Começo de carreira [conto]

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Imagem | Antimidia

Sandra entrou na sala e foi bater o dedo. Quando levantou a cabeça leu no quadro: “o importante não é vencer todos os dias, é lutar sempre!” A primeira coisa que pensou foi que importante era aquele tipo de mensagem não estar ali. Não era um escritório com espaços para um central de telemarketing, ao contrário, os atendentes não tinham nem um cubículo próprio. Todos se sentavam lado a lado numa mesa horizontal grande. Contando que mesa são três tábuas de madeira cobrindo as três paredes da sala. Tudo era improvisado. Privacidade não era um conceito levado em consideração pelo arquiteto de toda aquela desorganização. Para se manter o mais longe possível dali o melhor jeito era evitar o contato visual. Cabeça baixa e foco…….não havia muito futuro para ela naquela situação. Isso porque sua mãe estava com 65 anos e não conseguia mais trabalho e seu pai havia sumido muito tempo antes. Não tinha muito para pensar.

Assim que ela logava o computador apareciam uma lista de números de telefones com uma de nome do lado. Haviam três cores: vermelho – nunca atende; amarelo – nunca comprou; verde – velhinhas simpáticas e carentes que conversariam até com um cavalo se ele conseguisse fazer a ligação. Cada cor tinha uma pontuação: 5 – 3 – 1. Cada vez que alguém atendesse uma ligação você marcava, e se vendesse o pacote de seguro para itens de cozinha inquebráveis se ganhava o dobro de pontos. A meta mensal era de 200 pontos. Se a soma total de todos os seus esforços fosse menor que a metade disso você recebia uma advertência. Duas advertências seguidas viravam na mão do advogado demissão por justa causa. E era a metade do mês, e ela tinha 47 pontos e vontade nenhuma de continuar.

Para começar o dia ela selecionou a opção random, que discou para ela um número de cor lilas, que ela nunca tinha visto na lista. “Bom dia Senhor. O Senhor estaria interessado em escutar uma proposta especial para o Senhor da Seguros Inúteis S.A.?” “Só se você escutar a minha com muita atenção depois.” “Não entendi Senhor.” “Você fala, e depois falo eu. Começa.” “Pensando no seu bem estar e em proteger seus valiosos itens domésticos, a Seguros Inúteis S.A. montou um pacote especial para o Senhor. Por apenas R$ 0,79 por mês, cobrados na sua conta de água, toda sua prataria, cristais e talheres estarão protegidos. O Senhor se interessa pela proposta?” “Não. Mas se você tiver menos de 25 anos e mais de 18 posso fazer você ganhar por semana o que ganha por mês. A Senhorita se interessa pela proposta?” “Que?” “Esta ligação esta sendo gravada, então se quiser mais detalhes vai ter que sair daí e vir até aqui.” Sandra anotou o endereço num pedaço de papel e colocou no bolso.

A primeira coisa que pensou foi que jamais trabalharia como prostituta. No alto dos seus 21 anos sua experiência não ia além de dois namorados e um primo. Não era a garota mais recatada de todos os tempos, mas também não era nem um pouco atirada. Em seguida vieram os cálculos, o que era possível fazer ganhando quatro vezes mais? Dava para ter celular com Internet 3G, televisão fininha no quarto e até comer no McDonald’s sempre. Pagava os remédios da sua mãe e ela ia poder ter um forno e uma cafeteira elétrica. Ia voltar a fazer bolos, doces e salgadinhos para vender e tudo ia ser como nos tempos da escola. Quando saiu para o almoço a primeira coisa que pensou já não era tão importante quanto as centenas de outras possibilidades que se avinhavam, que iam desde um trabalho secreto temporário até posso ficar milionária.

Depois de três dias Sandra se encheu de coragem para se encontrar com Esmeraldo. Ele ficava num hotel perto da Rodoviária do Tietê que tinha um luminoso gigante escrito “sauna”. Quando ela desceu do metrô sentia que todos olhavam para ela e sabiam para onde ela ia. Passando pelas garotas nos postes da Prestes Maia pensou que não queria trabalhar na rua. Esmeraldo também achou que ela tinha potencial para mais. Fizeram algumas fotos dela num dos quartos do hotel. “Você fica com este celular. Sempre que tiver um programa vou te ligar com o endereço e você tem uma hora para estar lá. Esteja sempre pronta. Você recebe o dinheiro e trás minha parte aqui, que é de 50% no começo.” Não tinha muito para negociar. Os valores estavam bem acima do que ela estava acostumada a receber por qualquer trabalho e não ia precisar ficar na rua nem numa boate.

Eram quase onze horas da noite quando o telefone tocou com o primeiro cliente. Sandra tomou o táxi e parou um quarteirão antes do Mequissudi Plaza. Enquanto caminhava planejava o que ia falar quando chegasse, como pediria informação para o porteiro e se teria que subir pelo elevador de serviço. Sem nenhuma dificuldade, e sem nenhum dos questionamentos que tinha imaginado, estava na porta do apartamento 2332. Tinha um bilhete escrito: “Entre sem bater”. Ela parou por alguns segundos, respirou fundo e abriu a porta.

O cliente era um empresário, de não mais que quarenta e poucos. Já estava bêbado e pelado, o que assustou um pouco Sandra. “Vou até o banheiro me arrumar.” “Não precisa de nada disso Neném.” Ele agarrou ela e a jogou na cama gigante. Sem saber muito o que fazer ela esperou ele tomar a iniciativa. Ele veio ajoelhando na cama gigante e enfiou o pau na boca dela. Sandra começou a chupar toda desajeitada e quando menos esperava ele gozou na sua garganta. Nunca ninguém tinha gozado na boca dela, que não aguentou. Primeiro tentou cuspir, mas logo começou a vomitar em cima dele. Com toda coragem de um bêbado que paga por sexo o cliente enfiou a mão na cara dela. “Sua porca nojenta!” Ela caiu da cama e começou a chorar. Também descontrolado ele começou a gritar. “Some daqui sua vagabunda!” Apavorada ela pegou sua bolsa e saiu desesperada pelo corredor. Foi socorrida por uma camareira, que a levou para um banheiro. Depois de passar algumas horas chorando num dos cubículos ela saiu, se limpou, e voltou para casa.

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