Espantalhos perdidos em busca do anzol de ouro [conto]

Imagem | Antimidia

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Sempre que Neb vinha andando pela Praça Ramos no fim da tarde ele tinha certeza que os bons tempos não viriam. Dava para ver na forma como a polícia olhava para as pessoas, na salsicha passada do cachorro-quente barato que ele vinha comendo. Tudo gritava que mudança era um luxo que não estava reservado para ele. Se fosse para mudar já tinha mudado. Por isso, que ao invés de ir para casa esperar tudo que não estava guardado para seu futuro brilhante, ele foi procurar alguma coisa no fliperama. O Rato estava arrebentando um lorpa do Virtual Eleven e o Benzina devia estar desfrutando da mesma ficha no pinball há horas. A Cati dava uma volta na máquina sozinha no Daytona. Ele sentou no cockpit do lado dela com um baseado na mão. “Desiste, não dá para ser melhor do que eu.” “No Street Fighters talvez.”

Os dois saíram de lá e foram andando até a 9 de Julho. Um dos lugares mais tranquilos para se fumar um baseado são os tuneis da cidade. Só carros, buzinas, batidas de grave. Eles entraram uns cinquenta metros dentro do buraco e se sentaram no meio da estreita passagem de pedestres. “O que aconteceu?”, ela perguntou. Ele passou o beck. “O Crucificado vai sair da banda. Passou numa faculdade no interior.” “Acha outro baixista. Estamos em São Paulo.” “Não é assim, ele era o cara certo. Temos uns shows marcados já, estamos no ponto para decolar.” “E o que você vai fazer?” “Nada.” Eles ainda ficaram ali um tempo, fumando um cigarro e chegando o mais próximo do sexo que era possível num local público. Quando foram surpreendidos por um transeunte desavisado consideraram que era um sinal do pico dizendo que já era hora de sair de lá. Continuar a vida. Enquanto o oportunista para explorar todo talento daquele jovem não se revelasse restava lavar pratos e servir mesas. No Friday’s. Fantasiado de marinheiro. Até a meia noite. “Você é o Popeye?” era o mais perto de um elogio que Neb escutava de seu público.

Desempregado, os dias de entre-safra de Rato estavam bem parados. Ele não tinha nada para fazer, acordava sem vontade de fazer coisa alguma, então não procurava nada. Por consequência passava o dia sem fazer nada esperando a oportunidade da sua vida aparecer depois de uma vitória numa máquina de futebol. E ele tinha centena de manchetes perfeitas para capas de jornais que jamais serão vendidos. E ele tinha milhares de idéias sobre músicas, vídeos e fotos. E tudo isso valia milhões, que ninguém queria pagar. Se sua vida fosse um filme com certeza seria um blockbuster. Sua rotina seria o maior seriado de TV de todos os tempos. Mas aquela terça-feira poderia ser o fim do calvário. (música do Guns n’ Roses no toque do celular). “Alô” “Você é Rafael Ramella?” “Quem?” “Rafael Ramella.” “Também sou inocente.” “Com certeza sim. Sou James Crackhaur. Represento a gravadora escandinava Vallorià e gostaria de falar sobre uma proposta. Posso ir a um ensaio da sua banda?” “Não, não hoje.” “Ok. Podemos nos encontrar no hotel Malaya?” “Sim, daqui a duas horas no bar.” “Ok. Aguardo o Senhor no bar.”

Como a maior parte das coisas da vida de Rato não faziam muito sentido, ele não parou muito para pensar naquela situação. Saiu correndo pela Praça da República na caça de Neb. Entrou no Friday’s todo afobado e desajeitado. Abriu espaço e em meio a protestos pulou o balcão e foi até a pia. “Acabou. Um tal de Crack sei lá o que me ligou. Eles vão contratar a gente. Você conhece a gravadora Velo qualquer coisa? Da escandinava.” “Não, o que tem eles?” “Eles que vão contratar a gente. Vamos, temos que estar no hotel Malaya em menos de duas horas.” Com o sucesso dependendo apenas de um rabisco num pedaço de papel Neb tirou seu avental e simplesmente saiu andando pela porta da frente. “Se você for não volte!” Quando se chega neste ponto é porque não se tem muito mais o que pensar. Perguntas e duvidas podem ser um obstáculo desnecessário até o cume do gráfico da vida. “Como a gente vai fazer sem o Crucificado?” Para Neb a banda já estava com um pé na cova, e agora invés de inferno o caminho era direto para ao paraíso. “Quando ele souber disso vai mandar a faculdade para merda.” Para Rato sempre foi questão de tempo, e o inevitável começava a virar realidade.

Só quando entraram cercados de olhares pelo salão do hotel Malaya começaram a desconfiar de que não tinham a menor idéia do que estavam fazendo. Um funcionário bem vestido e engomado se aproximou do dois. “Boa noite. Os Senhores estão procurando alguém?” “Temos um encontro no bar do hotel.” O Rato estava quase eufórico. “Algum em especial?” “Como assim algum?” “Temos três bares.” O lacaio gesticulava e apontava. “Um no lobby, outro na piscina e um terceiro no segundo andar.” “Não sei.” O Rato olhava para o Neb e o Neb olhava para o Rato. E nenhum dos dois sabia mais o porque estavam ali. “Os Senhores vão encontrar um hóspede?” “Talvez. O nome dele é Crack alguma coisa. Ele é de uma gravadora escandinava.” “Vou verificar. Me acompanhem por favor.”

Como cães perdidos a procura do dono os dois foram até a recepção. Uma mocinha aparentando ser muito prestativa e simpática disse que havia um recado que indicava que o Senhor Crackhaur aguardava a chegada do Senhor Rafael Ramella no bar Shine. “Sou eu! Aonde é este bar?” “No lobby Senhor.” Respondeu a jovem apontado para o lado. Sem nenhum obrigado os dois foram sérios no caminho indicado. Quando entraram no salão o Crucificado, o Manco e o Cadu estavam sentados no bar. Neb e Rato ficaram estáticos, com cara de quem acabou de entrar numa sauna gay por engano. Não tinha mais ninguém, e quando eles voltaram os olhos para o trio estavam os três rindo freneticamente. Com a mesma voz e sotaque do telefone o Cadu falou: “Sentem para escutar uma proposta Senhores.”

Sem ter mais nada a perder o Rato cruzou o salão correndo e pulou com o pé no peito de Cadu, que ainda não conseguia parar de gargalhar. O Cadu voou para dentro do bar carregando consigo copos, garrafas e cinzeiros e tudo mais que estava no caminho entre ele o balcão e o chão. “Eu vou te matar seu bastardo filho de uma puta!” Com toda fúria de alguém que teve todos os sonhos arrancados como gordura encrostada num fogão velho o Rato avançou por cima do balcão, e os dois começaram a se atracar pelo chão se debatendo e quebrando qualquer coisa que tivesse no raio de ação da batalha. Neb ficou imóvel como uma barata que finge estar morta para afastar o perigo até perceber a movimentação dos seguranças e as sirenes da polícia cada vez mais perto. Então saiu sem ser notado e voltou para o Friday’s com a única esperança de ser perdoado.

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