Ovelhas desgarradas andando no trilho do trem [conto]

Imagem | Antimidia

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Helena invadiu o bar como um tiro. Passou pela porta já fazendo estragos e esbarrando em tudo e todos pelo corredor. O Jaime olhou para ela, depois olhou para mim lançando uma bigorna de responsabilidade no meu peito. Meu desejo de desaparecer não foi realizado e ela veio na minha direção cambaleando e rindo. “Como você ousa me deixar dormindo e vem para o bar?” Quem escutasse isso poderia perfeitamente dizer que a gente era casado, ou tinha um caso, ou outra coisa do tipo. Amigos íntimos no mínimo. Eu só tinha vontade de não ser eu mesmo, ser qualquer outra pessoas em qualquer outro lugar. Ela sentou do meu lado e ninguém mais abriu a boca no balcão. Agora eram duas bigornas de responsabilidade na testa independente do que acontecer daqui para frente. Esperavam de mim uma reação. Como não sou bom em reações e em respostas tentei fazer uma cara de espanto que diria por si só: “Não sei do que você esta falando?” Também não funcionou. Então o silêncio e ela continuaram. “Vem comigo que encontrei uma coisa no caminho que vai te levar para o alto e avante.”

Entrei com ela no banheiro feminino. Ela tirou do bolso duas folhas e colocou uma na palma de cada uma das minhas mãos. Depois jogou a cinza de alguma coisa, que só esperava que não fosse de um ser humano cremado, em cima. “O que é isso?” “Cinza de batata doce com folha de coca.” “Coca cocaína?” “Isso. Tempera a folha com esta cinza e masca como um chiclete.” “E tem o mesmo efeito?” “Não, só vai amortecer sua cara. Você também vai precisar disso.” Ela tirou da bolsa uma cápsula com um pó meio azulado e fez duas carreiras em cima da pia. “Isso é cocaína?!” “Não, é uma mistura de remédios com bicarbonato, para dar um gostinho. Agora masca isso e cheira aquilo que cocaína vai parecer leite com chocolate.” A folha tinha um gosto amargo, e as tais cinzas de batata doce pareciam areia entre meus dentes. O bicarbonato começou a espumar na minha garganta e tinha a impressão que estava babando uma gosma branca. Comecei a me retorcer como um cão sarnento e sentia que qualquer contato com o mundo externo poderia ser um desastre em potencial.

Sai do banheiro no estado que a Helena entrou no bar, e agora eramos sem dúvida um casal. Voltamos para o balcão alegres e felizes como dois gansos com espasmos depois de comer um peixe envenenado. Pedi duas cervejas e o Jaime ficou me olhando com cara de reprovação e raiva. Tirei uma nota de vinte do bolso e duas latas apareceram no balcão. Fiz um ar de durão e olhei nos olhos dele enviando uma mensagem telepática que dizia: “Quero mais!” Ele colocou mais duas dozes de vodca na nossa frente e recebi uma mensagem telepática dele que dizia: “Beba isso e saia do meu bar!” Fingi que não escutei. A Helena me agarrou e me deu um beijo. Nossas línguas se entrelaçavam com uma leveza estranha perto do frenesi de nossos corpos. Tinha pouco ou nenhum controle dos meus movimentos. Minhas mãos se apertavam com tamanha força que pareciam que iam implodir. Acho que perdi completamente o eixo referencial e me sentei no chão porque não conseguia mais me equilibrar na cadeira. Isso cortou meu mundo pela metade e só conseguia enxergar as pessoas da cintura para baixo, cobertas por uma névoa e sem foco.

O Jaime pensou que era uma overdose e começou a me arrastar para fora. “Ninguém vai morrer desta merda dentro do meu bar!” A Helena gritava com ele enquanto me segurava pelo pé. “Larga ele seu velho maldito!” Eu era a corda do cabo de guerra, que foi vencido pelo Jaime. A Helena caiu aos meus pés e pude sentir suas mãos escorregando pela minhas pernas como numa cena de cinema antigo, quando o mocinho esta sendo carregado pelo bandido e a mocinha fica no chão, com as mãos no rosto, chorando copiosamente. “Não, por favor, não leve ele…” Mas isso não era um filme, nem eu um mocinho, nem ela uma mocinha e o Jaime sim era um bandido filho duma puta. O insensível me arrastou até a esquina do bar e me largou meio escorado num poste. A Helena veio em meu socorro e tentou me carregar pelo ombro. Caímos os dois juntos novamente como se aquilo representasse o fracasso total de nossas vidas. E ela chorava enquanto eu me perguntava porque ela ainda estava de pé depois da degustação de cinza com folha e pó, e se meu corpo estava se transformando em água e se esvaindo em suor.

Me senti vivo de novo com os primeiros raios de sol na cara antes que fosse de manhã. Estava todo travado e encolhido na sarjeta, e ela estava caída embaixo do toldo da doceria que funcionava durante o dia do lado do bar. Os senhores e senhoritas que passavam nos olhavam com um espanto que fazia eu me sentir um pouco melhor, mas nem de longe amenizava as dores. O Jaime estava varrendo a calçada da frente como se aquela espelunca fosse um ambiente de família e a cozinha um lugar limpo. Ele me olhava com raiva como se gritasse: “O que você ainda esta fazendo aqui!? Volta para o seu buraco!” Demorei uns dez minutos entre acordar e conseguir me mexer. A comunicação do cérebro com os membros se dava através de pequenos sinais elétricos, como um computador com Windows travando para rodar um vídeo. Cada osso do meu corpo se estralou, e os músculos estavam em frangalhos quando levantei. Agora parecia que tudo ia ficar bem. Acordei a Helena e saímos dali antes que alguém do serviço social pudesse nos fazer algum mau.

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