tinha me afundado todo na merda. “O que não entendo é como Senhor pode gastar tanto dinheiro com estes vícios recebendo apenas o benefício social mensal? Se o Senhor tem outras fontes de renda não pode receber os benefícios.” “Não……..não, eu não tenho outra fonte de renda. As pessoas vem aqui e me dão isso. Tudo bem, algumas vezes eu peço, mas nunca gasto dinheiro com isso.” “Então, deixa ver se entendi: o Senhor pede as coisas para as pessoas e elas dão? Sem o Senhor apontar uma arma para elas, claro, e sem nada em troca.” “Não…….claro, sem armas. São alguns amigos, que me ajudam quando preciso.” “E o Senhor pode me fornecer o nome de quem ajuda o Senhor com drogas quando o Senhor precisa?” Acabou o julgamento. Ele deu o veredicto e era cair e cair e cair. Para ele é só colocar meia duzia de “x” num formulário. Os comprimidos já não são mais suficientes para conter a tremedeira. Cocaína ajudaria com os sintomas do desespero e a coragem suficiente para levantar e sair correndo daqui rumo a lugar nenhum.

Porque não havia mais nada para fazer me pareceu que o melhor era barganhar para não ser preso ou denunciado, porque não há nada tão ruim que não possa ficar pior. Com as cartas na mesa restava jogar o jogo. O que me fez lembrar que tudo que joguei na privada ia fazer mais falta do que podia imaginar. De novo de volta para pinga com limão. “O que vem agora?” “Seus benefícios serão cortados pelos próximos seis meses. Neste tempo esperamos que o Senhor continue com acompanhamento psicológico, abandone o vício e se esforce mais para arrumar um emprego.” Atingir o bolso é sempre o melhor estímulo que um homem pode ter para buscar algo melhor para si mesmo. “Com certeza, vou me esforçar mais para, com a ajuda de Deus, afastar de mim este terrível mal que me atinge. Desculpe-me por ser um peso.” Toda repugnância do mundo estava estampada na cara dele. “Tente se recuperar e restaurar sua dignidade.” Ele tirou a minha ficha da pasta verde e marcou ela com um carimbo vermelho escrito “viciado”, depois guardou ela numa outra pasta preta, se levantou, fechou a porta e foi embora.

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